Em tempos de polarização política, é comum que debates sobre ideologias extremas sejam instrumentalizados com pouca profundidade histórica ou filosófica. Dois regimes que marcaram o século XX com traços de sangue e repressão foram o nazismo (Alemanha de Hitler) e o comunismo soviético (sob Lenin e, sobretudo, Stalin). Ambos os sistemas foram totalitários, mas com bases ideológicas radicalmente distintas. Este artigo explora suas semelhanças e diferenças, incorporando também os alertas de C. S. Lewis, Thomas Sowell e David Koyzis sobre os riscos de qualquer sistema político que sacrifique a verdade e a liberdade no altar da ideologia e propõe uma leitura crítica a partir da cosmovisão cristã.
1. Autoritarismo: A semelhança estrutural
Tanto o nazismo quanto o comunismo soviético estabeleceram regimes totalitários, ou seja, sistemas em que o Estado se torna absoluto. A liberdade individual é sufocada por mecanismos de controle, vigilância, propaganda e repressão. Ambos perseguiram opositores políticos, controlaram a mídia e transformaram a educação em ferramentas de doutrinação ideológica.
O culto à personalidade também foi uma marca comum. Hitler e Stalin foram tratados como salvadores da pátria – ou da revolução -, com imagens onipresentes e discursos messiânicos.
Além disso, mesmo que o discurso econômico fosse distinto (como veremos abaixo), os dois regimes intervieram profundamente na economia, canalizando todos os recursos para os fins do Estado.
2. Ideologias Opostas: Diferenças fundamentais
Apesar das semelhanças no método de governo, as ideologias que sustentaram o nazismo e o comunismo são profundamente diferentes.
O nazismo e o comunismo representam duas formas distintas de totalitarismo que, embora compartilhem o controle autoritário do Estado e a supressão das liberdades individuais, possuem fundamentos e objetivos muito diferentes.
O nazismo é uma ideologia totalitária baseada no nacionalismo extremo e no racismo. Ele estabelece um Estado absoluto, centralizador e autoritário, onde a autoridade do governo é exaltada acima de tudo. As liberdades individuais são suprimidas em nome da unidade nacional e da supremacia racial, especialmente da chamada “raça ariana”. A economia sob o nazismo é marcada por um modelo de capitalismo de Estado, no qual os meios de produção permanecem em mãos privadas, mas são rigidamente controlados pelo governo. A religião pode ser tolerada, mas somente se estiver subordinada aos interesses do regime, sendo frequentemente instrumentalizada para reforçar a ideologia oficial. O inimigo interno é representado por minorias étnicas – por exemplo, os judeus – e opositores políticos. A identidade humana, nesse contexto, é definida por critérios de raça, sangue e pátria.
O comunismo, por outro lado, fundamenta-se na teoria da luta de classes e busca abolir a propriedade privada em prol de uma sociedade igualitária. O Estado comunista também é absoluto e centralizador, porém com foco na coletivização de todos os aspectos da vida. As liberdades individuais são suprimidas sob o argumento de que devem ceder lugar à igualdade social e ao bem coletivo. A economia é planificada e os meios de produção são propriedade do Estado. A religião é vista como uma ameaça ideológica – um “ópio do povo” – e por isso é oficialmente combatida. O inimigo interno é composto pela burguesia, pelos proprietários de terra, religiosos e qualquer um que se oponha ao regime. Nesse sistema, a identidade humana é entendida a partir da posição de classe e da consciência de classe, e não por critérios raciais ou nacionais.
Embora sejam opostos em seus discursos, um exaltando a nação e a raça, o outro prometendo igualdade e solidariedade entre as classes, ambos se encontram na prática pela violência, repressão, culto ao Estado e eliminação de opositores.
Enquanto o nazismo exalta a raça ariana, a pátria e a autoridade absoluta, o comunismo propõe a construção de uma sociedade sem classes, onde a propriedade e as diferenças sociais são abolidas.
Mas o resultado histórico foi semelhante: campos de extermínio, genocídios, censura e culto ao Estado.
3. O fascismo em Mussolini
Para compreender o cenário do século XX, também é importante incluir o fascismo italiano de Benito Mussolini. Diferente do nazismo, que se fundamentava no racismo biológico, e do comunismo, que se baseava na luta de classes, o fascismo exaltava o Estado como absoluto.
Mussolini afirmava: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.”
Sua ideologia pregava a obediência irrestrita ao líder e a militarização da sociedade.
O fascismo se situava entre o nacionalismo e o corporativismo econômico, estabelecendo uma economia mista, mas rigidamente controlada pelo Estado. Como no nazismo e no comunismo, a religião podia ser instrumentalizada, desde que servisse aos interesses do regime.
O legado de Mussolini mostra que o perigo não está apenas nas ideologias extremistas de esquerda ou de direita, mas em qualquer forma de poder que transforme o Estado em divindade.
