Saia do Porão: Dons a Serviço da Missão

Uma das marcas do protestantismo é a doutrina do sacerdócio geral de todos os crentes. Conforme 1 Pedro 2.9, todos os cristãos foram chamados para ser “sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Isso significa que não há cristãos de “segunda categoria”: todos receberam dons e têm uma vocação diante de Deus, como ensinava Martim Lutero.
No entanto, em muitas igrejas, encontramos três situações preocupantes:
1. Membros acomodados – satisfeitos em apenas assistir cultos sem se engajar no serviço.
2. Limitação de frentes – a igreja, por vezes, não oferece espaços suficientes para que todos possam servir.
3. Disputa por espaço – em comunidades grandes, muitas vezes há um excesso de dons semelhantes (músicos, professores, líderes de jovens etc.), o que leva a uma saturação de funções e à frustração de membros que querem servir, mas não encontram oportunidade.
Diante disso, surge uma reflexão necessária: será que não estamos confundindo vitalidade da igreja com quantidade de pessoas sentadas nos bancos?
Essa questão não é nova. Uma canção de 2003, da banda Khorus, chamada Jonas, ecoava em seu refrão:
Tentou fugir da voz de Deus
Se enganou ao se esconder
E no escuro de um porão
Achou que era a solução
Pingos de chuva a cair
E o vento forte a soprar
E no escuro de um porão
Achou que era a solução
.”
Assim como Jonas, muitos cristãos ainda tentam se esconder da missão, achando que permanecer inativos ou confinados ao “porão” da passividade é solução. Mas Deus continua chamando e soprando, lembrando que todos fomos feitos para servir e ser enviados.

O verdadeiro termômetro da saúde da igreja

A saúde de uma comunidade cristã não se mede pelo número de participantes no culto, mas pela quantidade de discípulos que servem e são enviados para viver sua fé de forma missionária – tanto no cotidiano quanto em novas frentes de serviço.
Lutero lembrava que a vocação cristã inclui o lar, o trabalho e a vida comunitária, mas também pode se expandir para novos contextos. Assim, a questão não é apenas: “estou indo ao culto?”, mas também: “estou vivendo minha vocação de sacerdote real no mundo?”.

Não apenas os ociosos, mas também os melhores

Um equívoco comum é pensar que apenas os membros “ociosos” deveriam ser desafiados a sair do banco. A verdade é que, biblicamente, muitas vezes Deus chama também os mais engajados e maduros para serem enviados.
Foi assim em Antioquia (Atos 13): a igreja enviou Paulo e Barnabé, seus melhores líderes. Ao fazer isso, abriu espaço para que outros crescessem e florescessem no serviço local.
Da mesma forma, hoje as igrejas não devem reter seus melhores membros por medo da perda, mas compreender que enviar é parte da vocação missionária. O envio de crentes experientes pode fortalecer igrejas pequenas, comunidades em revitalização e a plantação de novas igrejas, além de criar espaço para que novos líderes sejam formados na igreja de origem.

Dons espirituais a serviço da missão

Sam Storms, em Dons Espirituais: uma Introdução Bíblica, Teológica e Pastoral (Vida Nova), lembra que o Espírito Santo concede dons não para benefício individual, mas para edificação do corpo de Cristo. Se os dons não são colocados em prática, eles se tornam talentos enterrados.
Descobrir, discernir e usar os dons espirituais é parte essencial da vocação cristã. A missão da igreja depende da ação de cada membro como colaborador ativo, seja onde está, seja onde Deus o enviar.

Uma proposta prática

Discernir vocação: cada crente deve perguntar: “Senhor, qual é o meu papel no Teu Reino?”
Dialogar com a liderança: mudanças não devem acontecer de forma isolada, mas em consenso com pastores e líderes, como parte de uma estratégia missionária.
Disponibilidade: abrir mão do conforto para servir onde há maior necessidade – mesmo que isso signifique mudar de igreja ou denominação.

Qual é a nossa resposta?

O desafio é deixar de medir a saúde da igreja por quantos estão presentes nos cultos e passar a medir por quantos estão ativos, servindo e sendo enviados. Talvez o próximo passo da sua vida cristã não seja “ficar”, mas ir. Não apenas os que estão no banco, mas também os que já estão se dedicando ao ministério podem ser chamados a novos lugares, para que o Reino avance e outros sejam capacitados.


Oração final
“Senhor, Tu nos chamaste para ser um povo sacerdotal, cada um com dons únicos para a Tua glória. Abre nossos olhos para enxergar onde o Senhor deseja que sirvamos. Dá-nos coragem para sair da acomodação e disposição para, se for da Tua vontade, sermos enviados a outras comunidades que precisam de apoio. Que possamos discernir, junto da igreja e da liderança, os caminhos onde nossos dons podem frutificar. E que tudo seja feito para edificação do Teu povo e avanço da Tua missão. Em nome de Jesus, amém.”


Leituras recomendadas
• Michael W. Goheen, A Missão da Igreja Hoje (Ultimato).
• Sam Storms, Dons Espirituais: uma Introdução Bíblica, Teológica e Pastoral (Vida Nova).


O livro “A Missão da Igreja Hoje”, de Michael W. Goheen, é uma obra que apresenta uma visão abrangente e contemporânea sobre o que significa viver a missão de Deus no mundo.

Goheen mostra que a missão não é um departamento da igreja, nem uma atividade entre outras, mas sim a própria identidade e vocação do povo de Deus. Ele parte da ideia de que toda a Bíblia revela o Deus missionário, que chama seu povo para participar de sua obra de reconciliação e restauração de todas as coisas em Cristo. É uma introdução profunda e acessível sobre o que significa ser igreja em missão hoje.

O livro explora:

Fundamentos bíblicos e teológicos da missão (a narrativa bíblica como história missionária);

Dimensões da missão (evangelização, discipulado, justiça, cultura, criação, espiritualidade);

Desafios contemporâneos (pluralismo religioso, globalização, secularismo);

A igreja como comunidade missionária inserida no mundo para dar testemunho do Reino de Deus em palavras e ações.


O Sacerdócio Geral


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