Era fim de tarde. Curitiba tinha aquele cheiro triste de gente vencida pelo relógio – ônibus lotado, olhos fundos, esperança encostada. Eu, estudante mal dormido e mal pago, descia a Barão de Antonina como quem recolhe o próprio cansaço.
Do outro lado da rua, vinha uma moça. Não corria, não sorria. Caminhava como quem ignora que a vida é feita de detalhes dramáticos. Um gesto rápido, um susto do destino – algo caiu. Papel, pensei. Mas não. Eram cédulas. Dinheiro vivo. Daquele tipo que grita no chão, que atrai olhares e decisões. Pra mim, era quase um milagre – não um milagre celestial, mas um milagre sujo de tentação. O dinheiro que paga o arroz, segura o aluguel e ainda deixa troco pra um café com dignidade.
O mundo parou. E talvez fosse aí o primeiro milagre: parar. Ver. Pensar. O impulso me levou atrás dela. Não por nobreza, mas por movimento. O bolso da calça dela ameaçava cuspir outra nota, como quem quer perder tudo sem saber.
Falei. Ela se assustou. Em Curitiba, homem que fala na rua é quase ameaça. Disse que era dela. Entreguei. Ela mal agradeceu. O medo fala mais alto que a gratidão – e a gentileza, às vezes, entra muda e sai invisível.
Segui. Não com um salário novo no bolso, mas com um pensamento teimoso na cabeça:
Qual foi o verdadeiro milagre?
Foi o meu, por resistir ao desejo num mundo onde a fome e o aluguel batem à porta com os cotovelos? Ou foi dela, que perdeu e teve de volta o que ninguém espera recuperar? Talvez ambos. Foi o meu, por dizer não à tentação? Ou o dela, por ter alguém no caminho que escolheu fazer o certo? Talvez milagre mesmo seja quando alguém faz o que deve – mesmo podendo não fazer. Quem sabe, o verdadeiro milagre tenha sido a providência – aquela que age sem alarde, mas nunca por acaso.
Porque nem tudo que acontece é sorte. Às vezes, é chamado.








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