Você estuda a Bíblia ou encontra Deus nela? Descubra como transformar sua leitura bíblica de análise acadêmica em diálogo vivo com o Deus que fala. A diferença entre conhecer sobre Deus e conhecer a Deus.
O Perigo de Tratar Deus como Objeto de Estudo
Há um perigo sutil que espreita estudantes de teologia, pastores e até cristãos dedicados que amam estudar as Escrituras: o risco de transformar a Bíblia em mero objeto de análise acadêmica. Você já percebeu como é possível dominar as técnicas exegéticas, memorizar estruturas literárias, debater nuances do grego e do hebraico – e ainda assim perder o próprio Deus no processo? Helmut Thielicke, teólogo alemão que dedicou sua vida a formar pastores, fez uma observação devastadora: a primeira vez que alguém falou de Deus em terceira pessoa – não mais com Deus, mas sobre Deus – foi precisamente no momento em que a serpente perguntou: “Foi isso mesmo que Deus disse?” (Gênesis 3:1).
Pense nisso. O primeiro passo para a queda foi transformar a voz pessoal de Deus (“não comerás”) em objeto de debate teológico (“será que Ele realmente disse isso?”). Eva parou de conversar com Deus e começou a falar sobre Ele com a serpente. A mudança foi sutil – da segunda pessoa para a terceira, do diálogo para a análise – mas as consequências foram catastróficas. Thielicke adverte que essa transição continua acontecendo hoje, toda vez que deixamos de ler as Escrituras como palavra dirigida a nós e passamos a tratá-las como material exegético a ser dissecado.
A Distinção que Muda Tudo: Eu-Tu versus Eu-Isso
Para entender o que está em jogo aqui, precisamos da ajuda do filósofo judeu Martin Buber e sua obra seminal Eu e Tu (1923)1. Buber propôs que temos dois modos fundamentais de nos relacionar com o mundo: a relação Eu-Tu (Ich-Du) e a relação Eu-Isso (Ich-Es). Essas não são apenas duas formas diferentes de comunicação – são dois modos completamente distintos de existir no mundo.
Na relação Eu-Isso, o “outro” se torna objeto. É a atitude de experiência, de uso, de utilidade. Você se relaciona com coisas, não com pessoas. Quando você pega um martelo para pregar um prego, essa é uma relação Eu-Isso – perfeitamente apropriada para martelos. O problema surge quando tratamos pessoas (ou Deus) dessa maneira. Na relação Eu-Tu, o outro é reconhecido como sujeito pleno, único, presente. Há reciprocidade, diálogo genuíno, encontro. Você não usa a pessoa – você a encontra.
Imagine que o carteiro passa todos os dias em sua casa. Se você nunca abre a porta, nunca o cumprimenta, apenas espera que ele deixe as cartas e vá embora – essa é uma relação Eu-Isso. O carteiro é uma função, não uma pessoa. Mas se você o chama pelo nome, oferece um café, conversa alguns minutos – você experimenta um momento Eu-Tu. De repente, o carteiro deixa de ser um objeto em seu mundo e se torna um sujeito com quem você se relaciona.
Agora aplique isso à leitura bíblica. Você pode estudar a Bíblia como quem estuda um texto antigo – analisando estruturas, identificando figuras de linguagem, mapeando contextos históricos. Tudo isso é importante. Mas se sua leitura para por aí, você está tratando a Palavra de Deus como um Isso: um objeto de estudo, uma fonte de informação, um texto a ser dominado. A leitura bíblica responsiva, por outro lado, é a que reconhece que através das Escrituras, Deus se dirige a você – não como objeto de conhecimento, mas como Tu que fala e espera resposta.
A Palavra que Age: Mais que Informação, Convocação
Desde o início da revelação bíblica, a Palavra de Deus nunca foi apenas informação – foi sempre ação. Em Gênesis, Deus fala e o mundo vem à existência: “Haja luz” – e houve luz (Gn 1:3). Nos profetas, a Palavra realiza aquilo para o qual é enviada (Is 55:11). No Novo Testamento, o Verbo se faz carne e habita entre nós (Jo 1:14). A Palavra de Deus é performativa – ela cria, transforma, convoca e envia.
Kevin Vanhoozer, teólogo sistemático contemporâneo, desenvolveu essa ideia de forma brilhante em seu livro O Drama da Doutrina (O Drama da Doutrina)2. Para Vanhoozer, a Bíblia deve ser lida como um drama teodramático – um drama de Deus (theo-drama) no qual Deus é simultaneamente o autor, o diretor e o ator principal, e nós somos chamados a participar como atores fiéis. A leitura bíblica, portanto, não é um ato de crítica literária onde você fica do lado de fora analisando a peça. É um convite para entrar no palco, assumir seu papel e agir segundo a direção do Autor divino.
