No mundo cristão há uma preocupação crescente com o que se chama de analfabetismo bíblico. Isso não significa que as pessoas não saibam ler ou escrever, mas sim que muitos que se identificam como cristãos têm um conhecimento superficial ou quase nulo da Bíblia, o livro central da fé. De acordo com pesquisas e relatos de líderes evangélicos globais, como o destacado por Thomas Schirrmacher, da Aliança Evangélica Mundial, essa falta de familiaridade com as Escrituras é o maior problema enfrentado pela igreja evangélica hoje, afetando milhões de fiéis em todo o mundo. É como se a Bíblia, que deveria ser o guia diário para a vida, ficasse guardada na prateleira, enquanto a fé se baseia mais em experiências pessoais ou mensagens rápidas.
Esse fenômeno não é novo, mas tem se agravado nas últimas décadas. Estudos mostram que, mesmo em países com forte presença evangélica, como os Estados Unidos e o Brasil, muitos frequentadores de igreja não conseguem explicar conceitos básicos da Bíblia ou aplicar seus ensinamentos no dia a dia. Por exemplo, em igrejas protestantes, onde a ênfase histórica sempre foi na leitura pessoal das Escrituras – um princípio chave da Reforma Protestante –, o analfabetismo bíblico representa uma perda de identidade. Sem um entendimento sólido da Palavra de Deus, a fé corre o risco de se tornar vazia, distante do que Jesus ensinou sobre conhecer a verdade que liberta (João 8.32).
Causas do Analfabetismo Bíblico
Várias razões contribuem para essa realidade, e elas estão ligadas tanto ao estilo de vida moderno quanto a práticas dentro das próprias igrejas. Uma das principais é a mudança no foco das pregações. Muitos pastores, pressionados pelo desejo de atrair mais pessoas, optam por mensagens curtas, cheias de histórias pessoais e frases motivacionais, em vez de explicar a Bíblia de forma profunda. Isso resulta em crentes que conhecem apenas o básico do Evangelho, sem base sólida. No contexto protestante, onde a Bíblia é vista como a autoridade final, essa abordagem superficial enfraquece a formação espiritual
Outra causa é a falta de discipulado e ensino sistemático. Em muitas igrejas, não há prioridade para estudos bíblicos em grupo ou classes de escola dominical, o que era comum no passado. Pesquisas em igrejas evangélicas americanas revelam que o declínio na frequência à igreja e a ausência de programas de ensino aprofundado passam o problema de geração para geração: pais que não conhecem a Bíblia bem não transmitem esse conhecimento aos filhos. Além disso, o movimento de crescimento de igrejas, popularizado nas décadas de 1980 e 1990, priorizou números e experiências emocionais em detrimento do estudo teológico, levando a um “analfabetismo teológico impressionante” entre os fiéis.
O estilo de vida acelerado também joga contra. Com rotinas cheias de trabalho, redes sociais e entretenimento, as pessoas leem menos a Bíblia individualmente. Relatórios regionais, como o do Movimento Lausanne, destacam que, na América do Norte – uma região influente para o protestantismo global –, o analfabetismo bíblico se agrava com a inconsistência na participação em cultos e a ascensão de pessoas que se declaram “não religiosas”, mas ainda se identificam vagamente como cristãs. No Brasil observa-se a mesma preocupação, verificando-se o problema de um “cristianismo aguado” sem consistência.
Consequências para a Igreja e os Cristãos
As efeitos dessa falta de conhecimento bíblico são profundos e afetam não só o indivíduo, mas toda a comunidade de fé. Uma igreja cheia de cristãos que não conhecem a Bíblia se torna fraca e superficial, incapaz de enfrentar desafios reais da vida. Sem as Escrituras como base, a fé vira algo baseado em emoções passageiras, levando a um cristianismo sem raízes que facilmente desmorona em tempos de crise. Líderes evangélicos alertam que isso cria uma “epidemia” onde as pessoas não sabem aplicar a Palavra de Deus, resultando em decisões erradas e uma vida espiritual estagnada.
