Até o momento em que decidi estudar teologia, eu não era propriamente um leitor. Não que tivesse aversão aos livros, mas simplesmente não tinha acesso nem motivação para ler. A leitura não parecia ter serventia pessoal ou profissional para mim, e por isso nunca passou de algo distante. Foi somente com a entrada no universo teológico que percebi o quanto a leitura poderia transformar minha vida e se tornar uma prática de prazer, disciplina e formação.
Ler sempre foi mais do que decifrar palavras: é entrar em diálogo com outras mentes, em outros tempos e lugares. Minha própria trajetória como leitor nasceu de forma simples, mas decisiva, em um episódio que até hoje guardo com carinho.
O ano era 2002, eu estava no início dos meus estudos de teologia, cheio de entusiasmo, mas também de dúvidas sobre como me preparar adequadamente. Certo dia, quando estava na casa do meu irmão que estava concluindo sua graduação em teologia, vi na sua prateleira algumas dezenas de livros que me chamava a atenção.
Ingenuamente, perguntei pela razão daqueles livros. Meu irmão parou o que estava fazendo – ele estava escrevendo seu TCC -, virou-se para mim e disse:
– Você já se deu conta de que está começando a estudar teologia?
Respondi que sim. Ele, então, replicou com firmeza:
– Então, já aproveita e escolhe um livro aí e comece a ler, se você quiser ser um bom teólogo. Talvez não tenha sido bem estas palavras que ele me disse, mas me lembro que foi algo neste sentido.
Esse conselho marcou o início da minha jornada como leitor. Foi como um chamado: não apenas estudar teologia, mas aprender a viver entre livros, entendendo-os como companheiros de caminhada e ferramentas de formação espiritual, intelectual e pastoral.
1. Ler como exercício de vida
Com o tempo, percebi que a leitura não é apenas um hábito, mas uma arte a ser cultivada. Mortimer Adler, em seus clássicos Como Ler Livros e A Arte da Leitura, lembra que ler bem exige disciplina, perguntas, diálogo com o autor e, sobretudo, humildade para reconhecer que o texto pode nos transformar. Ler, portanto, é mais do que consumir ideias: é deixar-se interpelar por elas.
Da mesma forma, Émile Faguet, em A Arte de Ler, destaca que a leitura verdadeira deve ser feita com prazer, mas também com responsabilidade. O bom leitor não acumula títulos, mas cultiva sabedoria. Aprendi que a pressa não é amiga da leitura – é preciso dar tempo para que os livros nos leiam de volta, moldando nossa visão de mundo e de fé.
Para C. S. Lewis, a leitura é uma forma de vencer as limitações do nosso tempo e lugar.
“A leitura nos dá aquilo que nossos amigos mais próximos não podem nos dar: a visão do mundo através de outros olhos.”
Isso se conecta à sua ideia de que a amizade amplia a vida e os livros são amigos silenciosos que também cumprem esse papel.
2. A leitura na formação teológica
Se a teologia é, em essência, uma busca por compreender e anunciar o Deus que se revela, então a leitura torna-se um ato espiritual. Ler a Bíblia, antes de tudo, mas também dialogar com a tradição da Igreja, com filósofos, poetas e críticos da fé, amplia o horizonte do coração e da mente. Como afirmou Lutero, “a fé nasce da Palavra” – e a leitura é um dos caminhos privilegiados para que essa Palavra floresça em nós.
Hoje, olho para trás e vejo como aquele momento simples, diante de uma estante de livros, foi na verdade uma experiência vocacional. Aprendi que ler é um modo de viver a fé. Cada página, cada autor, cada diálogo silencioso que se trava com um livro pode ser parte do processo de sermos formados como discípulos e missionais no mundo.
C. S. Lewis via os livros como portas de entrada para vidas que não são a nossa. Ele dizia que, ao ler, não apenas conhecemos ideias, mas participamos de outras experiências humanas. Em Um Experimento em Crítica Literária (Thomas Nelson Brasil, 2019), afirma que “na leitura, eu me torno mil homens e ainda assim continuo sendo eu mesmo. Vejo com os olhos de outros.”
Em meio as centenas de leituras, C. S. Lewis me fez entender que ler é um ato de hospitalidade espiritual e intelectual. É deixar-se conduzir por outros olhares, vencer o limite do nosso mundo e crescer na fé e na imaginação.
3. A alegria de ler
A leitura me ensinou que o prazer de aprender e o desafio de pensar andam juntos. Ler é, ao mesmo tempo, disciplina e deleite, cruz e ressurreição. Por isso, incentivo cada teólogo, pastor ou cristão que deseja crescer na fé: faça da leitura uma prática diária de vida. Não apenas para acumular conhecimento, mas para formar um coração que ouve, discerne e serve melhor ao Senhor.
Aprendi com John Stott que a leitura é uma disciplina espiritual fundamental. Ele dizia que, assim como a oração e a meditação na Bíblia, o estudo de bons livros fortalece a mente e a fé. Stott recomenda reservar tempo diário para ler. Ele mesmo mantinha uma disciplina rigorosa: lia jornais, revistas, livros de teologia, comentários bíblicos e literatura clássica.
Assim como C. S. Lewis, John Stott via a leitura como um ato de humildade: reconhecer que precisamos ouvir outras vozes, dialogar com outras épocas e aprender com os dons que Deus deu a outros irmãos e irmãs ao longo da história.
Como dizia Mortimer Adler, “um livro bem lido é um diálogo bem vivido”. E para nós, que seguimos a Palavra viva, cada leitura pode se tornar um eco do Verbo que se fez carne. Por isso, vale escolher com cuidado o que lemos: começar pela Escritura, incluir os clássicos da fé, ouvir vozes antigas e atuais, e cultivar uma disciplina diária que una prazer e profundidade.
Se você é cristão, então, é um teólogo. Para que sejamos bons teólogos, precisamos ler regularmente. Por isso, procure um livro para ler. E que cada página que você abrir seja um encontro com a sabedoria. Cada livro um diálogo com a verdade. Que a leitura transforme seu coração e sua mente para servir ao Senhor com alegria e fidelidade.
Antes de terminar, imaginei que você quisesse pedir uma dica de leitura. Então, uma dica além dos livros aqui já citados é A jornada do Leitor, de Daniel Lopez (Vide editorial, 2024).
Que Deus te abençoe na sua jornada de leitor.
Como Ler e Obter Conhecimento Verdadeiro?
Em um mundo de distrações infinitas e leitura superficial, Daniel Lopez convida você a uma jornada que resgata o propósito mais profundo da leitura: encontrar Deus, a verdade e a própria humanidade nas páginas de grandes histórias. Não é sobre ler mais – é sobre ler para transformar.

Vivemos inundados por palavras que tentam nos convencer, manipular ou vender algo. O que você lê – e como você lê – define não apenas o que você sabe, mas quem você se torna.
Em “A Jornada do Leitor”, Daniel Lopez não oferece fórmulas mágicas: ele propõe uma jornada estratégica. Inspirado no conceito de Joseph Campbell, ele te guia para que você deixe de ser espectador passivo e se torne um leitor herói – capaz de decifrar jogos de poder, discernir sentidos ocultos e proteger sua mente contra a manipulação.
Esta não é uma leitura comum. É um treinamento para quem quer ler com intenção, profundidade e liberdade.









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