Uma análise crítica
Halloween e dia das bruxas (31 de outubro): como ritos, imagens e consumo moldam nossos desejos e como a igreja pode oferecer contraliturgias bíblicas.
1. Por que a imaginação importa?
Antes de qualquer levantamento histórico, faça a pergunta básica: quem somos quando ninguém nos observa? A resposta comum – “o que eu penso” – é verdadeira, mas incompleta. James K. A. Smith nos lembra que somos seres treinados por hábitos, práticas e ritos. Aquilo que repetimos com o corpo, com a voz e com o olhar molda não apenas nossas ideias, mas sobretudo nossos amores – aquilo que desejamos e perseguimos. Não seria, então, mais apropriado começar perguntando: o que as festas, ritos e rotinas da nossa cultura estão ensinando nosso coração a amar?
A imaginação social é a lente através da qual interpretamos o sentido do mundo. Ela se forma por narrativas, imagens e práticas corporais. Quando repetimos certos ritos – ir a um shopping, assistir a um festival, participar de uma festa – nosso corpo aprende a querer certas coisas. É por isso que Smith fala de liturgias culturais: práticas que funcionam como pequenas “igrejas” formadoras de desejos. Se concordamos que a formação humana é litúrgica, então não podemos tratar festas públicas como neutras. Elas educam.

“Você é Aquilo que Ama“, de James K. A. Smith
Com uma escrita clara e profunda, Smith nos mostra que não somos apenas seres racionais que acreditam em ideias, mas sobretudo criaturas moldadas por aquilo que amamos e desejamos. Ler este livro é um convite a olhar para os hábitos, práticas e liturgias que moldam o coração no dia a dia, e descobrir como redirecionar esses desejos para Deus.
Para Smith, liturgia não é só culto formal numa igreja. Liturgia é qualquer prática repetida e incorporada – ritos, hábitos corporais, gestos e ritmos cotidianos – que treina o coração e orienta o que uma pessoa ama.
Somos seres desejantes cuja imaginação social e afetiva se formam
por práticas encarnadas.
2. Breve apresentação da tese de James K. A. Smith
A tese central diante dos hábitos, costumes e celebrações dos seres humanos é esta: somos o que amamos. Mais precisamente, somos moldados por liturgias – práticas encarnadas que disciplinam o desejo e imaginam mundos. As instituições culturais – escolas, shoppings, mídias, estádios – atuam como liturgias seculares, modelando hábitos e afetos. A igreja cristã, por sua vez, é chamada a ser uma contraliturgia: uma comunidade de práticas que reorienta amores em direção ao Reino de Deus. Essa visão desloca o foco da mera instrução intelectual para a prática repetida que forma o coração.
Se você deseja se aprofundar na tese de Smith, conheça a sua trilogia Liturgias Culturais.

Desejando o reino: culto, cosmovisão e formação cultural – Vol. 1
Imaginando o reino: a dinâmica do culto – Vol. 2
Aguardando o Rei: reformando a teologia pública – Vol. 3
A trilogia Liturgias Culturais, de James K. A. Smith, revela como nossos hábitos e práticas diárias moldam profundamente o que amamos e, portanto, quem nos tornamos diante de Deus.
3. Halloween: Um panorama histórico
Historicamente, o Halloween tem origens complexas e acumulativas. Entre as raízes mais antigas está o festival celta conhecido como Samhain, celebrado na transição do verão para o inverno. Para os povos celtas, esse era um tempo em que as fronteiras entre mundos ficavam tênues; havia ritos para lidar com a presença dos mortos e com o fim do ciclo agrícola. Com a cristianização da Europa, práticas e datas foram reinterpretadas: a véspera de Todos os Santos (All Hallows’ Eve) acabou se misturando com tradições populares, adquirindo novas formas ao longo dos séculos. Na modernidade, e sobretudo nos Estados Unidos, essas práticas foram transformadas, comercializadas e popularizadas na forma contemporânea do Halloween.