No nível coletivo, a igreja perde sua influência no mundo. A Bíblia é o que dá voz à verdade em uma sociedade confusa, mas sem conhecimento dela, os cristãos não conseguem defender sua fé ou impactar a cultura ao redor. Estudos mostram que o analfabetismo bíblico contribui para o aumento de visões distorcidas sobre Deus, como um “favor imerecido” mal entendido que ignora a obediência, levando a uma igreja que não reflete o caráter de Cristo. Além disso, gera divisões: sem base comum nas Escrituras, surgem interpretações pessoais que enfraquecem a unidade, como visto em debates sobre moral e doutrina. Em última análise, isso ameaça a missão da igreja, pois cristãos sem conhecimento bíblico não discipulam outros de forma eficaz, perpetuando o ciclo.
Da perspectiva cristã, baseada na tradição evangélica, isso é grave porque a Bíblia não é apenas um livro, mas a revelação de Deus. Ignorá-la é ignorar a voz do Criador, o que leva a uma vida distante do propósito divino. Como Paulo escreveu em 2 Timóteo 3.16-17, as Escrituras equipam o crente para toda boa obra – sem elas, a igreja falha em sua chamada de ser luz no mundo.
Como Combater o Analfabetismo Bíblico
A boa notícia é que há caminhos práticos e comprovados para reverter essa tendência, e eles começam com ações simples nas igrejas e nas famílias. Primeiramente, incentive o estudo em grupos pequenos. Esses encontros, onde as pessoas leem e discutem a Bíblia juntas, são chave para mudar a realidade, pois promovem compreensão e aplicação real. Pastores podem adotar pregações expositivas, explicando versículos passo a passo, e encorajar os fiéis a trazerem suas Bíblias para os cultos.
Em segundo lugar, reviva programas de ensino, como escolas dominicais e discipulado. Pais, pastores e professores devem priorizar o ensino bíblico para crianças e jovens, combatendo o problema na raiz. Iniciativas como programas de memorização de versículos ajudam a internalizar a Palavra de Deus, tornando-a parte do dia a dia. No Brasil, é urgente a necessidade de combater isso ativamente nas igrejas.
Por fim, cada cristão pode começar individualmente: leia a Bíblia diariamente, ore pedindo entendimento e busque recursos confiáveis de tradição protestante, como comentários de reformadores. A chave é ver a Bíblia como essencial para a salvação e crescimento, não como opcional. Como Jesus disse, o homem não vive só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mateus 4.4). Combatendo o analfabetismo bíblico, a igreja se fortalece, vive uma fé autêntica e cumpre sua missão no mundo.
Se você está começando a ler a Bíblia, assista esse vídeo:
Bíblia: por onde começar?
Um desafio para quem começa a ler a Bíblia é entender como todas aquelas histórias se encaixam na narrativa maior. Por isso, compreender o escopo mais geral da Bíblia pode ser um estímulo para quem já tentou ler a bíblia, mas nunca conseguiu ir adiante.

O livro “O Drama das Escrituras: Encontrando o nosso lugar na história bíblica” de Michael W. Goheen e Craig G. Bartholomew é uma introdução à Bíblia que a apresenta como uma única grande narrativa. Em vez de tratar a Escritura como uma coleção de textos desconectados ou apenas um manual de regras, os autores mostram que a Bíblia é uma história unificada, em seis atos, que revela o plano de Deus para o mundo.
A proposta central é que cada cristão é chamado a entrar nesse drama, vivendo sua fé como parte da missão de Deus na história. O livro, portanto, ajuda o leitor a enxergar a Bíblia como uma história viva, que molda identidade e vocação, e não apenas como um conjunto de doutrinas ou histórias isoladas.
Série de Vídeos ‘O Drama das escrituras’
No Canal Teologia Missional preparamos uma série de vídeos baseada no livro de Michael W. Goheen e Craig G. Bartholomew. São seis vídeos que ajudam você a obter uma visão geral da grande história bíblica.









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