O batismo é um rito central na vida cristã, funcionando como um sinal visível e um compromisso público com Jesus Cristo. Ele marca a identidade do crente como parte da família de Deus, criando uma conexão essencial entre a fé interior e a vida comunitária na igreja. Desde os primórdios do cristianismo, o batismo está ligado à morte e à ressurreição de Jesus, simbolizando o sepultamento do “velho eu” (a vida marcada pelo pecado) e o nascimento para uma nova existência em Cristo. Como explica o apóstolo Paulo em Romanos 6.3-4:
“Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte?
Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova”
Aqui, o termo grego “baptizo” (βαπτίζω), usado no Novo Testamento, significa literalmente “imergir” ou “mergulhar”, evocando a ideia de uma purificação profunda e transformadora, semelhante a rituais de lavagem no judaísmo antigo, como os praticados pelos essênios ou no mikvá (banho ritual judaico).
Deus estabeleceu o batismo como um mandamento dado por Cristo aos seus discípulos, conforme registrado em Mateus 28.19-20:
“…vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”
Essa passagem, conhecida como a Grande Comissão, liga o batismo diretamente ao discipulado cristão, tornando-o não apenas um ato simbólico, mas uma ordenança, um comando divino a ser obedecido pelos seguidores de Jesus. A igreja primitiva não via o batismo como mera tradição, mas como um compromisso público com Cristo – o processo pelo qual Deus renova o coração humano, tornando-o vivo para Ele. O batismo não é um ritual mecânico, mas um passo transformador na jornada cristã, convidando-nos a uma vida renovada em Cristo.
As Origens Bíblicas do Batismo
As raízes do batismo cristão remontam ao próprio Jesus. Segundo o Evangelho de Mateus (3.13-17), Jesus foi batizado por João Batista no rio Jordão, identificando-se com o povo pecador e inaugurando seu ministério messiânico. Nesse momento, o céu se abriu, o Espírito Santo desceu como uma pomba, e a voz de Deus Pai declarou: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Essa cena, imortalizada na pintura “O Batismo de Cristo” de Andrea del Verrocchio (cerca de 1475), ilustra a importância tríplice do batismo: envolve o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e serve como modelo de obediência e humildade. João Batista, por sua vez, praticava um batismo de arrependimento, preparando o caminho para o Messias, com origens em rituais judaicos de purificação.

Após sua ressurreição, Cristo reforçou o comando: batizar em nome da Trindade, ligando o rito ao processo de fazer discípulos. No Novo Testamento, vemos isso em ação. Em Atos 2.38, o apóstolo Pedro exorta:
“Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo”
Paulo, em Romanos 6:3-4 e Colossenses 2:11-12, associa o batismo à união com a morte e ressurreição de Cristo, descrevendo-o como uma “circuncisão espiritual” – uma remoção do pecado pelo poder de Deus, lembrando a circuncisão como sinal da aliança no Antigo Testamento. Esses textos fundamentais revelam que o batismo não é um mero ritual humano, mas um ato ordenado por Cristo para selar a salvação.
Exemplos práticos abundam em Atos dos Apóstolos. O carcereiro de Filipos, após ouvir o evangelho, creu e foi batizado com toda a sua família (Atos 16.30-34). Da mesma forma, Lídia e sua casa foram batizadas após professarem fé (Atos 16.15). No caso da casa de Cornélio, o centurião romano, o Espírito Santo desceu sobre todos antes do batismo, incluindo familiares, destacando o princípio de inclusão na aliança de Deus (Atos 10.44-48). Embora não haja menções explícitas de bebês sendo batizados no Novo Testamento, esses relatos de “casas” (famílias inteiras) sugerem uma continuidade com as promessas de aliança do Antigo Testamento, onde crianças eram incluídas (como em Gênesis 17, com a circuncisão). Essa questão alimenta a controvérsia sobre o batismo infantil, que será explorada em profundidade em artigos futuros.
Perspectivas Históricas e Teológicas
Ao longo da história da igreja, teólogos notórios aprofundaram o entendimento do batismo. Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), um dos pais da igreja, via o batismo como essencial para a remoção do pecado original, a inclinação ao mal herdada de Adão, e para a iniciação na vida cristã. Em suas “Confissões”, ele reflete sobre seu próprio batismo aos 33 anos1, vendo-o como um ato de purificação e regeneração que opera independentemente da perfeição do ministro, mas pela graça de Deus, ideia que está alinhada com sua teologia da graça e da eficácia dos sacramentos . Agostinho defendia o batismo de crianças, argumentando que ele as incorpora à igreja e as protege do pecado original, uma prática já comum no século II.
Martim Lutero (1483-1546), o reformador protestante, enfatizava o batismo como um sacramento, um sinal visível da graça invisível, que opera o perdão dos pecados, liberta da morte e do diabo, e concede salvação eterna aos que creem nas promessas de Deus. Em seu “Catecismo Menor“, Lutero ensina que o batismo não depende da fé do batizado no momento, mas da Palavra de Deus unida à água, e ele apoiava o batismo infantil como uma expressão da graça soberana de Deus, que precede a fé humana.
Mais recentemente, o teólogo alemão Wolfhart Pannenberg (1928-2014) explorou o batismo no contexto da cristologia. Ele defendia a historicidade do batismo de Jesus como evento real que inaugura seu ministério messiânico e a manifestação do Espírito Santo. Para Pannenberg, o batismo cristão, operado pela graça divina e reconhecido pela fé pessoal, incorpora o crente à vida, morte e ressurreição de Cristo como antecipação da consumação escatológica.
Essas vozes, de diferentes épocas, reforçam a importância do batismo como um pilar da fé cristã, enraizado nas Escrituras e na tradição da igreja.
A Importância Contínua do Batismo
O batismo é essencial no cristianismo evangélico protestante porque ele proclama publicamente a fé, une o crente a Cristo e à comunidade, e sela as promessas de Deus. Não é um ato isolado, mas o início de uma jornada de discipulado, onde o batizado é chamado a viver em novidade de vida. Como sinal da graça, ele nos lembra que a salvação é obra de Deus, não nossa, convidando-nos a uma resposta de obediência e gratidão. Em muitos segmentos evangélicos, o batismo do crente é realizado após uma confissão consciente de fé, enfatizando o aspecto pessoal e transformador, alinhado ao ensino bíblico.
NOTAS:
- Embora Agostinho reflita sobre seu batismo nas Confissões, ele não faz uma exposição doutrinária detalhada ali – essa aparece mais claramente em suas obras posteriores, como Contra os Donatistas e Contra Juliano. ↩︎









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