E se a Reforma Protestante tivesse escolhido outra base bíblica? Descubra como uma ênfase em Efésios, em vez de Romanos, teria criado um cristianismo mais focado na unidade da igreja e na renovação cósmica do que na salvação individual. Uma reflexão que vai mudar sua visão do evangelho.
Você provavelmente sabe que os reformadores protestantes do século 16, a quem devemos tanto de nossa herança doutrinária, tendiam a destacar especialmente as cartas aos Romanos e Gálatas. Eles estavam travando uma batalha crucial em torno da doutrina da justificação. E essas duas cartas são as principais exposições de Paulo sobre o tema, embora o assunto também surja em Efésios.
Será que se os reformadores tivessem escolhido Efésios, e não Romanos e Gálatas, como seus textos-chave, a história da igreja ocidental teria sido diferente? Será que haveria outras influências no mundo? O que poderia ter sido diferente?
Vamos explorar essa ideia um pouco mais.
A Pergunta que Moldou uma Geração
Nós lemos as Escrituras dentro de contextos implícitos, influenciados pela forma como esses textos foram lidos ao longo da história. Dois pontos se destacam.
Em primeiro lugar, os reformadores abordavam, como uma questão de urgência, a doutrina da justificação. A pergunta crucial da época para eles era: “Como posso ter certeza de que irei para o céu quando morrer?”
Diante do pecado universal, essa questão se concentrava em como as pessoas poderiam ser reconciliadas com Deus. Em outras palavras, na justificação.
Para eles, a doutrina era sobre como chegar ao céu e, de preferência, como evitar ter que passar um tempo no purgatório no caminho. A igreja medieval havia feito isso parecer difícil e incerto, com uma infinidade de observações religiosas, regras e regulamentos. No final, para a maioria das pessoas, o melhor que podiam esperar era uma temporada no purgatório antes de finalmente serem admitidas no céu.
A Visão Cósmica de Efésios: Um Horizonte Muito Mais Amplo
Mas, na realidade, nem Romanos nem Gálatas, e muito menos Efésios, estão abordando essa pergunta específica. O horizonte de espera para o qual essas cartas apontam não é sobre a sua alma ir para o céu depois que você morre.
Veja Efésios 1.10: O plano de Deus era “reunir todas as coisas em Cristo, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra”.
“O Espírito Santo é a garantia de que receberemos o que Deus prometeu ao seu povo” (Efésios 1.14).
E quando, no versículo 14, o Espírito Santo é a garantia da nossa herança, precisamos nos lembrar que aqui, assim como em Romanos 8, a herança do cristão não é o céu. A herança do cristão é a totalidade da criação redimida em Cristo.
O propósito de Deus é a união do céu e da terra no grande ato de renovação cósmica falado em Apocalipse 21, 1 Coríntios 15 e Romanos 8.
É isso que está em jogo quando digo que a visão de Paulo para a igreja é a de ser um pequeno modelo operacional da nova criação de Deus.
A igreja, já no tempo presente, deve ser a comunidade do céu-e-terra. A comunidade terrena permeada pela realidade do céu. O povo assentado nas regiões celestes vivendo sua vocação no mundo difícil e desafiador de espaço, tempo, matéria e hostilidade pagã.
E nós somos justificados – colocados em pleno direito com Deus – para sermos essa comunidade, e assim sê-lo de forma visível e impactante diante de um mundo que nos observa.
Esse é o primeiro ponto em que Efésios teria orientado o rumo da teologia: a visão de salvação de Paulo não é sobre ser resgatado do mundo, mas sobre a união do céu e da terra em Jesus, o Messias, e na vida de seus seguidores.
O Resultado Prático: A Unidade da Igreja Como Evidência
Efésios eleva este princípio a outro patamar. Assim como o restante do Novo Testamento, esta carta trata profundamente da unidade da igreja – mas aqui, de forma mais explícita e central.
Paulo deixa claro que, tanto em Romanos e Gálatas quanto em Efésios, a justificação pela fé tem um objetivo social poderoso: ela é o alicerce para a unidade da igreja, derrubando a principal barreira da época – a divisão entre judeus e gentios. E, por extensão, todas as demais barreiras de cultura, etnia, gênero e classe social.
O problema é que, ao enxergarmos a justificação principalmente através da lente individualista de “como eu vou para o céu”, perdemos completamente seu poder transformador e comunitário. A verdadeira justificação pela fé é explosiva; ela não apenas reconcilia o indivíduo com Deus, mas é a própria força que destrói os muros de hostilidade (Efésios 2.14) para forjar, em Cristo, um único e novo povo.
Imagine se a Reforma, em vez de consolidar uma doutrina focada na jornada individual para a eternidade, tivesse enfatizado essa visão. Imagine uma doutrina de justificação que, em seu próprio DNA, carregasse um chamado irresistível para a unidade visível e a reconciliação étnica e social – não como um acréscimo opcional, mas como a prova cabal da veracidade do Evangelho.
Uma Oportunidade para Hoje
O curso da história é irreversível. Mas a nossa compreensão teológica não está presa ao passado.
Longe de menosprezar o legado de Romanos e Gálatas, a proposta é ampliar nossa visão. Trata-se de ler toda a Escritura – e Efésios tem um lugar de destaque nisso – com os olhos abertos para a grandiosidade do plano de Deus, que é muito maior do que a nossa salvação individual.
Isso nos leva a uma pergunta decisiva, especialmente para nós, herdeiros da Reforma: com qual evangelho estamos satisfeitos?
Um que se resume a um seguro para o céu, centrado em “garantir meu lugar na eternidade”? Ou o evangelho cósmico e comunitário que ressoa em Efésios – que anuncia a reconciliação com Deus exatamente para forjar um povo unido, uma demonstração antecipada da reconciliação de todas as coisas sob o senhorio de Cristo?
A resposta a essa pergunta não vai apenas ajustar um ponto doutrinário. Ela redefine radicalmente nossa identidade, nossa comunidade e nossa missão no mundo.
📚 Ouça a voz de Paulo como se fosse hoje!

Em Paulo para Todos: Cartas da Prisão, N. T. Wright traz à vida as palavras escritas por um apóstolo acorrentado, mas livre no espírito. De sua cela, Paulo escreve com fogo no coração e esperança inabalável – e Wright traduz esse fervor em uma linguagem viva, acessível e profundamente inspiradora.
💡 Este não é apenas um comentário bíblico. É uma viagem pelas cartas de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom, guiada por um dos maiores estudiosos do Novo Testamento da atualidade. Wright combina erudição e clareza como poucos, tornando a teologia de Paulo compreensível, prática e transformadora.
“Esta série de comentários de Wright é uma proeza. Toda hora eu falo para os leitores da Bíblia: ‘comecem por aqui!’” - SCOT MCKNIGHT
🔥 Descubra como viver a fé com a mesma paixão que Paulo escreveu suas cartas – mesmo em tempos difíceis.









Deixe um comentário