15 de Novembro e a Herança Positivista: Como uma Ideologia Moldou (e Ainda Molda) o Brasil

Uma reflexão cristã sobre a Proclamação da República e o legado do positivismo brasileiro


Há 136 anos, em 15 de novembro de 1889, o Brasil acordou diferente. A monarquia havia caído durante a noite, derrubada por um golpe militar. Dom Pedro II, o velho imperador que governara por quase meio século, foi embarcado à força para o exílio. Uma república nascera – mas não porque o povo a exigiu. Na verdade, como registrou o jornalista republicano Aristides Lobo em crônica publicada dias depois no Diário Popular, “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”1.

Aquela frase se tornou emblemática de algo muito maior que um simples golpe de Estado. Ela revelava a mentalidade de uma elite que acreditava saber, melhor que as massas “ignorantes”, o que era bom para a nação. Eram homens “iluminados pela razão”, engenheiros e militares treinados na lógica científica, convencidos de que o Brasil precisava ser reorganizado segundo princípios racionais modernos. E a primeira coisa que fizeram foi estampar na nova bandeira nacional um lema que resume toda uma filosofia: Ordem e Progresso.

Poucos brasileiros param para pensar no significado dessas palavras que carregamos no peito desde criança. Menos ainda percebem que se trata de uma declaração ideológica completa – a versão abreviada do lema positivista de Auguste Comte: “O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”2. O positivismo não foi apenas uma corrente filosófica importada da Europa. Foi a ideologia fundante da República brasileira, moldando nossas instituições, nossa educação, nossa burocracia estatal, e deixando marcas profundas que sentimos até hoje.

Este artigo propõe uma jornada histórica e teológica. Queremos entender o que foi o positivismo, como ele chegou ao Brasil, como moldou nossa república e – mais importante – por que cristãos precisam discernir criticamente essa herança. Não se trata de rejeitar todo progresso ou demonizar a ciência, mas de identificar quando ferramentas boas se transformam em ídolos perigosos. Como sempre, a cosmovisão cristã nos oferece um caminho melhor: nem a ingenuidade de abraçar toda novidade, nem o cinismo de rejeitar todo avanço, mas o discernimento de honrar a criação de Deus sem divinizá-la.


As Raízes do Positivismo: Uma Religião Secular

Auguste Comte e a Fé na Ciência

Para compreender o que aconteceu no Brasil em 1889, precisamos voltar à França do início do século XIX. Lá, um filósofo chamado Auguste Comte (1798-1857) elaborou uma das tentativas mais ambiciosas de reorganizar a sociedade sobre bases exclusivamente científicas. Comte viveu no turbilhão das consequências da Revolução Francesa – um tempo em que antigas certezas haviam desmoronado e a Europa buscava desesperadamente novos fundamentos para a ordem social.

A proposta de Comte era ao mesmo tempo simples e revolucionária: a humanidade havia passado por três estágios evolutivos de compreensão da realidade. No estágio teológico, tudo era explicado por deuses e forças sobrenaturais – a infância da humanidade, segundo ele. No estágio metafísico, filósofos substituíram deuses por conceitos abstratos como “essência” e “substância” – uma adolescência confusa. Finalmente, no estágio positivo, a ciência experimental traria respostas definitivas baseadas em observação, medição e teste – a maturidade da espécie humana3.

O que tornava Comte verdadeiramente peculiar era sua convicção de que essa ciência positiva deveria substituir não apenas a metafísica, mas a própria religião. Ele chegou a fundar a Igreja Positivista, com rituais, calendário próprio (substituindo santos católicos por “santos” da ciência como Aristóteles, Descartes e Newton), e até uma catedral no Rio de Janeiro – ainda existente, a Igreja Positivista do Brasil, no bairro da Glória4. Comte pretendia que a adoração a Deus fosse substituída pelo culto à Humanidade (grafada com H maiúsculo, quase como divindade).

