Uma reflexão sobre os limites da bondade humana e a oferta única do Evangelho, respondendo à pergunta que desafia muitos hoje
Um brasileiro no Japão entrega uma revista em quadrinhos da Bíblia a seu colega, o Sr. Omori. Dias depois, em um almoço, o homem japonês devolve o material com uma pergunta que silenciou seu interlocutor: “Eu não preciso ler um livro para saber que roubar é errado. Minha honestidade vem de dentro. Se eu já vivo assim, por que precisaria do seu Deus?”. Essa não é apenas uma curiosidade cultural; é talvez a objeção mais sincera e poderosa ao cristianismo no mundo moderno. Ela surge não de uma vida desregrada, mas de uma vida ética e digna. Se a religião serve para tornar as pessoas boas, o que ela oferece a quem já é bom?
A Bondade que Não Basta
A objeção pressupõe que o cristianismo é, antes de tudo, um sistema moral. Seu objetivo final, nessa visão, seria produzir pessoas que não roubam, não matam e são honestas. E, de fato, muitas apresentações da fé reduzem-na a isso. No entanto, esse entendimento ignora o diagnóstico radical das Escrituras. O problema não é apenas nossas ações más, mas nossa condição fundamental. O profeta Jeremias afirma: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9).
A bondade humana, por mais admirável que seja, é frequentemente relativa e frágil. Ela se baseia em comparações sociais (“sou melhor do que a média”) e é sustentada por uma cultura que a valoriza. A pergunta que o padrão absoluto de Deus nos coloca não é “Você é uma boa pessoa?”, mas “Você é santo como Eu sou santo?”. Quando medidos por essa régua, todos, inclusive o mais ético dos cidadãos, se encontram em falta. A bondade própria, então, pode se tornar o último e mais refinado ídolo, nos impedindo de enxergar nossa necessidade de algo que está além de nossa própria capacidade. Se a bondade relativa fosse suficiente, por que a humanidade, mesmo em suas sociedades mais avançadas, continua lutando contra um vazio que a mera ética não pode preencher?
O Diagnóstico que Vai Mais Fundo
A conversa com o Sr. Omori ilustra um mal-entendido comum: achar que o Evangelho é uma lista de regras. Na verdade, ele é primeiro um anúncio sobre um evento – o que Deus fez por nós em Cristo. A lei moral, incluindo a consciência inata do bem e do mal (Romanos 2.14-15), serve como um espelho que nos mostra nossas imperfeições. Ela é como um termômetro que indica a febre, mas não a cura. A cura é o que Cristo oferece.
Inspirado na perspectiva de Lutero, podemos usar a metáfora médica. Um médico não pergunta se você está “suficientemente saudável”; ele diagnostica a doença. O cristianismo não é um clube para os saudáveis, mas um hospital para os doentes. Jesus deixou isso claro ao dizer: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores” (Marcos 2.17). A pessoa “boa” pode ser comparada a um paciente com uma doença grave que se orgulha de sua pressão arterial estável. É uma qualidade real, mas não trata o mal subjacente. A questão, portanto, não é “Sou bom o suficiente?”, mas “Estou vivo para Deus?”. Será que nossa bondade autossuficiente não seria, na verdade, um sintoma do que Agostinho chamou de “o eu curvado sobre si mesmo”, onde Deus não é o centro, mas o próprio “eu” virtuoso?
A Oferta que a Moral Não Pode Fazer
O que o Evangelho oferece que uma vida ética e autônoma não pode? Ele oferece o que nenhum código de conduta, por mais nobre que seja, é capaz de conceder: perdão real para as culpas passadas e poder transformador para o futuro. A sociedade japonesa, como o Sr. Omori descreveu, é funcional e cooperativa. Mas ela pode oferecer o perdão a um indivíduo que falhou gravemente? Pode limpar uma consciência culpada? A mera ética pode vencer a morte?
A mensagem central do cristianismo é a graça. Não se trata de Deus nos recompensar por nossa bondade, mas de nos dar justamente o que não merecemos: o seu favor. Paulo escreve: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5.8). A justiça que nos salva não é a nossa, mas a de Cristo, recebida pela fé (Filipenses 3.9). É uma troca: nossa condição falha pela perfeição dEle. Isso não é arrogância, mas humildade profunda, pois exige que todos, do religioso ao ateu ético, reconheçam sua necessidade igualitária. O orgulho final não é o do pecador declarado, mas o da pessoa boa que acha que não precisa de graça. Você estaria disposto a trocar a sua boa e digna autonomia por uma filiação eterna?
Aplicação Prática
Estamos, portanto, diante de um desafio. Como evangelizar “pessoas boas”?
- Reformule o Convite: Ao compartilhar a fé, pare de convidar as pessoas para “serem boas”. Convide-as para conhecerem a Jesus, que oferece vida em abundância, perdão e um relacionamento com o Pai.
- Cultive a Humildade: Examine seu próprio coração. Sua identidade cristã está mais fundamentada em sua própria moralidade do que na graça de Cristo? Lembre-se de que você também é um necessitado da graça todos os dias.
- Valide a Bondade, mas Aponte para Além: Reconheça e celebre a bondade e a beleza presentes na cultura e nas pessoas ao seu redor. Use isso como uma ponte para conversar sobre a fonte última de todo bem e a resposta para a nossa necessidade mais profunda.
A pergunta “Por que ser cristão se já sou bom?” não é um ponto final, mas um convite para um mergulho mais profundo. Ela nos força a ir além de uma fé superficial e a redescobrir a riqueza e a radicalidade do Evangelho. Deus não está interessado apenas em reformar nosso comportamento; Ele deseja ressuscitar nosso coração. A oferta de Cristo não é para complementar a sua bondade, mas para redimir a sua humanidade por inteiro, curando a doença que a ética sozinha não pode diagnosticar. Que você possa considerar essa verdade não como uma ameaça, mas como a mais libertadora de todas as notícias.
* A inspiração para o artigo acima veio após assistirmos um vídeo que se propõe a “Uma Análise Cultural de porque o cristianismo não faz sentido no Japão!”. Você pode assistir o vídeo e tirar também as próprias conclusões.
O que o Evangelho ‘não é’
✝️ O Evangelho não veio para aperfeiçoar sua bondade – mas para redimir sua humanidade.
Em Ética, Dietrich Bonhoeffer – o teólogo-mártir executado pelos nazistas em 1945 — nos conduz a uma das reflexões mais profundas já escritas sobre o sentido da vida cristã.

Contra a superficialidade de uma fé que busca apenas “complementar” o bem que já fazemos, Bonhoeffer revela que a graça de Cristo não é um acessório moral, mas uma força redentora que cura a doença que a ética humana sequer pode diagnosticar. Ele fala da “graça preciosa” – o chamado radical de Jesus que transforma tudo: profissão, vocação, relacionamentos e decisões.
📖 Ética não é um livro apenas sobre certo e errado – é um convite à vida nova em Cristo, onde o discipulado se torna o centro de toda moral e toda esperança.
🔥 A graça barata acomoda. A graça preciosa transforma.









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