A prática do “trick-or-treat” (doces ou travessuras) e a forma familiar de fantasias e decorações que conhecemos hoje resultaram de uma mescla de costumes populares europeus (como pedir oferendas por almas ou praticar pequenas travessuras), adaptação urbana, e forte industrialização do consumo e da mídia nos séculos 19 e 20. Nos Estados Unidos o formato moderno tomou corpo no início do século 20 e se consolidou com a cultura e o comércio de massa.
Além disso, o Halloween se tornou um grande evento econômico nos EUA: o calendário comercial incorpora a data como uma temporada de consumo (fantasias, decoração, doces, festas), o que reforça a sua presença cultural. Organizações de pesquisa de mercado e entidades do varejo destacam o peso econômico da data, o que ajuda a explicar por que sua difusão além da América do Norte se acelera.
4. O que o Halloween forma em nós?
Tomando a lente de Smith, o Halloween não é apenas “um dia para se fantasiar”. É uma liturgia cultural com elementos ritualizados que formam desejos e imaginações. Observemos alguns núcleos formativos:
- Prática do vestir-se como outro
Fantasiar envolve performar identidades. Por algumas horas o corpo se acostuma a habitar outra persona – seja ela monstruosa, cômica ou poderosa. O gesto de encarnar outra identidade treina a flexibilidade identitária e, em muitos casos, a celebração da transgressão leve. Isso é neutro apenas em aparência; repetido, esse gesto contribui para uma imaginação em que a identidade é temporária e disponível ao consumo. - Ritmo do medo domesticado
Ao revestir a morte e o medo com festa, riso e espetáculo, a cultura enseja uma familiaridade com o grotesco. O medo é transformado em entretenimento e desarmado do seu caráter existencial profundo. Em vez de um encontro que suscita memória, arrependimento ou esperança, a morte vira imagem que se oferece para consumo. - Comunidade por espetáculo
Trick-or-treat, festas temáticas e eventos públicos criam laços sociais, sim – mas laços orientados pelo show e pelo consumo. A pertença se dá pela participação no espetáculo e no circuito de compras, não necessariamente por uma narrativa ética ou transcendente compartilhada. - Economia do desejo
A presença a cada ano de fantasias, decorações e consumo de guloseimas conecta o festejo a ciclos de mercado. A liturgia cultural do Halloween tende, portanto, a vincular festa e desejo à lógica do comprar. - Imaginário do sobrenatural sem esperança
O sobrenatural se expressa como assustador, sensacional e neutro do ponto de vista religioso. A figura do demônio, bruxas ou fantasmas é frequentemente estereotipada ou ridicularizada, privada de um enquadramento teológico que trate o mal, a morte e a esperança.
Pergunta: que tipo de desejo essas práticas cultivam a longo prazo? Um povo que celebra a morte como espetáculo terá a imaginação preparada para enfrentar, interpretar e redimir a finitude?
5. O caso brasileiro: difusão e ressonâncias locais
No Brasil a presença do Halloween é relativamente recente, mas vem crescendo nas últimas décadas por várias vias: exposição a programas de TV e cinema, presença de marcas e lojas internacionais, festas escolares com ênfase em inglês e cultura pop, e estratégias de marketing que incorporam a data ao calendário de vendas. Em muitos lugares do país a data aparece como “Dia das Bruxas” e convive com celebrações locais e com outras memórias culturais, como o Dia de Finados e manifestações folclóricas regionais. Esse processo de importação cultural nem sempre é neutro: o Halloween chega embalado pela mídia e pelo comércio, e assim atua como vetor de formação imagética e afetiva entre crianças e adolescentes brasileiros.
Aqui também vale perguntar: que práticas e ritos locais perdem espaço na rotina cultural quando datas importadas ganham centralidade? E quais formas cristãs de lembrar a finitude e a esperança são obscurecidas quando a memória popular é capturada por uma liturgia de espetáculo?