À primeira vista, parece loucura. Mas havia uma lógica interna sedutora: se a ciência havia desvendado as leis da física e da química, por que não poderia descobrir as “leis” que governam a sociedade? Se engenheiros construíam pontes e máquinas usando matemática, por que sociólogos – termo que o próprio Comte cunhou – não poderiam “construir” sociedades perfeitas usando os mesmos métodos científicos?

A Tentação Perene: Salvação pela Técnica

David Koyzis, em sua obra clássica Visões e Ilusões Políticas, nos ensina a reconhecer o padrão das ideologias modernas. Todas elas funcionam como religiões políticas secularizadas: pegam categorias espirituais profundas – queda, redenção, esperança, salvação – e as transferem para realidades temporais5. Cada ideologia conta uma história com estrutura quase bíblica:

  1. Paraíso perdido – Como as coisas eram boas antes da corrupção.
  2. A Queda – O que deu errado, quem ou o que é o vilão.
  3. Redenção – Como voltaremos ao paraíso, quem nos salvará.

No positivismo, essa narrativa se desenrola assim:

  • Paraíso perdido: A ordem natural da criação, onde tudo funcionava segundo leis científicas harmoniosas e previsíveis.
  • A Queda: A ignorância humana, a superstição religiosa, a metafísica especulativa que atrapalharam o progresso natural.
  • Redenção: A ciência positiva, administrada por especialistas iluminados, reorganizará racionalmente a sociedade, eliminando conflitos e trazendo prosperidade universal.

Perceba a sutileza da armadilha: a ciência, que é ferramenta legítima e valiosa para explorar a criação de Deus, é elevada à categoria de salvadora. O progresso técnico, que deveria ser meio para servir ao próximo, torna-se fim em si mesmo. E os especialistas, que deveriam usar expertise para bem comum, transformam-se em sacerdotes de uma nova ordem que não tolera questionamento.

Quando categorias religiosas são transferidas para realidades temporais, criamos ídolos. E ídolos sempre decepcionam – mas antes de desmoronar, destroem muita coisa ao seu redor.


O Positivismo Desembarca no Brasil

Militares, Engenheiros e Sonhos Republicanos

O positivismo chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX, trazido principalmente por jovens brasileiros que estudavam na França e por professores franceses contratados para lecionar nas escolas militares e de engenharia. A Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, tornou-se o principal centro de disseminação das ideias comteanas entre a oficialidade do Exército6.

Entre esses jovens oficiais, um nome se destaca: Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891). Militar, engenheiro, professor de matemática e ciências, Constant encarnou perfeitamente o ideal positivista: o homem racional que aplica método científico não apenas à natureza, mas à organização social. Profundamente influenciado por Comte, ele liderou o movimento republicano dentro das Forças Armadas e foi figura central no golpe que derrubou a monarquia7.

Para esses republicanos positivistas, a monarquia representava o passado teológico-metafísico que precisava ser superado. O Brasil, argumentavam, era jovem, era o “Novo Mundo”, e merecia instituições modernas, racionais, científicas. Uma monarquia herdada dos colonizadores portugueses – por mais que Dom Pedro II fosse pessoalmente respeitado – não combinava com os novos tempos. Era dever de homens iluminados pela razão conduzir a nação para a fase positiva da história.

15 de Novembro: Um Golpe Sem Povo

Quando o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República na manhã de 15 de novembro, não houve manifestações populares exigindo mudança. Não houve plebiscito ou consulta às províncias. O povo do Rio de Janeiro, acordando naquela sexta-feira, deparou-se com tropas nas ruas e boatos confusos sobre a queda do imperador. A maioria não entendia exatamente o que estava acontecendo – daí a famosa observação de Aristides Lobo sobre o povo “bestializado”.

Isso não foi acidente nem falha de planejamento. Era coerente com a lógica positivista. Se as massas são ignorantes, presas ao estágio teológico, como poderiam compreender a necessidade de reorganização científica da sociedade? Cabia aos iluminados decidir pelo bem de todos. A república seria imposta de cima para baixo, não construída de baixo para cima.

