“Jesus falou todas estas coisas à multidão por parábolas. Nada lhes dizia sem usar alguma parábola” (Mateus 13.34)
O desafio das narrativas hoje
Vivemos em um tempo marcado pela desinformação, pelas fake news e pela guerra das narrativas. Muitas vezes, a verdade parece ter se esvaziado, deixando em seu rastro medo, polarização, desespero e ódio.
Como resistir e encontrar esperança em meio a esse cenário?
Precisamos ser lembrados de algo essencial: ouvir e contar (boas) histórias.
Jesus e o poder das parábolas
Jesus, o próprio Filho de Deus, escolheu contar histórias. Suas parábolas não eram meros enfeites literários, mas narrativas carregadas de vida, capazes de abrir os olhos, confrontar corações e revelar o Reino de Deus.
A Bíblia, do início ao fim, é um grande livro de histórias: homens e mulheres comuns, frágeis, pecadores, mas alcançados pela graça de Deus, tornaram-se protagonistas de uma trama muito maior.
Por que histórias importam?
O povo de Israel soube, ao longo dos séculos, que sua identidade dependia da memória. Eles contavam e recontavam a libertação do Egito, a fidelidade de Deus no deserto, a esperança nos profetas.
Contar histórias não era apenas preservar a tradição, mas manter viva a fé e fortalecer a esperança.
É aqui que a imaginação entra em cena:
- C. S. Lewis lembra que o cristianismo é, em sua essência, “um mito que se tornou realidade”. Cristo é a realização suprema daquilo que as grandes narrativas humanas sempre apontaram.
- J. R. R. Tolkien, em seu ensaio Sobre Contos de Fadas (Árvore e Folha, HarperCollins, 2020), afirma que o evangelho é a história suprema, o eucatástrofe – aquele final inesperado e redentor que enche o coração de alegria.
A ética da Elfolândia: Chesterton e os contos de fadas
Antes mesmo de Lewis e Tolkien, G. K. Chesterton já havia refletido sobre o poder dos contos de fadas em seu clássico Ortodoxia. No capítulo A Ética da Elfolândia, ele afirma que os contos de fadas não são meras histórias infantis, mas expressões de verdades profundas sobre a vida, a moral e o próprio evangelho.
Para Chesterton, a imaginação revela o mundo em sua maravilha. Os contos de fadas ensinam que:
- a vida é um dom e não uma conquista;
- o bem e o mal são realidades concretas, e não abstrações;
- a gratidão é a chave da existência, pois tudo o que recebemos é pura graça.
Ele lembra que a ética de Elfolândia é descobrir que as coisas poderiam não existir – mas existem como dádiva. Cada história, portanto, desperta em nós a consciência do milagre da criação. Na A ética da Elfolândia, ele defende que os contos de fadas não são escapismos ingênuos, mas exercícios de imaginação moral e espiritual. Para ele, essas histórias ensinam limites, maravilhas e responsabilidades – virtudes essenciais para compreender a fé cristã.
Além disso, Chesterton também nos deixou a célebre saga do Padre Brown, o padre-detetive que, com simplicidade e perspicácia, resolve mistérios não apenas por lógica, mas por um profundo conhecimento da natureza humana e da graça divina. Ler Padre Brown em um clube de leitura é entrar em contato com narrativas que entrelaçam fé, ética e mistério, tornando-se um convite para enxergar o mundo com “olhos batizados pela imaginação cristã”.
Lewis e Tolkien beberam dessa fonte chestertoniana e herdaram a convicção de que os contos de fadas não apenas entretêm, mas abrem janelas para a verdade maior que se cumpre no evangelho.
Histórias que curam
Contar e ouvir histórias não é fuga da realidade, mas encontro com uma realidade mais profunda.
É ouvir que:
- Deus escolhe um bebê abandonado no rio para se tornar libertador;
- uma viúva sem recursos é sustentada pela providência divina;
- um adolescente escravizado pode se tornar herói de fé;
- um profeta cansado é sustentado pela presença do próprio Deus.
Essas histórias nos arrancam da superficialidade, curam a vida fake e nos devolvem sentido verdadeiro.
Narrativa e Vida Missional
A missão cristã não é apenas transmissão de doutrinas frias, mas o anúncio da grande história de Deus em Cristo.
O mundo não precisa apenas de argumentos, mas de histórias vivas.
E a igreja é uma comunidade de contadores de histórias.
“Quando a imaginação é redimida, ela se torna ponte para a fé.” (C. S. Lewis)
“Toda boa história aponta para o final feliz do evangelho.” (J. R. R. Tolkien)
Então, vamos contar histórias?
As histórias do evangelho são de chorar e de rir, de confrontar e de curar. São narrativas que editam nossas vidas fake e nos inserem no drama da redenção.
Hoje, mais do que nunca, precisamos ser povo que conta e ouve histórias: parábolas de Jesus, testemunhos de fé, narrativas de esperança.
Porque, no fim, como lembrava Lewis, não há nada mais real do que esse mito tornado realidade em Cristo.
Para continuar ouvindo e contando histórias
Se você deseja mergulhar ainda mais nesse universo transformador, aqui estão algumas sugestões de leitura:
- Bíblia Sagrada – a narrativa fundamental que orienta nossa vida.
- As Crônicas de Nárnia (C. S. Lewis) – histórias que apontam para a verdade do evangelho através da fantasia.
- O Hobbit (J. R. R. Tolkien) – uma aventura que ecoa a jornada cristã de coragem e esperança.
- O Drama das Escrituras (Michael W. Goheen) – um panorama bíblico que mostra nossa vida inserida na grande história de Deus.
Ler boa literatura, boa teologia e a própria Escritura é aprender a ouvir e narrar a verdade que salva. Afinal, somos todos chamados a ser contadores da grande história de Deus para o mundo.
Que o Deus da Grande História te envolva em sua narrativa de amor.
Que as parábolas de Jesus iluminem teu caminho como lampejos de verdade.
Que tua vida se torne uma história viva, narrada pelo Espírito Santo, cheia de graça e esperança.
E que, como bons contadores de histórias, possamos ecoar no mundo a alegria do “final feliz” já inaugurado em Cristo: a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre o medo, da luz sobre as trevas.
Vá, então, e conte esta história – porque ela é verdadeira, bela e eterna.









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