Gostaria de convidar o leitor para um passeio em um dos locais religiosos mais importantes de nossa região metropolitana. É o tipo de lugar que talvez seja bastante conhecido da maioria dos leitores. Contudo, minha tarefa aqui é tentar fazer esse lugar parecer realmente estranho. Vou tentar fazê-lo ser visto de maneira totalmente nova, o que exigirá sacudir dos olhos as escamas da familiaridade trivial. Será preciso prestar toda atenção aos detalhes. Como num filme de Tarkovski, imagine que sua atenção está voltada para o olhar lento, paciente e observador das lentes da câmera. Vamos assumir o olhar da câmera e deixar que ele se fixe em algo que vemos o tempo todo, mas talvez não estejamos enxergando. Imagine que somos antropólogos marcianos e que viemos a este estranho mundo dos Estados Unidos do século 21 para colher dados sobre rituais e hábitos religiosos dos seus habitantes. Tendo saído de Marte equipados com as ferramentas para descrição etnográfica, vamos nos aventurar em um dos locais religiosos mais comuns dessa cultura e observá-lo com olhos fixos nos aspectos religiosos dos seus rituais. Junte-se a mim na inspeção desse local.

Como ainda estamos distantes, quero que você observe a enorme popularidade do nosso destino, indicada pelo mar colorido que é o estacionamento que contorna o edifício. O local pulsa com peregrinos todos os dias da semana, já que milhares e milhares deles fazem essa peregrinação. Para proporcionar um ambiente hospitaleiro e absorver o influxo diário dos fiéis, o local coloca à disposição deles um estacionamento de proporções oceânicas. Contudo, a monotonia do asfalto preto é quebrada pela cor dos carros e dos utilitários esportivos, organizados em filas, um atrás do outro, aguardando pacientemente enquanto os peregrinos se dedicam aos rituais do lado de dentro. Na verdade, o estacionamento é uma espécie de fosso em torno do prédio, uma vez que não há uma calçada que conduza até o local. Lugares religiosos desse tipo emergem quase que inevitavelmente nos entornos residenciais das cidades — áreas planejadas para os carros e que veem com suspeita o pedestre. O prédio sagrado proporciona até um santuário para essa cultura incessante de mobilidade automobilística, uma vez que os peregrinos se dirigem até lá — principalmente no inverno — só para ter onde caminhar.

Chegamos agora a esse reluzente mar negro, salpicado de cores variadas, e encontramos um abrigo para nosso veículo, ainda a uma certa distância do santuário. Contudo, a hospitalidade dessa comunidade já nos alcança: esperando por nós, há um carro parecido com um trem que transportará nossa família pelo estacionamento. Outros peregrinos aparecem no veículo, e assim partimos em direção ao edifício que se espraia para os dois lados e parece emergir do horizonte — um conjunto brilhante de vidro e concreto, de aparência familiar. Na verdade, como esse lugar religioso específico faz parte de uma rede internacional de comunidades religiosas, isto é, “católicas”, a arquitetura do prédio segue um padrão, o que nos faz sentir em casa em qualquer cidade. Os grandes pátios externos que dão acesso às entradas estão emoldurados com faixas e bandeiras; textos e símbolos conhecidos nas paredes externas ajudam os fiéis que vêm de fora a identificar rápida e facilmente o que se acha na parte de dentro; a grande extensão do edifício é ancorada por pavilhões maiores ou santuários semelhantes aos vestíbulos das catedrais medievais.

Nossa viagem de trem nos trouxe a uma das várias entradas magníficas do prédio, por onde seguimos ao longo de inúmeras colunas de arcos cromados até a imponente fachada de vidro, cuja base ostenta uma série de portas. Ao entrarmos naquele espaço, somos levados a uma espécie de vestíbulo, cujo propósito é receber, orientar e direcionar os novos interessados, bem como projetar um espaço de descontração para que o fiel assíduo “entre” no espírito do espaço. Para os que não são frequentadores regulares, há um grande mapa — um tipo de auxílio ao culto — que orienta o neófito, apontando-lhe a localização de várias ofertas espirituais e guiando-o no labirinto que organiza e direciona a observância ritual dos peregrinos. (Pode-se identificar prontamente os “assíduos”, os fiéis, que entram naquele espaço com uma sensação de familiaridade alcançada, que conhecem os ritmos de cor, graças à repetição que o hábito incutiu neles).

