Em uma entrevista no final da vida, o crítico literário canadense Northrop Frye foi perguntado sobre o que fazia como pastor. Sua resposta foi curta, mas profunda:
“Eu caso meus alunos – e os enterro.”
Essa frase revela muito sobre a dimensão pastoral que pode existir fora do ofício eclesiástico formal. Frye, mesmo não sendo ministro ordenado, reconhecia que seu papel como professor tinha implicações pastorais: acompanhar, orientar e, de certo modo, marcar a vida de seus alunos em momentos decisivos.

Northrop Frye, nascido em 1912 em Sherbrooke, Quebec, tornou-se uma das vozes mais influentes da crítica literária ao sistematizar categorias de análise em Anatomy of Criticism; paralelamente, exerceu ministério na United Church of Canada, unindo sua profunda vivência cristã à curiosidade intelectual. Ordenado ministro, Frye não se limitou ao púlpito: como educador, levou a congregação e a academia a refletir sobre os textos bíblicos sob a ótica dos arquétipos literários. Sua formação teológica moldou uma abordagem em que feixes de símbolos e narrativas revelam camadas de sentido na experiência humana. Para quem ainda não o conhece, Frye exemplifica como fé e erudição podem caminhar juntas, mostrando a Bíblia e a literatura como fontes inesgotáveis de significado.
1. A pastoral que ultrapassa o púlpito
Frye nos mostra que o cuidado pastoral não se limita ao púlpito ou ao espaço litúrgico. Ele se estende às relações cotidianas, ao ensino, ao acompanhamento e ao exercício de uma presença significativa na vida de outras pessoas. Sua sala de aula tornou-se também um espaço de cuidado, escuta e direção – algo profundamente pastoral.
2. O discipulado como ato pastoral
Jesus não chamou apenas pastores oficiais, mas discípulos que, em sua caminhada, cuidassem uns dos outros. A missão da igreja exige que cada membro entenda sua responsabilidade pastoral no sentido mais amplo: cuidar, aconselhar, ensinar, encorajar, lamentar e celebrar junto aos irmãos.
Frye nos lembra que esse cuidado não precisa de título, mas de compromisso e presença verdadeira.
3. O vínculo pastoral na teologia missional
Na perspectiva missional, a igreja é enviada ao mundo como corpo de Cristo, onde cada membro participa da missão de Deus. Isso significa que o cuidado pastoral é distribuído, não concentrado.
Quando Frye fala de “casar” e “enterrar” seus alunos, ele aponta para a dimensão relacional e comunitária da vida cristã: estar presente em transições, crises e celebrações.
Kevin Vanhoozer e Owen Strachan, em O pastor Como Teólogo Público (Editora Vida Nova), reforçam que o pastor deve ser um mediador de sabedoria prática e doutrinária, conectando a fé às questões reais da vida das pessoas. Assim como Frye, o pastor é chamado a um ministério que vai além de ritos e sermões: um guia que acompanha, ensina e influencia vidas com profundidade e responsabilidade.
Além disso, podemos expandir a visão do pastoreio mútuo considerando duas dimensões práticas essenciais:
• Aconselhamento pastoral – David Powlison, em O pastor Como Conselheiro (Monergismo, 2022), destaca a importância de orientar e cuidar das almas, ajudando os membros da igreja a lidarem com dúvidas, crises e decisões à luz da Palavra de Deus.
• Visitação pastoral – Franklin Dávila, em Visitação Pastoral (Monergismo, 2021), enfatiza a presença próxima do pastor na vida da comunidade, oferecendo cuidado, empatia e discernimento.
Essas dimensões reforçam que o cuidado pastoral vai muito além do púlpito, manifestando-se na vida diária e nos relacionamentos concretos.
4. Um chamado para a igreja de hoje
Num tempo em que a igreja muitas vezes se prende ao espetáculo ou à burocracia, a lembrança de Frye nos chama de volta ao essencial: o ministério pastoral é estar com as pessoas em seus momentos mais marcantes.
A pastoral missional não se limita a ritos, mas se manifesta no caminhar com o outro, no aconselhamento, na visitação, no acompanhamento de perto e no amor encarnado no cotidiano. Cada discípulo é chamado a viver o pastoreio de Cristo no mundo, celebrando, consolando e guiando vidas com amor e responsabilidade.
O Pastor Presente
Northrop Frye, sem o querer, lançou uma provocação à igreja: ministério pastoral não é apenas função; é presença. Seu testemunho como professor que se via como pastor nos convida a redescobrir a dimensão missional da vida cristã.
O diálogo com Vanhoozer e Strachan, Powlison e Dávila reforça que a pastoral, mesmo pública e teologicamente orientada, deve permanecer enraizada na vida concreta das pessoas, conectando fé, ensino, cuidado, aconselhamento e visitação.
Para aprofundar essa reflexão e se inspirar na prática pastoral, recomenda-se a leitura de:
• Northrop Frye – A Imaginação Educada
• Kevin Vanhoozer; Owen Strachan – O pastor como teólogo público
• David Powlison – O pastor como conselheiro
• Franklin Dávila – Visitação pastoral
• Richard Baxter – O Pastor Aprovado
Essas obras ajudam a compreender como o cuidado pastoral pode se manifestar de maneiras diversas, indo muito além do púlpito, e inspiram cada cristão a viver sua vocação pastoral na vida cotidiana e na missão da igreja.
“Portanto, exortem-se e edifiquem-se uns aos outros, como de fato vocês estão fazendo.” (1Tessalonicenses 5.11).
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