4. C. S. Lewis: O perigo do “Bem” imposto
C. S. Lewis, em textos como A Abolição do Homem e Deus no Banco dos Réus, não abordou diretamente o comunismo ou o nazismo como doutrinas políticas específicas, mas fez fortes críticas à tendência de qualquer sistema que, em nome do “bem coletivo”, elimine a liberdade individual e a moral natural.
Ele alertava para o perigo dos “reformadores morais”, que, acreditando saber o que é melhor para os outros, impõem seu controle de maneira inescapável. Em uma de suas frases mais citadas:
“De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida para o bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva”
Para Lewis, o problema não era apenas o totalitarismo em si, mas o espírito ideológico que rejeita a ordem moral objetiva, substituindo-a por uma engenharia social arbitrária. Isso se aplica tanto ao projeto do “homem novo” nazista quanto ao “homem socialista” comunista: ambos rompem com a tradição, com o transcendente e com a consciência moral natural.
5. Thomas Sowell: Ideologias e realidades
O economista e pensador conservador Thomas Sowell oferece contribuições decisivas para entender os efeitos práticos das ideologias utópicas. Em obras como Conflito de Visões e Intelectuais e a Sociedade, Sowell mostra como regimes como o comunismo e o nazismo, apesar de opostos ideologicamente, compartilham uma visão trágica do ser humano, incapaz de governar a si mesmo sem controle total de um “grupo iluminado”.
Sowell alerta que tanto a esquerda revolucionária quanto a direita extremista cometem o mesmo erro: acreditam que podem reorganizar a sociedade a partir do zero, ignorando a história, a cultura, e os incentivos reais da natureza humana.
“A primeira lição da economia é a escassez: nunca há o bastante para satisfazer todos os que desejam. A primeira lição da política é ignorar a primeira lição da economia”
Para Sowell, os desastres do século XX aconteceram justamente quando os intelectuais abandonaram o realismo moral e político, cedendo à tentação de projetos utópicos baseados em teorias ideológicas sem base na realidade.
6. David Koyzis: As ideologias como religiões seculares
O cientista político cristão David Koyzis, em seu livro Visões e Ilusões Políticas, argumenta que muitas ideologias políticas modernas – incluindo o comunismo e o nacionalismo extremo – funcionam como substitutos religiosos. Elas oferecem uma narrativa de queda (problema), redenção (solução política) e salvação (a utopia a ser alcançada).
Koyzis afirma que essas ideologias absolutizam um aspecto da realidade criada por Deus, como o Estado, a classe social ou a nação, e o transformam em ídolo. Assim, a política deixa de ser um instrumento legítimo da vida pública e passa a ser um sistema de adoração substituto. O comunismo absolutiza a classe; o nazismo, a raça.
Segundo ele:
“Toda ideologia é uma tentativa de substituir a soberania de Deus por uma versão humanista de salvação política”
Nesse mesmo sentido, filósofos contemporâneos apontam que muitas correntes políticas modernas funcionam quase como seitas ou religião, com linguagem de fé, promessas de salvação histórica e exigência de lealdade incondicional. Em ambientes acadêmicos, por exemplo, essas ideologias são muitas vezes reproduzidas de modo dogmático, transformando o debate intelectual em catequese política. Assim, o que deveria ser espaço de reflexão crítica acaba se tornando terreno de militância, onde discordar é quase uma heresia.
O antídoto, para Koyzis, está em recuperar uma cosmovisão cristã coerente, na qual Cristo reina sobre todas as áreas da vida, inclusive a política, e onde nenhuma estrutura humana é divinizada.
7. A Declaração de Barmen: um protesto cristão contra os desvios ideológicos
Em 1934, no auge do nazismo, a Igreja Confessante na Alemanha reuniu-se em Barmen e publicou uma declaração que se tornou um marco da resistência cristã contra a instrumentalização da fé pelo Estado.
As seis teses da Declaração de Barmen reafirmam verdades centrais do evangelho diante do totalitarismo:
1. Cristo é a única Palavra de Deus que devemos ouvir e obedecer.
2. A Igreja só pertence a Cristo, e não pode estar sob o comando do Estado ou de qualquer ideologia.
3. A missão da Igreja é anunciar a graça de Deus, não se submeter a programas políticos.
4. O governo tem limites, e sua autoridade deve servir à ordem justa, não à tirania.
5. A Igreja e o Estado têm esferas distintas, e nenhuma pode usurpar a função da outra.
6. A Igreja rejeita qualquer doutrina falsa que coloque a política, a nação ou a ideologia acima de Jesus Cristo.
Barmen nos recorda que o discipulado cristão exige discernimento e coragem para resistir quando o Estado exige lealdade que só pertence a Deus.
