Deus Não é Seu Acessório: O Chamado de Jesus para uma Fé que Custa Tudo

Há uma versão de “fé” muito popular por aí. Ela é confortável, conveniente e se encaixa perfeitamente nos seus planos. Nela, Deus funciona como uma espécie de força espiritual à sua disposição. Você ora para conseguir aquele emprego, para a venda da colheita dar certo, para a saúde da família. Deus se torna o grande realizador de desejos, o garantidor da prosperidade, o acessório definitivo para uma vida bem-sucedida.

Soa familiar?

O problema é que, quando abrimos os Evangelhos, encontramos um Jesus que não se encaixa nesse molde. Ele não pergunta “Como posso ajudá-lo a alcançar seus sonhos?”. Em vez disso, Ele olha para a multidão de seguidores interessados e faz um discurso que espantaria qualquer um de nós hoje. Ele fala sobre… cálculo. Sobre custo. Sobre renúncia.

Em Lucas 14, Jesus não está oferecendo um produto. Ele está fazendo um convite para uma transformação. E esse convite começa com uma pergunta que corta pela raiz a nossa fé superficial: “Você já parou para calcular o que, de fato, vai lhe custar me seguir?”

A Fé do Construtor Incompleto (e por que ela Falha)

Jesus conta uma história: “Pois qual de vocês, querendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular o custo, para ver se tem o que é preciso para terminá-la?” (Lucas 14:28).

A imagem é poderosa. Na Palestina, uma torre na vinha era um investimento caro, mas essencial para proteger tudo o que era valioso. O construtor tolo é aquele que age por impulso. Ele coloca o alicerce com entusiasmo, mas quando percebe o custo real dos materiais e da mão de obra, desiste. A obra fica inacabada, um monumento à sua imprudência. E ele se torna alvo de zombaria.

Essa é a imagem exata de uma fé que vê Deus como um acessório para a prosperidade.

Muitos de nós começamos a construir uma “vida cristã”. O alicerce é uma oração aqui, um pedido de benção ali. Queremos que Deus proteja nossos bens, abençoe nossos negócios, garanta nossa colheita. Ele é a “torre” que contratamos para guardar nossa vinha.

Mas então, vem a seca. O mercado desaba. A enchente leva. A doença chega. E descobrimos, com horror, que a nossa “torre” de fé utilitarista não tem estrutura para aguentar. A fé dos ‘dias bons’ não resiste nos ‘dias maus’. Ela desaba. Por quê? Porque ela nunca foi construída para suportar tempestades, mas apenas para desfrutar de dias de sol. Ela não foi feita para um relacionamento com o Criador, mas para servir aos interesses da criatura.

A fé que busca apenas bens e prosperidade é uma fé que, na primeira crise existencial de verdade, se revela um projeto inacabado e inútil. Ela nos deixa não apenas decepcionados, mas profundamente envergonhados.

A Guerra que sua “fé dos dias bons” não Pode Vencer

Jesus, porém, não para na metáfora da construção. Ele vai mais fundo, até o cerne da questão: “Ou qual é o rei que, indo à guerra contra outro rei, não se assenta primeiro para ver se com dez mil homens é capaz de enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil?” (Lucas 14.31).

Aqui, a mensagem é ainda mais dura. A vida não é só um projeto de construção; é um campo de batalha. E o seu inimigo principal não é a inflação ou uma praga na lavoura.

Seu maior inimigo é o próprio motor da fé superficial: o seu “eu” no trono da sua vida.

A mentalidade que usa Deus para interesses egoístas é, em si mesma, a rebeldia fundamental. É a vontade de ser Deus, usando Deus. É uma guerra que você já perdeu. Com suas próprias forças – sua positividade, sua mentalidade de sucesso, suas orações focadas em ganho, sua autoajuda de coach – você é como o rei com 10.000 homens. Você não tem a menor chance contra o exército do seu próprio pecado, do vazio existencial e do julgamento final.

A única estratégia sábia, diz Jesus, é se render antes que a batalha te destrua completamente.

A Grande Inversão: A Rendição que é a Única Verdadeira Prosperidade

E isso nos leva ao versículo que parece enterrar de vez a ideia de um Deus-acessório: “Assim, pois, qualquer de vocês que não renunciar a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.33).

