Dias difíceis estavam por vir. Um regime racista prestes a silenciar milhões começava a se levantar. E, naquele abril de 1933, um jovem pastor ousa erguer a voz. Em “A Igreja e a Questão Judaica”, Dietrich Bonhoeffer não se limita a criticar: ele convoca a comunidade cristã a romper o silêncio cúmplice, erguendo o primeiro manifesto político-teológico contra o nazismo e transformando fé em resistência.
Contexto do Ensaio
Em abril de 1933, poucas semanas após a ascensão de Hitler ao poder, Dietrich Bonhoeffer proferiu uma palestra em Berlim intitulada A Igreja Perante a Questão Judaica. Logo em junho, publicou uma versão ampliada do texto no periódico Der Vormarsch. Esse ensaio se tornou um dos primeiros manifestos político-teológicos contra as políticas raciais do regime nazista. Sua importância está em marcar o início da resistência teológica organizada ao nazismo dentro do protestantismo alemão.
Estrutura do Argumento
Bonhoeffer parte de uma questão inédita na história: a perseguição estatal contra os judeus não apenas por motivos religiosos, mas puramente raciais. Essa nova situação exigia da Igreja uma resposta teológica e prática. Ele propõe que somente a partir de um conceito correto de Igreja seria possível responder:
Qual deve ser a avaliação da Igreja sobre as medidas do Estado contra os judeus?
Qual deve ser a posição da Igreja em relação aos judeus batizados em suas comunidades?
A partir dessas perguntas, ele não apenas discute a situação imediata, mas elabora princípios que orientariam sua postura política e teológica ao longo da década de 1930.
A Igreja diante do Estado
Segundo Bonhoeffer, a função do Estado é garantir direito e ordem para todos os cidadãos. Quando o Estado deixa de cumprir esse papel, a Igreja tem não apenas o direito, mas o dever de reagir. Ele descreve três níveis de atuação eclesial diante do poder político:
Responsabilizar o Estado por suas ações, questionando se suas medidas ainda correspondem à sua vocação de proteger a vida.
Servir às vítimas do Estado injusto, servindo concretamente às pessoas que sofrem, independentemente de sua origem ou fé.
Atuar politicamente de forma direta, “lançar-se contra os raios da roda” quando o Estado nega sua própria essência, ou seja, quando priva grupos inteiros de seus direitos básicos ou interfere no âmbito da proclamação cristã.
Essa terceira possibilidade é decisiva: indica que há situações em que a Igreja deve resistir frontalmente ao Estado, mesmo correndo risco de perseguição. Esse conceito antecipa a noção de statu confessionis (estado de confissão), quando a fidelidade ao evangelho exige desobediência civil. há momentos em que a própria existência da Igreja e do Estado está em jogo, e nesse ponto a Igreja deve resistir em nome do evangelho.
A Questão dos Judeus Batizados
Bonhoeffer é categórico: um judeu batizado é membro da Igreja. Por isso, qualquer tentativa de exclusão baseada em critérios raciais seria uma negação do evangelho. Se a Igreja aceitasse tal exclusão, deixaria de ser Igreja de Cristo e se transformaria em uma comunidade legalista, “judaico-cristã” no sentido negativo que ele atribui ao termo. Nesse ponto, Bonhoeffer identifica a fidelidade da Igreja: onde judeus e alemães permanecem juntos sob a Palavra de Deus, aí está a verdadeira Igreja.
Recepção e Impacto
O ensaio foi recebido com cautela e, em muitos casos, com rejeição. Muitos pastores e líderes protestantes consideraram suas palavras ousadas demais para os primeiros meses do regime nazista. Bonhoeffer, então com apenas 27 anos,isolou-se de parte significativa do meio eclesial oficial, mas lançou as bases da resistência teológica que se consolidaria com a Igreja Confessante1 e a Declaração de Barmen2.
Críticos posteriores apontaram que Bonhoeffer ainda se movia dentro de categorias tradicionais – como a ideia do sofrimento histórico de Israel sob a maldição divina -, mas, ao mesmo tempo, sua insistência na igualdade dos judeus batizados dentro da Igreja foi um gesto de coragem raro no protestantismo alemão da época.
Significado Histórico
O texto de 1933 é um divisor de águas porque:
- É a primeira intervenção pública de Bonhoeffer contra o nazismo.
- Define o papel da Igreja frente ao totalitarismo: não como parceira legitimadora, mas como instância crítica e profética.
- Introduz a possibilidade de resistência ativa como exigência do evangelho.
Por tudo isso, A Igreja perante a Questão Judaica pode ser considerado o primeiro manifesto político-teológico de Bonhoeffer, no qual sua fé se traduz em ação diante de um Estado que já mostrava sua face totalitária.
1 A Igreja Confessante foi um movimento de resistência dentro do protestantismo alemão fundado em 1934, em oposição à política nazista de controle sobre a Igreja Evangélica Alemã. Defendia a autonomia da Igreja frente ao Estado e a centralidade da Palavra de Deus.
2 Declaração de Barmen: documento redigido em maio de 1934 por Karl Barth e outros líderes da Igreja Confessante, que rejeitava a subordinação da Igreja ao Estado nazista e afirmava que Jesus Cristo é o único Senhor da Igreja, contra qualquer forma de ideologia política.
Contra a Tirania
CLIQUE AQUI para acessar livros de Dietrich Bonhoeffer










Deixe um comentário