8. Extremismos políticos e a advertência cristã
O episódio recente envolvendo o assassinato de Charlie Kirk nos Estados Unidos evidencia como os extremismos políticos, de direita ou de esquerda, podem escalar para a violência quando o diálogo e o respeito são substituídos pela hostilidade. É nesse contexto que precisamos lembrar da advertência: toda ideologia que se absolutiza pode se tornar um ídolo, capaz de gerar perseguição e até morte.
Como contraponto, lembremos uma frase atribuída a Desmond Tutu: “Meu pai sempre me dizia: não levante a sua voz, melhore os seus argumentos.” Essa sabedoria simples, mas profunda, mostra que o verdadeiro caminho não está no grito ou na violência, mas na força de uma boa argumentação. Para os cristãos, isso significa que a fé deve moldar tanto o conteúdo quanto o tom da nossa voz pública, mantendo-nos fiéis à verdade em amor. A propósito, Kirk foi alvejado num ambiente que gostava de participar: o debate sobre ideias em ambiente público.
9. A cosmovisão cristã diante das ideologias políticas
A cosmovisão cristã não é uma ideologia política, mas um modo de ver e viver o mundo a partir da revelação bíblica. Ela oferece uma estrutura para julgar criticamente todas as ideologias. Em vez de absolutizar o Estado, a economia ou a cultura, o cristianismo afirma que Deus é o Criador e Senhor soberano e que todas as esferas da vida devem se submeter ao Seu domínio.
Isso implica reconhecer:
– A dignidade e responsabilidade do ser humano como imagem de Deus (contra o coletivismo ou racismo).
– A limitação moral de qualquer poder humano (contra o totalitarismo).
– A necessidade de justiça e misericórdia (contra o elitismo ou o igualitarismo forçado).
– A centralidade do pecado original (contra utopias políticas).
Portanto, a fé cristã serve como uma âncora moral e espiritual que resiste tanto ao fascínio da direita autoritária quanto às promessas messiânicas da esquerda revolucionária.
O Preço da Liberdade
O século XX nos deixou uma lição clara: não importa se o totalitarismo vem vestido de vermelho ou pardo, se é em nome da pátria ou da justiça social, sempre que o Estado se torna absoluto, o indivíduo é esmagado.
C. S. Lewis nos convida a preservar uma moral objetiva e uma liberdade enraizada no bem comum transcendente. Thomas Sowell nos lembra de sermos céticos quanto a projetos ideológicos que prometem paraísos na terra, mas ignoram os limites humanos. David Koyzis nos alerta para o perigo de transformar a política em uma nova religião.
E a cosmovisão cristã nos dá discernimento para rejeitar os ídolos da modernidade e viver com fidelidade pública a Deus, sendo sal da terra e luz do mundo mesmo em tempos sombrios.
De acordo com a cosmovisão cristã, nenhuma ideologia humana pode oferecer salvação última. Somente Cristo é Senhor da história. Enquanto ideologias criam falsos deuses – raça, classe, Estado, nação -, a fé cristã confessa que o Reino de Deus não é deste mundo, mas invade a história com justiça, verdade e graça. Por isso, o papel da igreja não é se render a ideologias, mas proclamar Cristo como a única esperança verdadeira para a humanidade.
Referências e leitura complementar
Lewis, C. S. A Abolição do Homem. Editora Thomas Nelson Brasil.
Lewis, C. S. Deus no Banco dos Réus. Thomas Nelson Brasil.
Sowell, Thomas. Conflito de Visões. É Realizações.
Sowell, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. É Realizações.
Koyzis, David. Visões e Ilusões Políticas. Vida Nova.
Snyder, Timothy. Terras de Sangue: Europa entre Hitler e Stalin. Editora Record.
Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. Companhia das Letras.
Bíblia Sagrada. Romanos 13; Salmo 2; Apocalipse 13.
Leia Também Neste Blog:
Como Evitar as Ideologias Políticas
Direita e Esquerda: A História de uma Polarização
Socialismo e Fé Cristã: Reflexões à Luz do Evangelho
Nacionalismo e Cristianismo: Reflexões à Luz do Evangelho
O Capitalismo e o Cristianismo: Conflitos, Conexões e o Papel de Deus
A Democracia Pode Se Tornar Uma Ideologia?
Liberalismo e Fé Cristã: Onde Está a Verdadeira Liberdade?
Cristianismo e Conservadorismo: Uma Reflexão Sobre Fé e Política
Playlist ‘Ideologias’ no Youtube:

Se você deseja saber mais sobre as ideologias políticas e como lidar com elas a partir de uma perspectiva cristã recomendamos o livro de David Koyzis, Visões e Ilusões Políticas. Koyzis faz tanto uma análise filosófica quanto uma crítica honesta a cada ideologia, revelando os problemas de cosmovisão inerentes a cada uma delas, destacando seus pontos fortes e fracos.









Deixe um comentário