A democracia é amplamente celebrada como uma das maiores conquistas políticas da modernidade. Ela traz consigo a promessa de liberdade, justiça e participação popular. Mas, como cristãos, precisamos olhar para além das aparências e perguntar: será que a democracia pode se transformar em algo mais do que uma forma de governo? Será que, em alguns casos, ela assume um papel ideológico, sendo elevada a uma posição de devoção quase religiosa?
Neste artigo, exploraremos os riscos de transformar a democracia em um “deus” político e como isso pode se afastar do propósito cristão de reconhecer a soberania de Deus acima de tudo.

O que é Democracia e Como Ela Pode se Tornar Uma Ideologia
A democracia, em sua essência, é uma estrutura política que busca organizar o poder com base na participação dos cidadãos. Historicamente, ela tem sido definida como “governo do povo, pelo povo e para o povo”. Isso significa que, em um sistema democrático, as decisões são tomadas pela maioria e os governantes são eleitos por meio de sufrágio popular.
No entanto, quando analisamos a democracia à luz do cristianismo, surge uma questão importante: e se ela deixar de ser apenas um sistema de organização política e passar a ser um “credo” ideológico? David Koyzis, em seu livro Visões e Ilusões Políticas, argumenta que a democracia, quando elevada à condição de ideologia, assume a forma do “democratismo”. Nessa visão, a soberania do povo é colocada acima de tudo, tornando-se uma espécie de deus substituto.
Por exemplo, a crença de que uma política pública é correta simplesmente porque foi decidida pela maioria é um reflexo desse democratismo. Isso reduz questões complexas de justiça e moralidade a uma simples contagem de votos, ignorando valores absolutos que deveriam guiar qualquer sociedade.