O historiador José Murilo de Carvalho documentou extensamente a “apatia” popular diante da Proclamação8. Monarquistas fervorosos houve poucos – o regime estava mesmo desgastado. Mas republicanos entusiasmados também eram minoria urbana. A grande maioria dos brasileiros, especialmente fora das grandes cidades, simplesmente não foi consultada sobre o tipo de governo que desejava. A República foi um projeto de elite para a elite.

E a primeira marca dessa elite? Mudar os símbolos nacionais. Uma nova bandeira foi encomendada – e nela, no lugar do antigo brasão imperial, o lema positivista: Ordem e Progresso. Raimundo Teixeira Mendes, líder da Igreja Positivista do Brasil e um dos consultores dos golpistas, elaborou extenso documento justificando a escolha dessas palavras, explicando que resumiam perfeitamente os ideais da nova nação científica que estava nascendo9.


Ordem e Progresso: O Positivismo Moldando o Brasil

Getúlio Vargas e a CLT: Planejamento Total das Relações de Trabalho

O espírito positivista não desapareceu com os primeiros republicanos. Ele permeou as décadas seguintes, moldando a forma como o Estado brasileiro se relacionaria com a sociedade. Um dos exemplos mais duradouros apareceu nos anos 1930-40, durante o governo de Getúlio Vargas.

Em 1943, Vargas promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), um código extenso e detalhista que regula minuciosamente as relações entre patrões e empregados. A inspiração direta foi a Carta del Lavoro (Carta do Trabalho) da Itália fascista de Mussolini – documento que pretendia organizar “cientificamente” toda a estrutura produtiva nacional10.

A lógica era claramente positivista: o Estado, através de especialistas em direito trabalhista, planejaria nos mínimos detalhes como trabalhadores e empregadores deveriam se relacionar. Quantas horas de trabalho, quanto tempo de descanso, como calcular férias, quando conceder licenças – tudo seria determinado centralmente, não deixado para negociação livre ou costumes locais.

Há aspectos positivos na CLT, é claro: proteções trabalhistas que impediram abusos, garantias mínimas de dignidade. Mas há também o aspecto problemático: a suposição de que burocratas em Brasília sabem melhor que trabalhadores e empregadores concretos, em contextos diversos, como organizar suas próprias relações. A desconfiança positivista na capacidade das pessoas comuns de administrar suas vidas perpassa todo o código.

Juscelino Kubitschek e Brasília: A Cidade-Máquina

Nos anos 1950, outro capítulo da saga positivista se desenrolou. Juscelino Kubitschek prometeu fazer o Brasil avançar “50 anos em 5” – slogan que resume perfeitamente a fé desenvolvimentista no progresso acelerado por planejamento estatal. E o símbolo máximo desse desenvolvimentismo foi a construção de Brasília.

É importante considerar: JK não era positivista declarado no sentido de filiar-se à Igreja de Comte. Ele era desenvolvimentista e modernista, influenciado por outras correntes. Mas a lógica subjacente era profundamente positivista: especialistas – no caso, os renomados arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer – desenhariam no papel a cidade perfeita, funcional, racional, organizada11.

Brasília foi concebida como “cidade-máquina para morar” (ecoando o famoso dito do arquiteto Le Corbusier, ele próprio influenciado pelo positivismo). Superquadras residenciais padronizadas, eixos monumentais separando rigidamente funções (trabalho, moradia, lazer), circulação planejada matematicamente. Tudo decidido de cima para baixo, imposto ao Planalto Central desabitado, transplantado artificialmente para o interior do país.

O resultado? Uma capital arquitetonicamente impressionante, mas humanamente problemática. Distâncias imensas exigem automóvel para tudo. Espaços públicos grandiosos mas vazios, que não convidam à vida comunitária espontânea. Uma cidade linda no projeto, difícil de viver no dia-a-dia – exatamente o tipo de consequência que surge quando especialistas planejam sociedades inteiras sem considerar como pessoas reais, em suas idiossincrasias e complexidades, efetivamente vivem.