6. Leitura teológica: morte, memória e ressurreição
A fé cristã tem uma memória muito específica sobre a morte e o além. Não negamos a seriedade do medo nem o reconhecimento do mal; antes, situamos a finitude humana dentro da narrativa da criação, queda, redenção e consumação. Quando Cristo vence a morte na ressurreição, a prática cristã não reduz a morte a espetáculo: ela honra, lamenta e, ao mesmo tempo, anuncia esperança.
Alguns textos são relevantes para essa perspectiva formativa:
- Romanos 12.1-2: transformação que vai além da mera informação e exige renovação do modo de viver. A formação cristã, portanto, refaz hábitos.
- 1 Coríntios 15.54-55: a vitória sobre a morte é proclamada, deslocando o sentido último da finitude.
- Salmos que lembram a fragilidade da vida (por exemplo Salmo 90) nos ajudam a situar a celebração da vida diante da morte como um exercício humilde, não como entretenimento.
Assim, a contraliturgia cristã diante de uma liturgia cultural que domestica a morte não é somente repressiva. Não basta dizer “isso é proibido”. Trata-se de oferecer práticas alternativas que reeduquem desejos.
7. Práticas e contraliturgias concretas
Se a formação é litúrgica, a resposta cristã precisa ser litúrgica também. Algumas sugestões práticas, pensadas para igrejas, famílias e escolas:
- Reavivar memórias cristãs no mesmo ciclo
No dia 31 de outubro muitos cristãos lembram também a Reforma Protestante. Muitos municípios brasileiros, inclusive, decretaram feriado nesse dia. Por que não usar a data para recordar a fidelidade da Palavra, a centralidade da graça e a responsabilidade ética do cristão? Uma liturgia que combine história, oração e música forma amores diferentes. - Cultos que eduquem o desejo
Em vez de apenas combater festas, preparar um culto breve que aborde a morte e a ressurreição de modo acessível para crianças e jovens. Leitura bíblica, perguntas para a família e uma pequena liturgia podem reorientar afetos. - Acolhimento comunitário alternativo
Abrir a igreja ou a casa para atividades comunitárias – doces simples compartilhados, contação de histórias que salvem a fantasia sem naturalizar o medo, obras de caridade que envolvam vizinhança – cria um sentido de pertencimento não calcado no consumo. - Educação crítica nas escolas dominicais
Ensinar as crianças a lerem imagens e narrativas: o que as fantasias dizem sobre poder, medo e desejo? Essa alfabetização imagética as torna menos vulneráveis à formação acrítica por imagens. - Jeitos criativos de rememorar a vida
Promover noites de histórias sobre santos, mártires e pessoas transformadas pela fé; ou aulas públicas que mostrem como a esperança cristã dá forma ao luto e à alegria.
8. Indicações breves para líderes e pais
- Não trate o Halloween apenas como problema moral; trate-o como problema formativo.
- Substitua a única reação “proibir” por práticas concretas que ofereçam alternativas significativas.
- Pergunte sempre: que tipo de desejo essa prática prepara? Para onde ela aponta?
- Use a liturgia cristã (orações, hinos, batismo, ceia, celebrações comunitárias) como instrumentos de formação prática.
9. Conclusão: o que amamos quando celebramos?
James K. A. Smith nos coloca uma tarefa pastoral e cultural urgente: vigiar os ritos que nos formam. O Halloween, como toda liturgia cultural, nos ensina alguma coisa. Ele pode treinar uma imaginação que domestica o medo e liga alegria à compra. Ou pode ser um espaço em que os cristãos, com discernimento, ofereçam alternativas que lembram a morte com esperança, que cultivam comunidade sem reduzí-la ao mercado e que formam desejos em direção ao Reino.
Por fim, deixo duas perguntas para você, leitor e leitora: que práticas regulares estão moldando o seu coração e o coração dos seus filhos? E concretamente: que pequeno gesto esta semana pode começar a reorientar seus desejos para o que Deus chama de bom?
Romanos 12.1-2 nos lembra que a transformação é um reformatar de vida, não apenas de ideias. Se quisermos formar um povo que ama o que Deus ama, precisamos oferecer liturgias que façam isso.
Conheça a trilogia Liturgias Culturais










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