O Verbo que Brinca

A espiritualidade cristã costuma ser associada à oração, ao serviço e à missão, elementos centrais e inegociáveis da fé. No entanto, há um aspecto frequentemente negligenciado: o brincar como espaço de revelação, comunhão e antecipação da eternidade. Paul Stevens, no capítulo Brincando de Céu do livro Disciplinas Para um Coração Faminto, chama atenção para essa dimensão quase esquecida da vida espiritual: a ludicidade como ensaio do Reino.
O brincar, longe de ser uma atividade periférica ou meramente recreativa, toca algo profundo na experiência humana e na própria revelação de Deus. Aqui encontramos uma ideia central: o Logos Ludens, o Verbo que brinca.

O Logos Ludens: brincar como linguagem da fé
O conceito de Logos Ludens (o verbo que brinca) sugere que o brincar é uma dimensão intrínseca à criação e à revelação. A tradição tomista já intuía que o brincar não é apenas passatempo, mas uma expressão de contemplação, de busca pela verdade que é fim em si mesma.
Assim como a Sabedoria em Provérbios 8 é descrita como “brincando diante de Deus” na criação, também nós somos chamados a refletir esse caráter lúdico do Criador. O universo não nasceu de uma necessidade fria, mas da alegria transbordante de Deus, que fez da criação um espaço para sua glória e para nossa participação nela.

Dimensões do brincar: mais que diversão
A teologia do brincar, dialogando com reflexões de Melanie Klein e outros pensadores, entende o brincar como uma forma de experiência integral. Ele não se reduz ao entretenimento, mas se desdobra em diversas dimensões:
Experiência de autoria: a criança, ao brincar, se torna protagonista de suas narrativas. Ela experimenta o mundo e internaliza compreensões sobre si, os outros e Deus, num processo de autoria criativa que ecoa a própria liberdade humana diante do Criador.
Desvendando o mistério: no “como se” do brincar, a criança lida com questões fundamentais – sofrimento, morte, nascimento, sexualidade, esperança. O brincar é um modo de interagir com a vida em sua complexidade, sem a rigidez da lógica adulta, mas com abertura para o mistério.
Interação com o divino: brincar pode ser um espaço de contemplação, uma experiência espiritual em que se saboreia a leveza, a gratuidade e o excesso de luz da criação de Deus, inacessível à nossa razão, mas experimentada em fragmentos.

Brincando de Céu: a espiritualidade do ensaio
Paul Stevens nos ajuda a perceber que brincar é mais que psicologia ou pedagogia: é escatologia. Ele escreve que o brincar é “um vislumbre do Reino que virá”, pois nos retira da tirania da produtividade e nos coloca na liberdade da graça. Ao brincar, entramos no tempo de Deus, no ritmo da eternidade. O descanso sabático nos ajuda a experimentarmos a ludicidade como disciplina espiritual.
“[…] o que estraga a nossa vida espiritual é que insistimos em ser úteis e produtivos. Teimamos em insuflar o utilitarismo em nossa vida espiritual. E, no entanto, o trabalho do descanso do sábado é precisamente oposto disso. Nesse dia está em pauta o ócio – lazer, descanso e paz autênticos – a benção do sábado’. (Kenneth Leech)
Brincar é, portanto, um ensaio de céu. Um treino para a comunhão futura. Quando nos permitimos rir, festejar, jogar, dançar, contar histórias e imaginar, estamos antecipando a festa do Reino, onde não haverá cansaço, utilitarismo nem pressa, mas somente plenitude.

Jesus e a ludicidade do Reino
O próprio Cristo revelou essa dimensão lúdica do Reino. Ele acolheu as crianças, declarando que só quem recebe o Reino como elas poderá entrar nele (Mc 10.15). Ele participou de festas, transformou água em vinho, contou parábolas repletas de ironia e humor. Sua vida encarnada manifesta um Deus que não apenas salva, mas também celebra.
Ao colocar uma criança no centro, Jesus mostrou que a inocência, a confiança e a ludicidade são caminhos para experimentar o Reino. Nesse sentido, o brincar nos aproxima do puro de coração, que veem a Deus (Mateus 5.8).


Lutero e a educação lúdica
Martim Lutero também valorizava o brincar como parte essencial da educação das crianças. Ele via o aprendizado não apenas como instrução formal, mas como um processo que deve respeitar a alegria, a criatividade e a imaginação. Para Lutero, o brincar é uma forma de educação integral, pois permite à criança desenvolver habilidades cognitivas, sociais e espirituais de maneira natural e envolvente.
Segundo Lutero, a educação deveria equilibrar disciplina e liberdade, combinando instrução, oração e brincadeira. Ele entendia que, ao brincar, a criança aprende sobre o mundo, sobre si mesma e sobre Deus de maneira que palavras e doutrinas sozinhas não conseguiriam transmitir. Assim, o brincar se torna não apenas recreação, mas um caminho para formar caráter, virtude e confiança em Deus, alinhando-se perfeitamente à ideia do Logos Ludens.

Aplicações: onde brincar se torna teologia
A teologia do brincar tem implicações práticas profundas:
Educação: a aprendizagem se torna mais integral quando respeita o lúdico, permitindo que a criança descubra o mundo como autora de sua experiência. A proposta luterana reforça que a brincadeira é parte essencial da formação integral.
Psicoterapia: o brincar é uma chave para acessar e elaborar conflitos internos, sendo um meio de cura e autocompreensão que também pode ser visto como espaço de graça.
Música: músicos, cantores e instrumentistas podem experimentar o brincar como disciplina espiritual. Brincar com a própria voz, improvisar, explorar sons e ritmos é uma forma de celebrar a criação, expressar a alegria divina e antecipar a harmonia do Reino. Paul Stevens nos lembra que “em inglês, os atletas ‘brincam’(play) nos jogos; e os músicos ‘brincam’ com seus instrumentos”.
Missão: a proclamação do Evangelho não é apenas palavra séria e solene, mas também festa, mesa, convivência e alegria. A missão lúdica reflete o Deus que envia não apenas para trabalhar, mas para viver em comunhão.
Como exortação pastoral, Paul Stevens nos lembra: “Os melhores pastores sabem como se brinca. E, mais importante ainda, é saber por qual razão.” Que essa perspectiva nos inspire a viver uma fé alegre, criativa e conectada com o Verbo que brinca.

A Leveza do Reino
O Verbo que brinca nos convida a recuperar a dimensão esquecida da fé: a ludicidade. Brincar não é fútil, mas um ato espiritual, um espaço de contemplação e liberdade. Ele nos conecta ao excesso de mistério e sabedoria da criação e nos prepara para a festa eterna.
Como escreve Paul Stevens, brincar é uma disciplina espiritual porque antecipa a realidade do céu no meio do cotidiano. A perspectiva de Lutero sobre educação lúdica reforça que essa prática é também formativa, preparando crianças e adultos para uma vida de fé, alegria e discernimento.
Portanto, ao brincar – com crianças, com a comunidade, com a vida – estamos proclamando que o Reino já começou. O desafio, então, é simples e profundo: aprender a brincar com Deus.


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