Ditadura Militar: Tecnocracia e Milagre Econômico

A expressão máxima da mentalidade positivista no Brasil do século XX veio com o regime militar de 1964-1985. Os generais que governaram o país nesse período eram, muitos deles, formados pela mesma tradição positivista das escolas militares que produziu Benjamin Constant décadas antes.

O chamado “milagre econômico” dos anos 1968-1973 foi construído sobre planejamento centralizado, controle estatal de setores inteiros da economia, endividamento público massivo e fé inabalável na capacidade de tecnoburocratas de acelerar o desenvolvimento12. Impostos em cascata, regulamentações sem fim, burocracia kafkiana – tudo justificado pela necessidade de “organizar” e “modernizar” o país cientificamente.

Houve crescimento econômico, é verdade. Mas a que custo? Concentração de renda, repressão política, dívida externa que comprometeu gerações futuras, e – crucial para nossos propósitos – o aprofundamento de uma cultura política que desconfia da participação popular e confia cegamente em especialistas tecnocratas.

Educação Tecnicista: Formando Peças de Engrenagem

Paralelo a tudo isso, a partir principalmente dos anos 1960-70, o Brasil adotou massivamente o modelo de ensino tecnicista na educação. Influenciado pelo positivismo de Herbert Spencer (que mesclou ideias de Comte com darwinismo social), o sistema educacional foi reformado para “preparar mão de obra” para a industrialização13.

A escola deixou de formar pessoas integrais – com cultura ampla, filosofia, artes, pensamento crítico, capacidade de refletir sobre significado e propósito – e passou a formar “recursos humanos” para o mercado. Você, como aluno, não era pessoa única criada à imagem de Deus com vocação específica. Era peça de engrenagem que precisava se encaixar eficientemente no sistema produtivo.

Não importava quem você era. Importava o que você produzia. Não importavam suas perguntas existenciais. Importava se você dominava as competências técnicas exigidas. O modelo pedagógico espelhava perfeitamente a antropologia positivista: seres humanos como material manipulável, não como portadores de dignidade transcendente.


O Lado Mais Sombrio: Eugenia e Darwinismo Social

Quando a Ciência Justifica o Racismo

Há um capítulo particularmente sombrio dessa história que cristãos não podem ignorar. Um dos “filhos” intelectuais do positivismo foi o darwinismo social – a ideia de que a seleção natural não opera apenas entre espécies animais, mas também entre grupos humanos, “raças” e classes sociais. “Raças superiores” vencem, “raças inferiores” são naturalmente eliminadas – e isso seria não apenas fato biológico, mas moralmente neutro, parte do progresso evolutivo14.

O Brasil, infelizmente, comprou essa ideologia de forma entusiástica e sistemática. E aqui precisamos falar claramente, sem amenizações, sobre uma política de Estado que teve consequências devastadoras para milhões de brasileiros negros.

A Política de Branqueamento Populacional

Quando a escravidão foi abolida em 1888 – o Brasil sendo o último país das Américas a fazê-lo – havia milhões de africanos e afrodescendentes recém-libertos. A pergunta que se colocava para as elites era: o que fazer com essa população negra agora livre?

A resposta deveria ter sido óbvia para qualquer nação cristã: integração plena, indenização pelos séculos de trabalho forçado não remunerado, investimento em educação, distribuição de terras, apoio para que essas pessoas construíssem vidas dignas. Mas não foi isso que aconteceu.

Em vez disso, o governo brasileiro implementou deliberadamente uma política de branqueamento populacional fundamentada em teorias eugênicas “científicas”. A lógica era explícita: a grande população negra era vista como problema racial e obstáculo ao progresso da nação. A solução “científica” proposta tinha três componentes15:

Primeiro: Importar massivamente europeus brancos para “diluir” a população negra através da miscigenação. Enquanto trabalhadores negros recém-libertos não recebiam terra nem apoio, o governo subsidiava a vinda de italianos, alemães, poloneses e outros imigrantes europeus, oferecendo-lhes terras, ferramentas e incentivos financeiros.