Pense na diferença. Um crítico de teatro pode conhecer profundamente uma peça de Shakespeare – memorizar falas, analisar temas, discutir estrutura dramática – sem nunca subir ao palco. Mas o ator não pode fazer isso. O ator precisa encarnar o roteiro. Precisa entender não apenas o que as palavras significam, mas como vivê-las diante da plateia. Para Vanhoozer, a interpretação fiel das Escrituras culmina na resposta obediente – a Palavra só é verdadeiramente compreendida quando reconhecida como dirigida a mim e respondida com vida transformada.
O Testemunho de Jesus: Falando Com Deus, Não Sobre Deus
Thielicke nos lembra de um contraste devastador: quando Jesus estava na cruz, no momento mais escuro do abandono divino, Ele não falou aos homens, não reclamou sobre Deus para quem estava por perto. Mesmo ali, Ele falou com Deus – em segunda pessoa: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27:46). Até na agonia do Calvário, Jesus manteve o diálogo. Até ali, a relação permaneceu Eu-Tu.
Esse exemplo nos confronta. Se o Filho de Deus encarnado, em Seu momento de maior sofrimento, preservou o diálogo direto com o Pai, quanto mais nós deveríamos cultivar essa postura em nossa leitura das Escrituras? Thielicke afirma que “um pensamento teológico só pode respirar na atmosfera de diálogo com Deus”. Fora dessa atmosfera, a teologia se torna árida. Fora do diálogo, a leitura bíblica se torna estéril.
Isso não significa abandonar o estudo sério das Escrituras. Significa que todo estudo deve acontecer dentro de uma postura de oração, de escuta, de prontidão para obedecer. Lembremo-nos de que Anselmo, o grande teólogo medieval, começou sua demonstração da existência de Deus com oração – o que Thielicke chama de “dogmática orante”. Não era apenas um prelúdio piedoso. Era o reconhecimento teológico de que só podemos pensar corretamente sobre Deus quando pensamos com Deus.
A Resposta que a Palavra Exige: Fé, Obediência e Comunhão
A leitura bíblica responsiva é, portanto, um encontro dialógico. O leitor escuta a voz de Deus e responde. Mas com que responde? A resposta é múltipla e integral:
Fé, porque o leitor confia na voz que fala. Não é fé no texto como artefato histórico, mas fé no Deus que fala através do texto. É a diferença entre dizer “acredito que a Bíblia foi escrita no primeiro século” e dizer “creio que Deus está me falando agora através dessas palavras antigas”.
Obediência, porque o leitor reconhece a autoridade da Palavra. Uma leitura bíblica que termina apenas em compreensão intelectual é incompleta. A compreensão verdadeira se manifesta em mudança de vida. Como Tiago escreveu: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes” (Tg 1:22). A Palavra não é espelho para contemplarmos – é comando para obedecermos.
Comunhão, porque a leitura nos insere na relação viva com Deus. Este é o coração da questão. A Bíblia não existe para nos dar informações sobre Deus, mas para nos colocar em comunhão com Deus. É o meio pelo qual o Deus vivo continua falando ao Seu povo. Cada encontro com as Escrituras é potencialmente um encontro com o próprio Senhor que se revela.
Implicações Práticas: Como Cultivar Leitura Responsiva
Tudo isso soa bonito em teoria. Mas como praticamos leitura bíblica responsiva no dia a dia? Aqui estão algumas sugestões concretas:
1. Comece com oração, não com método. Antes de abrir seu software bíblico ou comentário, fale com Deus. Peça que Ele fale através do texto. Reconheça sua dependência do Espírito Santo para iluminação. Isso não substitui estudo rigoroso – mas garante que o estudo aconteça dentro do diálogo.
2. Leia como quem espera ser interpelado. Pergunte não apenas “o que este texto significava para os primeiros leitores?” mas também “o que Deus está me dizendo hoje através dele?”. Não ignore o contexto histórico – mas não pare por aí. Como adverte Thielicke, “uma pessoa que estuda teologia está espiritualmente doente a menos que leia a Bíblia com frequência extraordinária” – não apenas como objeto de estudo acadêmico, mas como palavra pessoal de Deus.
3. Responda com decisões concretas. No final de cada leitura, pergunte: “O que vou fazer diferente hoje por causa do que ouvi?”. Pode ser confessar um pecado, reconciliar um relacionamento, mudar uma prioridade, obedecer um comando específico. A leitura responsiva sempre gera resposta tangível.
