Em meio a polarizações, casos como os de Maria Beltrão e Walter Salles reacendem o debate: até que ponto somos responsáveis pelos atos de nossos ancestrais? Entenda os riscos e nuances dessa discussão.
Introdução: Quando o Passado Define o Presente
Nos últimos anos, um fenômeno inquietante ganhou espaço no debate público: o cancelamento de indivíduos não por suas ações, mas pelos erros de seus ancestrais. Seja por ligações familiares com regimes autoritários, práticas eugenistas do século passado ou privilégios históricos, a militância identitária tem ampliado seu escopo para incluir uma cobrança coletiva pelo passado.
Mas qual é o limite entre justiça histórica e perseguição por associação? Recentemente alguns casos ganharam espaço no debate público brasileiro. Vejamos três desses casos no Brasil e refletir sobre os riscos de reduzir pessoas a sua árvore genealógica.
Casos Recentes: Do Oscar à Eugenia
1. Maria Beltrão e a Sombra da Ditadura
A jornalista Maria Beltrão, conhecida por seu carisma e profissionalismo, foi alvo de críticas após ser anunciada como apresentadora do Oscar 2025. O motivo? Seu pai, Hélio Beltrão, foi ministro durante a ditadura militar.
Esse caso ilustra um problema central desse tipo de cancelamento: a dificuldade de distinguir entre o legado de um antepassado e a trajetória pessoal de um indivíduo. Maria Beltrão construiu sua carreira independentemente da história de seu pai, mas mesmo assim foi alvo de ataques por uma associação que foge ao seu controle.
Apesar de nunca ter defendido o regime, Maria foi acusada de “herdar” a culpa do pai. O caso expõe uma contradição: enquanto alguns setores cobram reparação histórica, outros membros de famílias ligadas ao autoritarismo, como Aloizio Mercadante (PT), filho de um general da ditadura, raramente sofrem o mesmo escrutínio.
Fica a pergunta:
Devemos julgar alguém por laços familiares que não escolheu?
2. Maria Rita Kehl e o Fantasma da Eugenia
A psicanalista Maria Rita Kehl, crítica de excessos do movimento identitário, foi atacada nas redes por ser neta de Renato Kehl, pioneiro da eugenia no Brasil. A acusação? Sua “herança genética” a tornaria incapaz de opinar sobre equidade.
Esse argumento é problemático por duas razões. Primeiro, ele ignora as ações e posicionamentos individuais de Maria Rita ao longo de sua vida. Segundo, ele adota uma lógica perigosa, onde a ancestralidade define o caráter e as ideias de uma pessoa. Esse tipo de pensamento, se levado ao extremo, pode levar a práticas discriminatórias baseadas em linhagem e origem, algo que a própria militância identitária alega combater.
O argumento, além de cientificamente falacioso, ecoa práticas perigosas: no século XX, regimes totalitários usaram a ancestralidade para justificar perseguições. Como lembra a Declaração Universal dos Direitos Humanos (Artigos 6 e 11), cada indivíduo deve ser responsabilizado apenas por seus próprios atos.
Assista a entrevista de Maria Rita Kehl na TV Brasil
3. Walter Salles e o Privilégio de Berço
O cineasta Walter Salles, diretor de Central do Brasil e, mais recentemente do filme Ainda Estou Aqui, pré-indicado ao Oscar 2025, enfrentou críticas por sua ascendência familiar ligada à elite econômica. Questiona-se se seu sucesso é mérito ou “privilégio herdado”.
Salles foi criticado por sua ascendência familiar (oriunda de uma elite econômica) e por ser branco. A professora Etiene Santos, em artigo no Jornal de Minas, afirma que ao olhar para Walter Salles, enxerga um descendente de escravocratas. Sua obra tenta comover o mundo, continua a colunista, com a dor de 22 anos de ditadura, mas ignora 388 anos de escravidão.
O paradoxo é evidente: enquanto o filme busca refletir sobre violências históricas, o próprio diretor é julgado por uma culpa hereditária que nada tem a ver com suas escolhas artísticas.
Embora seja válido debater desigualdades estruturais, reduzir uma trajetória de décadas a fatores externos ignora a autonomia individual. Como escreveu a colunista Lygia Maria, em sua Coluna na Folha de São Paulo, árvores genealógicas não são argumentos.
“Essa mania de puxar a árvore genealógica do interlocutor como quem puxa uma ficha corrida também mina o livre debate público e prejudica demandas legítimas de grupos minoritários ou socialmente vulneráveis“.