Segundo: Promover ativamente essa miscigenação como forma de “melhoramento racial” gradual. A ideia, baseada em teorias neolamarckianas francesas, era que em algumas gerações a “raça negra” seria biologicamente absorvida e desapareceria, deixando uma população embranquecida.

Terceiro: Não fazer absolutamente nada pela população negra existente, esperando que a seleção natural simplesmente a eliminasse. Sem educação, sem terra, sem oportunidades, sem assistência médica – abandonados deliberadamente à margem da sociedade, esperando que “desaparecessem” com o tempo.

Vozes Eugênicas na Elite Brasileira

Essa não é interpretação revisionista contemporânea. Está documentado em textos da época, escritos por intelectuais, médicos e políticos brasileiros respeitados.

João Batista de Lacerda, médico e diretor do Museu Nacional, apresentou tese no Congresso Universal das Raças em Londres (1911) afirmando que em 100 anos os negros teriam desaparecido completamente da população brasileira através do branqueamento por miscigenação16.

Nina Rodrigues, médico legista baiano considerado pai da medicina legal no Brasil, defendeu abertamente a inferioridade biológica dos negros e propôs que fossem tratados diferentemente perante a lei, com códigos penais específicos por “raça”, já que supostamente não tinham capacidade mental igual à dos brancos17.

Sílvio Romero, crítico literário e intelectual influente, escreveu extensamente sobre a necessidade de branqueamento populacional e via a miscigenação como processo de “arianização” do Brasil18.

Essas não eram opiniões marginais. Eram posições mainstream entre a elite intelectual brasileira da virada do século XX. E foram traduzidas em políticas concretas de imigração subsidiada e abandono programático da população negra.

Resistência Cristã: Vozes Proféticas e Um Silêncio Incômodo

Mas houve resistência. É crucial resgatar as vozes que, fundamentadas na fé cristã, denunciaram essas atrocidades – e também reconhecer honestamente onde a resistência foi insuficiente ou ausente.

Uma Voz Profética Verificável: Joaquim Nabuco

Joaquim Nabuco (1849-1910), católico praticante e grande líder abolicionista brasileiro, é exemplo luminoso de como a fé cristã genuína se opõe ao racismo científico. Nabuco não parou na abolição de 1888 – continuou denunciando veementemente o abandono dos ex-escravos e as teorias eugênicas que ganhavam força. Em sua obra O Abolicionismo (1883), ele escreveu:

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil… Por mais que se deseje enganar-se, as consequências da escravidão, anulando a individualidade moral da metade da população brasileira, não deixarão de interromper por tempo incalculável a obra de unidade nacional”19.

Nabuco entendia que o problema era moral e social – fruto do pecado da escravidão, não de inferioridade racial biológica. Sua resistência ao darwinismo social foi constante: em correspondências e discursos, ele denunciou o que chamava de “materialismo científico que desumaniza” e defendeu a dignidade inalienável de todo ser humano como criação de Deus20.

Vozes Internacionais que Influenciaram o Brasil

Cristãos brasileiros da época também foram influenciados por vozes proféticas internacionais que denunciavam o racismo científico:

Charles Spurgeon (1834-1892), o grande pregador batista inglês, foi abolicionista fervoroso que declarou do púlpito: “Eu preferiria nunca mais pregar do que defender a escravidão… A cor da pele não tem mais a ver com direitos do homem do que a cor do cabelo”21. Seus sermões eram traduzidos e circulavam amplamente entre protestantes brasileiros.

William Wilberforce (1759-1833), parlamentar anglicano que liderou abolição da escravidão no Império Britânico, fundamentava sua campanha explicitamente na doutrina da imago Dei. Sua obra A Practical View of Christianity (1797) circulava entre protestantes educados brasileiros e argumentava que racismo era incompatível com cristianismo bíblico22.

O Protestantismo Brasileiro: Realidade Mais Complexa

Precisamos, contudo, ser honestos sobre uma realidade incômoda: a resistência protestante brasileira organizada ao racismo científico foi muito menor do que deveria ter sido.

