Você deve saber que a busca humana por bens, poder e fama é tão antiga quanto a própria queda narrada na Escritura. Desde Gênesis 3, a narrativa bíblica mostra que a ambição desordenada – fruto da ruptura entre Deus e o ser humano – tem desviado o coração da verdadeira vocação para a qual fomos criados: glorificar a Deus e desfrutar de sua presença. O Drama das Escrituras, livro de Michael W. Goheen e Craig G. Bartholomew nos ajuda a situar a ambição dentro da trama maior das Escrituras: criação, queda, redenção, missão da igreja e consumação.
1. A ambição desordenada e o pecado
A Bíblia descreve a ambição como desejo de algo maior, mas corrompida pelo pecado torna-se idolatria. O problema não está em desejar, mas em direcionar esse desejo para a autossuficiência, para a construção de reinos pessoais e para a exaltação própria. Paulo alerta em 1 Timóteo 6.9-10 que “os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que afogam os homens na ruína e na destruição”.
N. T. Wright, no livro O Dia em Que a Revolução Começou (2017) destaca que o pecado humano é uma “substituição de Deus por ídolos” – e a ambição desordenada se encaixa nesse diagnóstico: desejar ser como Deus, mas sem Deus. Essa deturpação é visível em Babel (Gn 11), na ganância de Acã (Js 7) ou na cobiça de Ananias e Safira (At 5). A história da humanidade está cheia de exemplos de corações que se perderam no caminho da falsa ambição.
2. Tolstói e o dilema sobre os nossos limites
O conto de Liev Tolstói, De quanta terra precisa um homem? (2021), retrata de forma literária a mesma realidade descrita pela Bíblia. O personagem Pahom, insatisfeito com o que possuía, acredita que sempre precisa de mais terra para ser feliz. Sua ambição o consome até o fim, quando morre exausto em sua busca. A conclusão do narrador é contundente: no final, tudo que o homem precisa é de dois metros de terra para ser sepultado.
O conto de Tolstói ilustra a tensão entre ambição e contentamento. Quando a ambição se desconecta do propósito de Deus, ela gera destruição. O que parecia uma conquista ilimitada tornou-se a causa da ruína. Assim como no Éden, a promessa de “ter mais” acabou levando à morte.
3. O contentamento a partir das Escrituras
A teologia bíblica nos aponta para outra forma de ambição: a ambição redimida em Cristo. Michael W. Goheen lembra que o chamado de Abraão já revela o propósito divino: abençoar todas as famílias da terra (Gn 12. 1-3). A verdadeira ambição dada por Deus ao ser humano é participar da missão divina, vivendo para seu reino.
Paulo testemunha sobre o contentamento em Cristo (Fp 4. 11-13), mostrando que a vida cristã não consiste em acumular bens, mas em viver a plenitude do Evangelho em todas as circunstâncias. O contentamento, longe de ser passividade, é descanso na provisão de Deus e no chamado de participar de sua missão no mundo.
De acordo com N. T. Wright, a ressurreição de Cristo inaugura uma nova criação, onde nossa ambição deve ser orientada pelo futuro de Deus – a renovação de todas as coisas. Ou seja, não se trata de negar a ambição, mas de redirecioná-la para aquilo que tem valor eterno.
4. Ambição redimida para a missão
A igreja é chamada a encarnar esse contentamento e a viver uma ambição redimida. Isso significa desejar ardentemente a glória de Deus, a justiça do seu reino e a restauração de todas as coisas em Cristo. Em vez de buscar poder, fama ou bens, a comunidade cristã é convidada a desejar ser resposta para a oração de Jesus: “venha o teu Reino”.
O conto de Tolstói nos lembra do limite humano e da futilidade de uma vida consumida por cobiças. Já o Drama das Escrituras nos lembra que fomos criados para uma ambição maior: sermos parceiros de Deus em sua missão de restaurar o mundo.
Como Viveremos?
Ambição e contentamento se encontram no coração do Evangelho. A ambição desordenada, marcada pela busca egoísta de poder, bens e fama, leva à morte – como em Pahom, de Tolstói. Mas o contentamento em Cristo nos conduz a uma vida que deseja ardentemente o Reino de Deus.
No Drama das Escrituras, descobrimos que a verdadeira ambição é viver para a missão do Criador, confiando que a nova criação é a herança reservada para aqueles que buscam primeiro o Reino.
Você consegue compreender que o sentido da vida e o fundamento de toda ação humana estão descritos na Bíblia por meio do relato do agir de Deus no mundo?
Quer conhecer a grande narrativa da Bíblia e como a história bíblica fundamenta a cosmovisão cristã e nos chama a participar do seu drama? Então, considere ler e estudar os seguintes livros:
BARTHOLOMEW, Craig G.; GOHEEN, Michael W. O Drama das Escrituras: encontrando o nosso lugar na história bíblica. São Paulo: Editora Vida Nova, 2025.
WRIGHT, N. T. Surpreendido pela Esperança. Viçosa: Ultimato, 2009.
WRIGHT, N. T. O Dia em Que a Revolução Começou. Editora Chara, 2017.
Qual é a História Bíblica?
Cansado de leituras que fragmentam a Bíblia? O Drama das Escrituras mostra como todas as partes se conectam – perfeito para quem prepara mensagens ou estuda em grupo.

O Drama das Escrituras é leitura essencial porque devolve à Bíblia sua unidade narrativa – mostrando como cada livro e personagem ocupam um lugar no grande enredo da redenção. Em vez de fragmentar textos em ilhas isoladas, Goheen e Bartholomew organizam a história bíblica de modo claro e acessível, o que facilita tanto o estudo acadêmico quanto a pregação prática. Para pastores, líderes de estudo e leitores empenhados, isso significa preparar mensagens mais coesas, entender melhor temas teológicos recorrentes e aplicar a Escritura com contexto e intenção histórica. A 3ª edição atualiza e aprofunda esses recursos, tornando o livro uma ferramenta valiosa para quem quer passar da leitura pontual à compreensão integrada.
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