31 de outubro: entre o que herdamos e o que compramos

O Halloween, celebrado em 31 de outubro, deixou de ser apenas uma curiosidade importada: virou evento comercial e de entretenimento com presença crescente em escolas, comércios e redes sociais no Brasil. Apesar de suas camadas históricas – das festas sazonais na Europa à véspera de Todos os Santos – a forma contemporânea que se espalha hoje tem menos a ver com tradição local do que com cultura pop e calendário de consumo. O que começa como fantasia e riso rapidamente assume caráter de ritual coletivo: lojas montam vitrines, festas escolares replicam imagens prontas e crianças aprendem a associar a data a brincadeiras e compras. Diante disso, a pergunta que cabe é simples e prática: o que estamos incorporando quando adotamos essa versão do 31 de outubro?

Em nossa região, onde a colonização alemã deixou marcas profundas, a questão ganha contornos particulares. A serra gaúcha tem memória histórica ligada ao luteranismo e ao Dia da Reforma – uma lembrança religiosa e identitária que convive com o Dia de Finados e outras celebrações locais de memória. A chegada em massa de uma celebração centrada no espetáculo, no medo domesticado e no consumo desloca ritmos culturais já estabelecidos e pode, sem ruído, ressignificar o modo como jovens e crianças entendem a morte, a pertença e a festa. Quando escolas promovem festas com foco em fantasia, e comércios empurram mercadorias temáticas, perde-se uma oportunidade de interlocução crítica com essas memórias locais.

Escrevo a partir de uma perspectiva cristã, mas não em tom moralista; a preocupação é formativa. Práticas repetidas modelam gostos e afetos: transformar o medo em espetáculo tende a dessensibilizar a experiência da finitude e a vincular pertencimento ao circuito do consumo. Em vez de apenas proibir, é mais produtivo oferecer alternativas que preservem sentido e acolhimento – um encontro comunitário que recorde a Reforma com ensino acessível, uma oficina para crianças sobre símbolos e histórias, uma festa de vizinhança centrada na partilha em vez da compra, ou um culto breve que una memória e esperança. Esses gestos simples educam tanto quanto a proibição, e ainda fortalecem laços comunitários sem recorrer à lógica mercantil.

A escolha de calendários públicos é uma escolha de memória e de formação. Igrejas, escolas e famílias têm aqui uma oportunidade concreta: responder com clareza, hospitalidade e criatividade. Que tal, neste ano, abrir a igreja ou a casa para uma noite de histórias que fale de esperança, convidar vizinhos para um lanche compartilhado ou propor uma atividade escolar que ajude crianças a pensar criticamente sobre imagens e rituais? Pequenos gestos como esse preservam o sentido das nossas memórias e provam que podemos acolher o novo sem abandonar nossas raízes.


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Desejando o reino: culto, cosmovisão e formação cultural – Vol. 1

Imaginando o reino: a dinâmica do culto – Vol. 2

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A trilogia Liturgias Culturais, de James K. A. Smith, revela como nossos hábitos e práticas diárias moldam profundamente o que amamos e, portanto, quem nos tornamos diante de Deus.


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