As igrejas protestantes que se estabeleciam no Brasil do final do século XIX – presbiterianas, batistas, metodistas, congregacionais – estavam, em sua maioria, lutando pela própria sobrevivência institucional num contexto católico hostil. Seus jornais e publicações da época (O Estandarte presbiteriano, O Jornal Batista, Expositor Cristão metodista) focavam primariamente em debates teológicos com católicos, defesa da liberdade religiosa e expansão missionária23.

Há registros espalhados de congregações que integravam negros e brancos igualitariamente, de escolas dominicais que alfabetizavam ex-escravos, de pastores que denunciavam discriminação racial em sermões. O historiador Alderi Souza de Matos documenta casos específicos de igrejas presbiterianas no interior paulista que ofereciam educação gratuita para crianças negras e defendiam publicamente a igualdade em Cristo24.

Mas não houve movimento protestante organizado, sistemático e profético contra a política de branqueamento populacional ou contra as teorias eugênicas que a justificavam. Não houve equivalente protestante brasileiro à campanha abolicionista anglicana de Wilberforce, nem à denúncia persistente de Nabuco.

Lição do Silêncio

Esse silêncio relativo é, ele mesmo, dado histórico importante que deve nos humilhar. Enquanto a “ciência” justificava genocídio lento através de abandono programático, enquanto intelectuais defendiam abertamente inferioridade racial, onde estava a voz profética coletiva da igreja evangélica brasileira?

Parte da explicação é contextual: eram comunidades pequenas, marginalizadas, lutando para sobreviver. Mas isso não remove a responsabilidade. Quando injustiça sistêmica opera, silêncio é cumplicidade – mesmo que involuntária, mesmo que por fraqueza institucional.

O teólogo Dietrich Bonhoeffer, refletindo sobre o silêncio da igreja alemã diante do nazismo, escreveu: “Não apenas falar é nosso dever – não falar quando deveríamos é também ação. A ação de omissão”25. Essa palavra se aplica também ao protestantismo brasileiro diante da eugenia.

Aprendendo com Falhas Históricas

Por que desenterrar essa história dolorosa? Não para alimentar culpa anacrônica ou auto-flagelação, mas para aprender:

  1. Desconfiar de alianças com poder: Quando igrejas se preocupam demais com aceitação social ou sobrevivência institucional, a voz profética se silencia.
  2. Vigilância contra cientificismo: A mesma tentação existe hoje – usar “ciência” ou “dados” para evitar questões morais difíceis sobre dignidade humana.
  3. Priorizar os vulneráveis: Como Tiago 1.27 ordena: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.”
  4. Coragem profética custa: Nabuco pagou preço político por sua postura. Wilberforce foi ridicularizado por décadas. Spurgeon perdeu apoio de igrejas sulistas americanas. Mas eles estavam certos.

A história do positivismo brasileiro e da eugenia nos ensina que ortodoxia doutrinária sem ortopraxia de justiça é cristianismo mutilado. Você pode ter teologia perfeita nos credos, mas se permanece silencioso enquanto irmãos são desumanizados, sua fé está morta (Tiago 2.17).

Por Que Isso Importa Hoje

Não estamos cavando essas histórias sombrias para alimentar ressentimentos ou criar culpa coletiva anacrônica. Estamos fazendo algo que cristãos sempre devem fazer: nomear o pecado pelo que ele é, inclusive o pecado histórico estrutural.

Quando a técnica e a ciência se tornam absolutos, quando o progresso vira ídolo, a dignidade humana se torna opcional. Pessoas viram números. E números “inconvenientes” são descartados. Essa foi a lógica genocida que operou no Brasil pós-abolição – não através de campos de extermínio, mas através de abandono programático e política de substituição populacional.

As consequências perduram. A pobreza desproporcional da população negra brasileira hoje, a segregação residencial de nossas cidades, as disparidades educacionais e de saúde – tudo isso tem raízes naquelas décadas em que o Estado brasileiro deliberadamente virou as costas para milhões de cidadãos por causa da cor de sua pele, justificando-se com “ciência”.