“Renunciar a tudo.” Soa como o oposto da prosperidade, não é? Soa como perda. Como derrota.

Mas e se essa for a maior inversão de todas? E se essa “renúncia” for, na verdade, a rendição sábia do rei que percebe que a guerra está perdida? E se for a decisão inteligente do construtor que, finalmente, encontra um patrocinador infinitamente rico para bancar sua obra?

Aqui está o coração do evangelho, a bomba-relógio que desmonta a fé superficial: A renúncia que Jesus pede não é para um Deus que quer tirar, mas para o Deus que, em Jesus, já deu tudo.

Na cruz, Jesus é o verdadeiro Construtor. Ele calculou o custo da nossa paz com Deus – e o custo era a sua própria vida. Ele pagou o preço integral que nossa fé de mercadoria nunca poderia pagar.

Na cruz, Jesus é o verdadeiro Rei. Ele se rendeu ao nosso inimigo (a morte e o pecado) para que nós, os rebeldes derrotados, pudéssemos receber termos de paz.

Portanto, “renunciar a tudo” não é sobre você perder suas posses. É sobre você finalmente perceber que a sua vida, seus sonhos, seu negócio e sua família já pertencem a Ele por direito de criação e, agora, por direito de redenção.

Render-se a Cristo não é ser menos próspero; é ser finalmente livre da escravidão de ter que ser bem-sucedido a qualquer custo. É transferir o peso do seu mundo das suas costas frágeis para os ombros infinitos do único que pode carregá-lo.

O que Significa “Calcular o Custo” numa Cultura de Consumismo?

Eu vivo na serra gaúcha, onde o trabalho duro e a prosperidade são valores fortemente enraizados. Calcular o custo do discipulado significa fazer algumas perguntas incômodas:

  • Para o agricultor: Você busca a Deus pela boa colheita, ou você busca a Deus na colheita, seja ela farta ou escassa? A sua identidade está no seu vinhedo ou em Cristo?
  • Para o empresário: Você ora para que Deus abençoe seus negócios, ou você entrega seus negócios para que Deus os use para a benção dEle, mesmo que isso signifique um lucro menor em troca de uma integridade maior?
  • Para todos nós: Quando você ora, a sua lista de pedidos é maior que o seu tempo de adoração? Você está mais interessado no que Deus pode dar ou em quem Deus é?

Calcular o custo é perceber que a verdadeira benção não é ter Deus ao seu lado realizando seus planos. A verdadeira, radical e eterna prosperidade é ter a Deus, simplesmente.

O Custo do Seguro que Vale a Pena

No final, Jesus nos coloca diante de uma escolha clara.

De um lado, a fé superficial. Ela promete tudo e custa pouco no começo. Parece uma barganha. Mas seu custo real é a alma. Ela leva a uma torre inacabada e uma guerra perdida.

Do outro lado, o discipulado radical. Ele custa tudo. Exige que você desça do trono. Mas seu custo já foi pago por Jesus na cruz. E o que ele oferece em troca é a única coisa que pode preencher o vazio que a prosperidade nunca preenche: uma paz que excede todo o entendimento, uma alegria inabalável e a posse do próprio Deus.

Jesus não veio ser um acessório na sua vida de sucesso. Ele veio para ser a vida. E essa é a única prosperidade que realmente importa.

E você? Vai continuar contratando Deus, ou vai se render a Ele?


O melhor livro sobre o tema Discipulado que você poderia encontrar

A Graça Barata Tem um Preço Alto. A Graça Verdadeira Te Convida a Contar o Custo.

Você terminou de ler sobre o chamado de Jesus para uma fé que custa tudo e sente que há mais a explorar? Se a mensagem deste artigo ressoou em você – se você deseja escavar mais fundo para entender a diferença entre uma fé conveniente e um discipulado que transforma toda a vida -, então você está pronto para um mergulho sério. Em seu livro clássico “Discipulado” (também conhecido como “O Custo do Discipulado”), Dietrich Bonhoeffer articula de forma poderosa e inesquecível o mesmo chamado radical que Jesus faz em Lucas 14.

Pare de negociar com Deus. Comece a segui-Lo.


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