Por ocasião do Dia dos Pais, somos convidados a refletir não apenas sobre a importância dos pais em nossas vidas, mas sobre a profundidade espiritual da paternidade. O Quarto Mandamento e o pensamento de Martim Lutero nos oferecem um caminho para recuperar a dignidade dessa vocação tão desprezada em nossos dias.
“Honra teu pai e tua mãe, para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a terra” (Êxodo 20.12)
No Catecismo Menor, Martim Lutero ensina que este mandamento não apenas diz respeito à obediência externa, mas estabelece a base espiritual da autoridade dos pais. Ele escreve:
“Devemos temer e amar a Deus para que não desprezemos nem irritemos nossos pais e autoridades, mas lhes demos honra, sirvamos, obedeçamos, amemos e estimemos.“
1. Lutero, o pai relutante
O curioso é que Lutero, que escreveu tão profundamente sobre a importância da paternidade, não planejava ser pai. Como monge agostiniano, havia feito votos de celibato e se dedicava exclusivamente à vida eclesiástica. Mas após a Reforma, e especialmente após seu casamento com Katharina von Bora, Lutero passou a enxergar o lar como um espaço sagrado de formação cristã.
Do seu casamento nasceram seis filhos. E é impressionante notar que, segundo vários biógrafos, todo o brilho que emana do seu ministério público empalidece diante do seu ministério enquanto marido e pai.
Em suas cartas e sermões, Lutero frequentemente descreve a paternidade como uma missão santa, comparando-a ao ofício pastoral. Ele não romantiza a tarefa de ser pai, mas a vê como parte da cruz diária de um cristão fiel.
“Quem muda a fralda de uma criança pela fé, lava a sujeira e ainda assim agrada a Deus mais do que o monge em oração no mosteiro.”
Essa frase nos ajuda a entender como Lutero enxergava a vida cotidiana – especialmente a paternidade – como espaço de santificação e serviço a Deus.
2. A paternidade como vocação divina
Na teologia luterana, a paternidade é mais do que um papel social: é uma vocação dada por Deus. E como toda vocação, ela carrega consigo um chamado e uma responsabilidade. O pai é visto como um representante de Deus no lar, chamado a cuidar, instruir, amar e corrigir seus filhos segundo a Palavra.
“O pai deve ser o bispo do lar. Seu púlpito é o colo do filho. Sua pregação, o exemplo.”
Ser pai, portanto, é exercer um tipo de ministério – não diante de uma multidão, mas diante dos olhos atentos dos filhos e do coração da esposa. A casa torna-se o primeiro campo de missão, e a relação pai-filho, o primeiro discipulado.
3. O reflexo da paternidade divina
Sabemos que todos os pais humanos falham. O próprio Lutero, por vezes severo, reconhecia suas limitações. Mas ele apontava constantemente para o modelo de Deus Pai – o único perfeito, cheio de justiça e misericórdia.
“Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus…” (Mateus 7.11)
A vocação paterna encontra sua fonte e correção em Deus. É Nele que os pais devem se espelhar e é Nele que devem buscar forças para educar, amar e perdoar.
4. A importância do Quarto Mandamento hoje
Vivemos em tempos de crise de autoridade e ausência paterna. Em muitas casas, o pai está fisicamente presente, mas espiritualmente ausente. Em outras, sequer está. O Quarto Mandamento nos convida não apenas a honrar os pais, mas a reconhecer que a figura paterna tem valor sagrado – não porque seja perfeita, mas porque foi instituída por Deus como reflexo de sua presença e cuidado.
Ao honrar os pais, honramos também o Deus que os instituiu. Ao sermos pais presentes, assumimos uma missão que vai além da biologia: formamos pessoas, espelhamos o caráter de Cristo e servimos ao Reino de Deus dentro de nossas casas.
5. Uma última imagem
Certa vez, Lutero escreveu sobre a morte precoce de sua filha pequena, Madalena. Ele a teve nos braços até o último suspiro e chorou copiosamente em seu funeral. Sua dor era real, humana. Mas mesmo no luto, reconhecia que ser pai era um dom de Deus – mesmo quando isso envolvia sofrimento.
“Crescemos na fé não apenas nos livros, mas nas lágrimas do lar.”
Conclusão
Neste Dia dos Pais, que possamos olhar para a paternidade não como um fardo ou função social, mas como uma missão espiritual dada por Deus. Que os pais redescubram sua vocação e que os filhos aprendam a honrá-los – não por mérito, mas por obediência a Deus.
E que a Igreja seja espaço onde pais sejam fortalecidos, filhos sejam orientados e famílias sejam restauradas pela graça do Evangelho.
Afinal, toda reforma começa em casa.
Soli Deo Gloria!
Referência e leitura complementar
ARMSTRONG, Aaron; MCCASKELL, Stephen. Lutero: uma biografia ilustrada. São Bernardo do Campo: Trinitas, 2024.
BAITON, Roland H. Cativo à Palavra: a vida de Martinho Lutero. São Paulo: Vida Nova, 2017.
LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 26º Edição. São Leopoldo: Sinodal, 2021.









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