Esse caso reflete um dilema comum: é justo reduzir toda uma trajetória profissional a fatores externos, como a origem familiar? Se o privilégio de berço influencia as oportunidades, também é verdade que cada pessoa tem autonomia para definir sua própria história.

Os Riscos da Culpabilização Coletiva
A ideia de que ancestrais definem caráter já teve consequências trágicas:
- No nazismo, passaportes listavam ancestrais para identificar “indesejáveis”.
- Em Ruanda, a divisão entre tutsis e hutus gerou um genocídio baseado em ódio étnico herdado.
Ao adotar essa lógica, a militância identitária não apenas distorce a justiça, mas também alimenta ciclos de ódio. Como alerta o Professor Wilson Gomes, usar a biologia para revanche social é um retrocesso civilizatório. O foco deveria estar em promover o diálogo e a justiça, não alimentar um ciclo de revanchismo e exclusão.
Caminhos para uma Justiça Equilibrada
- Focar em ações presentes: Responsabilizar indivíduos por crimes que não cometeram desvia a atenção de problemas reais, como corrupção e desigualdade atual.
- Oportunizar um futuro para todos: Se a militância identitária quiser se manter relevante, precisará repensar suas abordagens. Em vez de promover um clima de ressentimento, o desafio é encontrar um equilíbrio entre reconhecer o passado e construir um futuro onde cada pessoa seja vista por aquilo que é e não pelo que seus ancestrais fizeram.
- Tolerância e Perdão: A justiça não deve ser sobre vingança ou culpa herdada, mas sobre abrir oportunidades reais para que todos possam ter um futuro melhor.
- Valorizar o diálogo: Como propôs Maria Rita Kehl, movimentos sociais precisam evitar “nichos narcísicos” e abrir-se à crítica construtiva.
Conclusão: Para Além da Genealogia do Ódio
A justiça não se constrói com revivalismo de traumas, mas com projetos que unam sociedade em vez de dividi-la. Enquanto o debate se concentrar em “culpas hereditárias”, perderemos energia para combater desigualdades reais e contemporâneas.
Assista a uma abrangente análise (e um tanto debochada!) de Madelaine Lacsko: Militância identitária cancela pelos atos dos seus ancestrais
E você?
Acredita que devemos pagar pelos erros de nossos ancestrais? Ou a justiça deve focar no aqui e agora? Deixe seu comentário e participe desta conversa crucial.
Uma Resposta Cristã: Perdão e Nova História em Cristo
Para os cristãos, a ideia de culpabilização por ancestralidade contraria um dos princípios fundamentais da fé: a responsabilidade individual diante de Deus. A Bíblia ensina claramente que cada pessoa responde por suas próprias ações, e não pelos erros dos seus antepassados.
“Não morrerão os pais pelos filhos nem os filhos morrerão pelos seus pais, mas cada um morrerá pelo seu próprio pecado.” — 2 Crônicas 25:4
A justiça de Deus não se baseia em ressentimento herdado, mas na transformação pessoal. Se fôssemos aplicar a lógica da militância identitária à fé cristã, teríamos que rejeitar figuras centrais da história do cristianismo. O que faríamos, por exemplo, com o Apóstolo Paulo? Antes de se converter, ele perseguiu e prendeu cristãos. No entanto, após seu encontro com Cristo, tornou-se um dos maiores missionários da história.
Se o cristianismo fosse guiado pela lógica do cancelamento e da culpa coletiva, não haveria espaço para a graça e o arrependimento. No entanto, em Cristo, cada indivíduo recebe a oportunidade de reescrever sua história. Não somos prisioneiros do passado de nossos antepassados, nem mesmo de nossos próprios erros.
O caminho cristão não passa pelo ressentimento identitário, mas pelo perdão e pela reconciliação. O próprio Jesus ensinou que devemos perdoar, mesmo quando há razões legítimas para o ressentimento. O cancelamento baseado na ascendência apenas perpetua ciclos de mágoa e divisão, enquanto o evangelho nos chama a superar as ofensas e buscar a verdadeira justiça, que vem através da graça e da renovação interior.
“Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” — 2 Coríntios 5:17
A militância identitária insiste em um peso que Cristo já tirou: a condenação e o fardo do passado. Em vez de carregar o peso da culpa herdada, o cristianismo ensina que a verdadeira liberdade vem da redenção e da possibilidade de uma nova vida em Deus.
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