O projeto do interior é convidativo ao extremo; ele nos suga em direção aos seus espaços internos, há janelas no teto que se abrem para o céu, mas não há janela alguma nas paredes que dão para o fosso de carros circundante. Isso transmite uma sensação de abertura à verticalidade e à transcendência que, ao mesmo tempo, deixa do lado de fora o clamor e as distrações da horizontalidade, o mundo terreno. Essa forma arquitetônica de delimitação e de envolvimento transmite uma sensação de santuário, de retiro e de fuga. Desde o nártex, o pátio exterior, a pessoa é convidada a se perder nesse espaço que conduz o peregrino a um labirinto de octógonos e de circuitos, num apoio a um devaneio que parece fugir da nossa maneira focada e orientada por objetivos de tabular o mundo “externo”. O peregrino também é convidado a esquecer do tique-taque do mundo e da contagem do tempo do relógio, e a migrar para um espaço governado por um tempo diferente, quase inexistente. Com poucas janelas e uma curiosa manipulação barroca da luz, é quase como se o sol estivesse sempre aqui, ou como se perdêssemos a noção da passagem do tempo e nos perdêssemos nos rituais dos quais viemos participar. Contudo, embora o tempo diário marcado pelo relógio esteja suspenso, o espaço de adoração é governado por uma espécie de calendário litúrgico festivo, que se veste das cores, símbolos e imagens de uma litania interminável de feriados e festas — às quais, regularmente, novas são acrescentadas, mesmo que a introdução de uma nova festa se traduza em maiores contingentes de peregrinos que se juntam às procissões no santuário e participam da adoração.

O projeto desse templo tem ecos arquitetônicos que remetem às catedrais medievais — espaços religiosos colossais capazes de absorver todo tipo de atividade religiosa diferente de uma só vez. Portanto, pode-se dizer que o edifício religioso tem um sínuoso labirinto para contemplação, ao longo do qual há inúmeras capelas dedicadas a vários santos. À medida que caminhamos em contemplação pelo labirinto, preparando-nos para entrar em uma das capelas, somos arrebatados pela rica iconografia que adorna as paredes e os espaços interiores. Diferentemente das representações de santos que se podem ver nos vitrais, aqui há uma série de ícones tridimensionais, com vestes vistosas, que — a exemplo de toda iconografia — nos inspiram a imitar seus modelos. Essas estátuas e ícones personificam para nós retratos concretos da “boa vida”. Aqui há uma proclamação religiosa que não transita por ideais, regras ou doutrinas, mas que, em vez disso, oferece à imaginação quadros, esculturas e imagens que se movem. Embora outras religiões pronunciem a salvação por meios rarefeitos e áridos, como livros e mensagens, essa nova religião global oferece imagens encarnadas dos retratos, que nos convidam a imaginar nós mesmos em seu lugar — ou a imaginar nós mesmos de outro modo e, assim, nos submetermos voluntariamente à disciplina que produz os santos evocados pelos ícones.

Insisto novamente que precisamos compreender a catolicidade dessa iconografia: esses mesmos ícones da boa vida são encontrados em templos desse tipo por todo o país e no mundo todo. Os símbolos, as cores e imagens associados à sua vida religiosa são prontamente reconhecidos no mundo inteiro. A ampla circulação desses ícones por vários meios, até mesmo fora do santuário, nos convida, antes de mais nada, a fazer a peregrinação. Esse templo — a exemplo de inúmeros outros no mundo todo — oferece uma forma de evangelização vibrante, encarnada e visual, que nos atrai. Esse é um evangelho cujo poder é a beleza, que fala aos nossos desejos mais profundos e nos compete a nos aproximarmos, não com um moralismo rigoroso, mas, pelo contrário, com um convite cativante de participação nessa boa vida que vislumbramos. (No entanto, é preciso notar que ela também tem modos próprios de exclusividade; graças a seu sucesso extraordinário em converter as nações, torna-se cada vez mais difícil ser infiel.) Trata-se de uma forma de evangelização sustentada por uma rede transnacional de evangelistas e de campanhas em que todos comunicam um tipo de mensagem unificada, que envergonha as demais religiões marcadas por divisões. Se unidade é um dos critérios que dão testemunho da verdade e do poder de uma religião, será difícil encontrar uma religião mais poderosa do que essa fé católica.

