Tribos Morais e a Igreja

Quando a fidelidade institucional supera o discipulado a Cristo

O filósofo Joshua Greene, em seu livro Tribos Morais: A tragédia da moralidade do senso comum, nos lembra de algo desconfortável: nós, seres humanos, tendemos a nos apegar mais ao grupo a que pertencemos do que a princípios universais de justiça e verdade. Essa é a lógica da “tribo moral”: é mais fácil proteger “os nossos” do que confrontar pecados e incoerências.

Esse padrão é visível em diversas esferas da vida. Na política partidária, por exemplo, vemos como militantes de esquerda e de direita costumam relativizar ou até justificar erros cometidos por seus representantes, enquanto condenam com veemência os mesmos atos quando praticados pelo “outro lado”. O critério não é a verdade, mas a lealdade à tribo.

Nas famílias, algo semelhante acontece. Muitos pais, diante de um filho que comete uma ação claramente imoral, imediatamente se levantam em sua defesa – ainda que condenassem esse mesmo ato se fosse praticado pelo filho de outra pessoa. O amor natural à família se transforma em parcialidade, onde a verdade cede lugar à proteção tribal.

No contexto religioso, o exemplo do rebatismo é ilustrativo. Algumas igrejas e lideranças transformam essa prática em regra de ingresso e fidelização, de modo que o novo membro se sinta parte do “grupo mais correto” ou da “denominação verdadeira”. Mais do que um gesto de fé, o ato se converte em marcador tribal, que separa “os nossos” dos “outros” e reforça a ideia de que apenas quem adere às regras daquela comunidade pertence ao povo de Deus.

Quando olhamos para a realidade das igrejas, essa análise nos serve como espelho. Quantas comunidades, mesmo com belas confissões de fé, vivem na prática uma contradição profunda? Quantas vezes a fidelidade à denominação, ao líder ou à “marca” da igreja pesa mais do que a fidelidade a Cristo?

A tentação de fechar os olhos

Scot McKnight e Laura Barringer, no livro Tov, mostram como comunidades inteiras podem preferir o silêncio diante de abusos e escândalos, simplesmente porque não querem “manchar” a imagem da igreja. Isso não é diferente da lógica tribal descrita por Greene: “se é do meu grupo, eu passo pano; se é de fora, eu condeno”.

Mas a Igreja de Cristo não pode se dar a esse luxo. Uma comunidade que prefere proteger a sua reputação em vez de cuidar de suas ovelhas e honrar o evangelho está negando, na prática, o senhorio de Jesus.

Quando a Tribo substitui Cristo

A grande tragédia acontece quando a fé se torna tribal. É quando o que nos sustenta já não é o evangelho, mas a necessidade de pertencer e de ser aceito. Assim, a igreja corre o risco de se tornar um clube fechado, onde erros são relativizados em nome da lealdade. Mas a fidelidade a Cristo exige algo mais profundo: arrependimento, confissão, transformação e graça.

A Reforma Protestante nos chama de volta a essa essência. Os cinco solas não foram apenas bandeiras contra abusos de séculos atrás, mas continuam sendo um chamado para nós hoje:

  • Somente a fé nos lembra que a nossa justificação não depende de pertencer a uma tribo, mas de confiar em Cristo.
  • Somente a graça nos liberta de toda manipulação e mérito humano.
  • Somente Cristo nos recentraliza: Ele é o cabeça da Igreja, e não líderes carismáticos ou estruturas institucionais.
  • Somente as Escrituras nos recordam que a Palavra é a autoridade final, acima de estatutos, tradições e conveniências.
  • Somente a glória de Deus nos leva a viver não para defender “o nome da nossa igreja”, mas para glorificar o nome de Jesus.

Um chamado para nós hoje

Querido irmão, querida irmã: a igreja de Cristo não foi chamada para ser uma “tribo moral”, que protege os seus à custa da verdade. Fomos chamados para ser povo santo, separado para Deus, testemunhas vivas da graça e da verdade que encontramos em Jesus.

Isso significa que, quando houver contradições em nossa comunidade, precisamos ter coragem de confrontá-las em amor. Isso significa que não podemos aceitar abusos, incoerências e pecados apenas porque vêm “de dentro”. Isso significa que nossa maior lealdade é sempre ao evangelho, não a uma instituição.

Que possamos voltar ao clamor da Reforma, não apenas como memória histórica, mas como chamado vivo para a Igreja de hoje: somente fé, somente graça, somente Cristo, somente as Escrituras e somente a glória de Deus.


Leituras complementares


Para quem deseja aprofundar esse tema, seguem algumas obras que ajudam a refletir e discernir:
GREENE, Joshua. Tribos morais: A tragédia da moralidade do senso comum.
McKNIGHT, Scot; BARRINGER, Laura. Tov: Formando uma cultura de bondade que resiste ao abuso de poder e à distorção da fé. Mundo Cristão.
McKNIGHT, Scot. Pivot: Prioridades e práticas para transformar sua igreja em uma cultura tov. Mundo Cristão, 2025.
YANCEY, Philip. Alma sobrevivente: Sou cristão apesar da igreja. Mundo Cristão, 2024.
LUTERO, Martim. Da liberdade cristã. Editora Sinodal.


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