Se você deseja saber mais sobre as ideologias políticas e como lidar com elas a partir de uma perspectiva cristã recomendamos o livro de David Koyzis, Visões e Ilusões Políticas. Koyzis faz tanto uma análise filosófica quanto uma crítica honesta a cada ideologia, revelando os problemas de cosmovisão inerentes a cada uma delas, destacando seus pontos fortes e fracos.
Democracia: Uma Forma de Governo, Não Um Valor Absoluto
É fundamental lembrar que a democracia é apenas uma das muitas formas de governo possíveis. Na antiguidade, pensadores como Aristóteles viam a democracia com desconfiança, considerando-a vulnerável à tirania da maioria, onde os interesses de pequenos grupos ou indivíduos podem ser completamente esmagados pela vontade coletiva.
No cristianismo, reconhecemos que nenhuma forma de governo é perfeita, pois todas estão sujeitas à corrupção da natureza humana. Ainda assim, a democracia é valiosa porque oferece mecanismos que podem ajudar a conter o abuso de poder, como eleições periódicas e a divisão de poderes. Reinhold Niebuhr, um renomado teólogo cristão, afirmou: “A capacidade humana de fazer justiça torna a democracia possível; porém, a inclinação humana para a injustiça torna a democracia necessária.”
Contudo, quando a democracia é transformada em ideologia, os perigos emergem. A ideia de que “o povo” é sempre soberano pode levar a decisões que violam os princípios de justiça divina. Afinal, a maioria nem sempre está certa. Um exemplo claro disso está nos regimes totalitários que surgiram com o apoio popular, como o nazismo na Alemanha.
Cristianismo e Democracia: Onde os Caminhos se Cruzam
Para os cristãos, a democracia oferece uma oportunidade importante: a liberdade de professar nossa fé e influenciar a sociedade de maneira pacífica. No entanto, não podemos confundir os benefícios da democracia com um compromisso absoluto com ela. Em última instância, nossa lealdade é a Deus, e não a sistemas humanos.
A Bíblia nos lembra que toda autoridade vem de Deus (Romanos 13:1). Isso significa que, mesmo em um sistema democrático, o papel do governo é limitado e deve estar subordinado à lei divina. Quando a democracia ultrapassa esses limites e se torna uma ideologia, ela substitui a soberania de Deus pela soberania do povo.
Por exemplo, em um contexto democrático, pode haver pressões para aprovar leis que são populares, mas moralmente erradas à luz da Palavra de Deus. É aqui que os cristãos devem exercer discernimento e coragem, lembrando que não seguimos a “voz do povo”, mas sim a voz de Deus.
O que é uma ideologia? Assista o vídeo e entenda.
Os Perigos do Democratismo
Um dos maiores perigos do democratismo é a ilusão de que a vontade da maioria sempre produz justiça. Na prática, essa visão pode levar à exclusão de minorias e à imposição de uma visão uniforme sobre uma sociedade plural. Além disso, o democratismo pode infiltrar-se em áreas onde o princípio democrático simplesmente não é aplicável, como na família, na igreja e até mesmo na fé.
Pense, por exemplo, na ideia de que todas as decisões dentro de uma igreja devem ser tomadas por votação. Embora a democracia seja útil para administrar questões práticas, ela não pode substituir a autoridade da Palavra de Deus ou do discernimento espiritual. Da mesma forma, na família, a autoridade dos pais não pode ser substituída por um sistema de “voto igualitário” com os filhos.
Democracia e Idolatria
A idolatria ocorre quando algo que está presente no mundo, como a democracia, é elevado ao lugar de Deus em nossas vidas. No democratismo, a vontade do povo é vista como infalível e suficiente para resolver todos os problemas da sociedade. Isso é um claro afastamento do cristianismo, que reconhece que apenas Deus é soberano e digno de total confiança.
Além disso, o democratismo muitas vezes nega a existência de verdades absolutas. Em uma sociedade que idolatra a democracia, tudo se torna relativo, e valores como justiça, moralidade e dignidade humana podem ser redefinidos pela opinião popular. Para os cristãos, essa abordagem é inaceitável, pois acreditamos que a verdade é imutável e vem de Deus.
Um Chamado ao Discernimento
Como cristãos, somos chamados a participar ativamente da sociedade, mas com discernimento. Devemos valorizar a democracia como uma ferramenta, mas nunca como um fim em si mesma. Isso significa reconhecer seus limites e resistir à tentação de absolutizá-la.
Em vez de colocar nossa confiança na “voz do povo”, devemos colocá-la na soberania de Deus, que governa todas as coisas com justiça e verdade. Ao mesmo tempo, devemos ser gratos pelos benefícios da democracia e usá-la para promover os valores do Reino de Deus, como justiça, compaixão e liberdade.
Jesus ou Barrabás: a voz do povo é que decide
O exemplo de Pilatos consultando o povo sobre a libertação de um prisioneiro, descrito nos evangelhos, serve como uma ilustração quanto aos perigos de simplesmente “escutar a voz do povo” sem considerar a justiça e os princípios maiores. Esse episódio é encontrado nos relatos de Mateus 27:15-26, Marcos 15:6-15, Lucas 23:13-25 e João 18:38-40.
Era uma tradição na época da Páscoa liberar um prisioneiro escolhido pelo povo, algo que podemos entender como um gesto político ou uma tentativa de apaziguar o povo judeu sob o domínio romano. Pilatos, percebendo que Jesus não havia cometido crimes dignos de morte, ofereceu ao povo a escolha: libertar Jesus, que não havia cometido crime algum, ou Barrabás, um criminoso conhecido, possivelmente envolvido em atos de insurreição e violência.
Do ponto de vista humano, parece óbvio que a escolha deveria recair sobre Jesus. No entanto, motivados por líderes religiosos invejosos e por uma multidão facilmente manipulada, o povo clamou por Barrabás, enquanto exigia que Jesus fosse crucificado.
A Voz do Povo Nem Sempre é a Voz da Justiça. Esse exemplo é emblemático para discutir os limites e os perigos de decisões tomadas com base apenas na opinião da maioria. Pilatos, ao perguntar ao povo quem deveria ser libertado, não estava buscando justiça. Ele estava transferindo sua responsabilidade como governante para a multidão. No fundo, Pilatos sabia que Jesus era inocente (Mateus 27:18-19), mas optou por agradar a opinião pública em vez de fazer o que era certo.
O resultado dessa decisão foi trágico: a libertação de um criminoso e a condenação injusta de Jesus, o Filho de Deus. Isso exemplifica como a “voz do povo” pode ser manipulada e, muitas vezes, motivada por paixões, interesses ou ignorância, levando a decisões profundamente injustas.
No contexto da democracia, o exemplo de Pilatos e Barrabás nos alerta sobre os perigos de confiar cegamente na vontade da maioria como um critério absoluto para a tomada de decisões. Embora a democracia seja uma ferramenta importante para garantir a participação popular, ela não é imune à manipulação, desinformação e paixões momentâneas que podem levar a escolhas injustas ou moralmente equivocadas.
Assim como a multidão foi manipulada pelos líderes religiosos para pedir a libertação de Barrabás e a crucificação de Jesus, uma sociedade pode ser conduzida a escolhas ruins por líderes ou influenciadores que promovem agendas distorcidas. Isso nos lembra que a maioria pode, sim, estar errada, e que a popularidade de uma decisão não a torna automaticamente correta ou justa.
Reflexão Final
A democracia, em sua forma estrutural, é um presente valioso para a humanidade, pois ajuda a conter o poder e promover a participação cidadã. Mas, quando ela se transforma em ideologia, coloca em risco os valores cristãos e ameaça a liberdade e a justiça.
Como cristãos, devemos sempre lembrar que nossa lealdade suprema é a Deus. Participar de um sistema democrático é um privilégio, mas nunca deve substituir nossa fidelidade à Palavra de Deus. Que possamos usar a democracia como um meio para glorificar a Deus, promovendo a justiça e o amor ao próximo, sem jamais esquecer que só o Senhor é digno de nossa total devoção.








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