4. Leia em comunidade, não apenas individualmente. A leitura bíblica responsiva não é apenas pessoal – é comunitária. Quando lemos as Escrituras juntos, ouvimos como Deus está falando aos outros. Nos corrigimos mutuamente. Nos encorajamos. Vanhoozer enfatiza que somos atores no mesmo drama – precisamos ensaiar juntos, não apenas em nossas casas.
5. Cultive sensibilidade à voz do Espírito. Nem toda impressão é palavra de Deus, mas Deus realmente fala através das Escrituras pelo Espírito. Aprenda a discernir Sua voz. Como Jesus disse: “Minhas ovelhas ouvem minha voz” (Jo 10:27). Isso requer prática, tempo e discernimento comunitário.
O Convite que Permanece
Ler a Bíblia de forma responsiva é reconhecer que a Palavra de Deus não é apenas um texto antigo, mas a voz viva que chama o leitor ao diálogo e à obediência. Cada encontro com as Escrituras é uma convocação divina, um convite para sair da indiferença e entrar no relacionamento Eu-Tu, em que Deus se revela e transforma o ser humano. Nesse encontro, você deixa de ser mero espectador e passa a ser participante da história de Deus, respondendo com fé, arrependimento e amor.
O que está em jogo não é apenas uma técnica melhor de leitura bíblica. É a própria natureza do nosso relacionamento com Deus. Você pode conhecer muito sobre Deus sem conhecer a Deus. Pode dominar a teologia sem ter comunhão. Pode até pregar sermões tecnicamente impecáveis enquanto seu coração permanece frio. Mas quando você aprende a ler a Bíblia como encontro – quando você se aproxima das Escrituras esperando que o Deus vivo fale, e você responde com todo o seu ser – algo muda. A Palavra deixa de ser objeto de estudo e se torna o espaço sagrado onde você encontra aquele que te ama, te chama e te transforma.
A pergunta que fica é simples mas penetrante: Na próxima vez que você abrir sua Bíblia, você vai estudá-la ou encontrá-la? Você vai falar sobre Deus ou com Deus? A escolha é sua. Mas saiba que Deus prefere o diálogo. Ele sempre preferiu. Desde o Éden, Ele caminha no jardim chamando: “Onde você está?”. A leitura bíblica responsiva é simplesmente aprender a responder: “Aqui estou, Senhor. Fala, porque o teu servo escuta” (1 Sm 3:10).
Para Aprofundar
Para quem deseja explorar mais profundamente essa visão de leitura bíblica como encontro dialógico, recomendo três obras fundamentais:
Martin Buber, Eu e Tu (Tradução de Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo: Centauro, 2001): Obra seminal publicada originalmente em 1923, que estabelece a base filosófica e espiritual para compreender o encontro que transforma, revelando como a relação Eu-Tu abre espaço para a presença do divino.
Kevin J. Vanhoozer, O Drama da Doutrina (Edições Vida Nova, 2016): Obra premiada que redefine a interpretação bíblica em termos teodramáticos, convidando o leitor a participar ativamente do drama da redenção. Eleito melhor livro de teologia de 2006 pela Christianity Today.
Helmut Thielicke, Recomendações aos Jovens Teólogos e Pastores (Edições Vida Nova, 2014): Clássico que alcançou status de leitura essencial desde sua primeira publicação, oferecendo conselhos sábios sobre as dificuldades – e a importância vital – de manter a saúde espiritual no curso do estudo teológico acadêmico.
Notas
- Martin Buber (1878-1965), filósofo e teólogo judeu, publicou Ich und Du (Eu e Tu) em 1923. A obra tornou-se referência fundamental na filosofia do diálogo e influenciou profundamente a teologia, psicologia, pedagogia e sociologia do século XX. ↩
- Kevin J. Vanhoozer desenvolveu sua hermenêutica teodramática parcialmente inspirado pela obra monumental de Hans Urs von Balthasar, Theo-Drama (cinco volumes), mas com abordagem distinta e aplicação específica à doutrina cristã. Vanhoozer é Research Professor of Systematic Theology na Trinity Evangelical Divinity School. ↩
📖 Entenda a Bíblia com profundidade, simplicidade e fé.

Em Hermenêutica Pura e Simples (Edições Vida Nova, 2025), Kevin J. Vanhoozer faz pela leitura bíblica o que C. S. Lewis fez pela fé cristã: ele nos leva de volta ao essencial.
Num tempo de confusão interpretativa e divisões teológicas, Vanhoozer propõe uma hermenêutica cristã que une cabeça e coração, mostrando que ler as Escrituras é um ato de comunhão com Deus e com o povo de Deus. Ele ensina que interpretar a Bíblia não é buscar teorias — é participar da história de Deus com o mundo, com Cristo como centro e a Igreja como comunidade leitora.
🌿 Mais que um método, é um modo de vida moldado pela Palavra.









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