Quando paramos para contemplar alguns dos ícones localizados no lado externo de uma das capelas, somos levados a refletir sobre o que se passa dentro dela — convidados a participar mais propriamente no ato de adoração, para provar e ver. Um acólito nos dá as boas-vindas e se oferece para nos guiar nessa experiência, mas tem também a sabedoria de permitir que a exploremos sozinhos. Às vezes, nossa incursão de um labirinto para outro se dá de modo cauteloso, curioso, hesitante, com uma vaga sensação de necessidade, mas sem saber ao certo como ela será atendida, e por isso estamos abertos à surpresa — àquele momento em que o espírito nos conduzirá a uma experiência que não poderíamos ter previsto. Com aquele vago senso de necessidade, procuramos, sem saber exatamente o quê, mas estamos esperançosos, sabendo que aquilo de que precisamos deve estar aqui. De repente, topamos com o que buscávamos: vasculhando as prateleiras, nos deparamos com aquela experiência e oferta que nos satisfarão. Em outros momentos, nossa adoração é intencional, dirigida e resoluta: viemos preparados exatamente para esse momento, sabendo exatamente por que estamos aqui, exatamente em busca daquilo de que precisamos.

Seja como for, depois de passar algum tempo atentos, vasculhando o que o fiel chama de “prateleiras”, com nosso recém-achado objeto assim em mãos, seguimos em direção ao altar, que é a consumação da adoração. Embora os acólitos e outros assistentes de adoração tenham nos ajudado a navegar pela nossa experiência, atrás do altar encontra-se o sacerdote que preside a consumação da transação. Essa é uma religião de transação, de troca e de comunhão. Quando convidados a adorar aqui, não somos apenas convidados a dar; somos também convidados a receber. Não saímos dessa experiência de transformação apenas com alguns bons sentimentos ou generalidades piedosas; antes, saímos dela com algo concreto e tangível, com relíquias recentemente
cunhadas, por assim dizer, que são em si mesmas meios para a boa vida
encarnada pelos ícones que nos convidaram, antes de qualquer coisa, para esse
momento de participação. E assim fazemos nosso sacrifício, deixamos nossas
doações, mas em troca recebemos alguma coisa sólida embalada nas cores e nos
símbolos dos santos e da festividade específica que está sendo celebrada.
Despedidos pelo sacerdote com uma bênção, saímos da capela com uma
sensação de completeza — não necessariamente com a intenção de partir (nossa
consciência de tempo encontra-se suspensa), e sim para prosseguir na
contemplação e sermos convidados a entrar em outra capela. Quem poderia
resistir às realidades tangíveis da vida bem-aventurada que nos é oferecida de
maneira tão abundante e convidativa?


📖✨ Você é moldado pelo que ama!

No livro Desejando o Reino, James K. A. Smith nos mostra que não somos apenas o que pensamos, mas o que desejamos. Nossos hábitos e práticas diárias formam nosso coração muito mais do que imaginamos.

🔹 Como a cultura influencia seu modo de viver a fé?
🔹 Quais “liturgias” moldam seu desejo e sua visão de mundo?
🔹 Como reorientar seu coração para o Reino de Deus?

Descubra como sua adoração e seus hábitos podem transformar sua vida! Adquira seu exemplar agora e comece essa jornada de formação espiritual! 📚🔥

“Desejando o Reino”, de James K. A. Smith, é um livro que explora a relação entre adoração, cultura e formação do desejo humano a partir de uma perspectiva cristã. O autor argumenta que os seres humanos não são primariamente pensadores ou seres racionais, mas seres desejantes, ou seja, nossas ações e decisões são moldadas menos por crenças intelectuais e mais pelos nossos hábitos e amores.

Smith desafia a visão tradicional de que a educação e a formação cristã se baseiam apenas na transmissão de conhecimento. Em vez disso, ele propõe que a adoração e as práticas litúrgicas desempenham um papel central na formação do caráter e do desejo humano. O livro explora como diferentes “liturgias culturais” – como o consumismo, o entretenimento e a política – moldam nossos desejos e afetos, muitas vezes de maneiras contrárias à visão cristã do mundo.

A obra faz parte da trilogia Liturgias Culturais, e seu objetivo é ajudar os cristãos a enxergar a importância da formação espiritual através da participação ativa em práticas e rituais que orientam o coração para Deus. Smith argumenta que a verdadeira transformação acontece não apenas por meio da informação, mas através da imersão em hábitos e rituais que reorientam nossos desejos para o Reino de Deus.

É um livro especialmente relevante para educadores cristãos, pastores e qualquer pessoa interessada em compreender como os afetos humanos são moldados por práticas diárias – tanto religiosas quanto seculares.


Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Um espaço dedicado a explorar a igreja e a teologia a partir de uma perspectiva missional. Aqui, buscamos refletir sobre a missão de Deus no mundo, como a igreja pode viver de forma fiel ao chamado cristão e como podemos aplicar os ensinamentos bíblicos de maneira prática e transformadora em nossa sociedade.