A oração sempre foi parte essencial da vida cristã. No entanto, muitas vezes, ela é reduzida a um hábito mecânico, uma repetição apressada ou um recurso apenas em momentos de crise. Martinho Lutero, reformador do século XVI, nos ensina que orar é muito mais do que cumprir um dever religioso. Orar é entrar em comunhão viva com Deus.
No livro Conversas com Lutero (Ultimato, 2006), de Elben M. Lenz César, encontramos lições preciosas sobre como o reformador entendia a oração e como a praticava. A seguir, destacamos alguns aprendizados fundamentais.
O Pai-Nosso como escola de oração
Lutero afirmava: “Até hoje mamo no Pai-Nosso como uma criança, dele como e bebo como um adulto”. Para ele, essa oração ensinada por Jesus era a melhor de todas, superior até mesmo ao Saltério, porque nos direciona ao coração de Deus.
O perigo, porém, está em recitá-la sem devoção, como um rito vazio. Lutero lamentava profundamente que muitos cristãos rezassem o Pai-Nosso milhares de vezes sem sentir o sabor de uma só palavra. Orar, portanto, não é repetir fórmulas, mas se deixar formar por elas.
Orar é necessidade, não opção
Quando perguntado se era um homem de oração, Lutero respondeu:
“Como não seria? Porque vivo na carne e no sangue, porque estou cheio de toda sorte de maldade, porque tenho o mundo contra mim, porque sofro tantas aflições e tormentos, porque o diabo está sempre à minha volta”.
Para ele, a oração não era prática apenas para pessoas super espirituais, mas necessidade e sobrevivência de todo cristão. Assim como o sapateiro faz sapatos e o alfaiate roupas, o cristão deve orar.
O pão nosso de cada dia
Ao refletir sobre o pedido do “pão nosso de cada dia”, Lutero mostra que oração envolve toda a vida. Orar é pedir a Deus não só o alimento, mas saúde, paz, governo justo, proteção contra doenças, família, casa, trabalho e até a bênção de preços justos para os bens de consumo.
A oração, portanto, não é desligada da realidade, mas um clamor concreto por tudo aquilo que sustenta a vida.
Qualidade importa mais do que quantidade
Diante da questão sobre quantas vezes por dia se deve orar, Lutero ensina que Deus não mede a extensão da oração, mas sua qualidade. Não adianta longas repetições vazias. Uma oração curta e sincera, vinda do coração, pode ser mais preciosa que muitas palavras.
Mais do que quantidade, a oração deve ser marcada pela autenticidade.
Oração pessoal e comunitária
Lutero não restringia a oração a momentos solitários no quarto. Para ele, o cristão pode orar em qualquer lugar: na rua, no campo, em casa, na igreja. A oração pode ser individual ou coletiva, interior (coração no coração) ou exterior (em voz audível).
Mas em qualquer circunstância, ele lembrava: “Quando alguém ora, nunca está ajoelhado sozinho”. Orar é sempre entrar em comunhão com a grande comunidade de fé espalhada pelo mundo.
Oração e Palavra caminham juntas
Lutero alerta que, quando a Palavra de Deus está ausente, a oração perde vigor e se torna frágil. “A leitura bíblica acende a chama da oração”, dizia ele. Sem essa chama, restam apenas escuridão, engano e desespero.
Por isso, oração e Escritura devem andar de mãos dadas. Uma alimenta a outra.
Orar com sinceridade
Lutero criticava as orações vazias, feitas como se Deus fosse surdo e precisasse ser convencido por repetições sem sentido. Para ele, oração boa é simples, direta, feita com reverência e confiança.
Não se trata de falar muito, mas de falar com verdade diante do Pai amoroso.
A espiritualidade de Lutero nos desafia a resgatar a simplicidade e a profundidade da oração cristã. Orar é reconhecer nossa dependência total de Deus, é confiar que Ele cuida de todas as dimensões da vida e é manter acesa a chama da fé através da Palavra.
Se queremos uma vida missional autêntica, precisamos reaprender a orar como Lutero: com simplicidade, confiança e perseverança. Afinal, a missão nasce de corações que oram.
Para refletir:
• Como está a qualidade das minhas orações?
• Minha oração tem sido alimentada pela Palavra de Deus?
• Tenho buscado em oração não apenas meus interesses, mas a vontade de Deus?
Conversas Com Lutero

Em Conversas com Lutero você vai conhecer o “pai na fé”, o “indigno evangelista”, o “javali da floresta”: Lutero. Vai ouvi-lo conversar sobre a vida dele, a fé, o evangelho, a Reforma, a Igreja, entre outros assuntos.
A Igreja enquanto “esposa de Cristo” não fracassa nunca. O próprio Noivo declarou a Pedro que nem as portas do inferno poderão vencê-la (Mt 16.18). Mas, a Igreja hoje como “viúva de Cristo” é um fracasso. Sabe por quê? Porque há um fosso entre a Igreja real e a Igreja pretendida por Cristo.









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