E isso deveria nos ensinar humildade epistêmica profunda: desconfiar sempre quando “a ciência diz” é usado para justificar desumanização. A história nos mostra que as piores atrocidades frequentemente vêm vestidas com jaleco branco e credenciais acadêmicas.


Crítica Cristã: Por Que o Positivismo Falha

Primeiro Problema: Redução da Pessoa a Dado Mensurável

O positivismo, em sua obsessão por medir, quantificar e organizar, comete um erro antropológico fundamental: reduz pessoas a números. Produtividade, eficiência, indicadores, métricas – tudo é planilhável, tudo deve entrar nos cálculos.

Mas a Escritura nos ensina algo radicalmente diferente. Gênesis 1.26-27 declara que todo ser humano – todo, sem exceção – foi criado à imagem e semelhança de Deus (imago Dei). Isso significa que você carrega dignidade transcendente que não depende de sua utilidade, produtividade ou contribuição mensurável para a sociedade.

Aquela pessoa “improdutiva” segundo a planilha corporativa? Imago Dei.
Aquele aluno que não se encaixa no sistema tecnicista de educação? Imago Dei.
Aquele grupo étnico “inconveniente” para o progresso nacional? Imago Dei.

Não dá para reduzir gente a dado. Como escreveu C.S. Lewis em seu ensaio O Peso da Glória, cada pessoa que você encontra é “um ser imortal”, destinado ou à glória eterna ou ao horror eterno – e portanto merece ser tratado com peso, seriedade, reverência que nenhuma categoria estatística pode capturar26.

Timothy Keller observou frequentemente que quando uma sociedade perde a doutrina da imago Dei, oscila entre dois extremos igualmente destrutivos: ou supervaloriza certas pessoas (os “produtivos”, os “úteis”, os “bem-sucedidos”) ou descarta outras (os “improdutivos”, os “ineficientes”, os “inconvenientes”). Ambos os erros nascem da mesma raiz: esquecer que todo ser humano tem valor infinito independente de seu valor funcional27.

Segundo Problema: Subestimação Catastrófica do Pecado

O positivismo é fundamentalmente otimista sobre a natureza humana. Acredita que com planejamento correto, técnica adequada, organização racional, podemos resolver os problemas humanos e sociais. O mal, nessa visão, é principalmente ignorância ou má estruturação – não corrupção moral profunda.

Mas a Escritura é muito mais realista. Jeremias 17.9 não deixa espaço para ilusões: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” O problema humano não é apenas externo (estruturas ruins), mas interno (coração caído).

Você pode ter o sistema mais perfeitamente planejado do mundo. Se as pessoas que o administram são egoístas, orgulhosas, ávidas por poder – e todos nós somos, em alguma medida – o sistema será corrompido. Como disse Lord Acton, “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”28. E o positivismo concentra poder imenso nas mãos de tecnocratas supostamente iluminados.

Corrigir estruturas é importante – cristãos devem se importar profundamente com justiça em todos os âmbitos da realidade. Mas fazer isso sem lidar com conversão interior, arrependimento genuíno, transformação pelo Espírito Santo? Você está tratando sintomas, não a doença. Como Jesus ensinou: “Do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem” (Mateus 15.19-20).

Nenhuma Conferência de especialistas, nenhum planejamento tecnocrático, nenhuma reorganização científica da sociedade pode tratar da avareza, da inveja, do orgulho, da luxúria que motivam tanto a exploração predatória quanto a opressão do próximo. A expectativa positivista de que arranjos externos salvarão a humanidade revela uma antropologia tragicamente ingênua.

Terceiro Problema: Idolatria do Progresso

David Koyzis nos ensina que ideologias nascem quando pegamos algo genuinamente bom da criação e o absolutizamos – transformamos meio em fim, ferramenta em ídolo29. No positivismo, isso acontece com o progresso técnico.

Progresso material – melhores condições de saúde, comunicação mais eficiente, conhecimento científico expandido – é bom! Faz parte do Mandato Cultural de Gênesis 1.28, o chamado para desenvolver as potencialidades da criação. O problema surge quando o progresso vira objetivo absoluto, quando “avançar” se torna imperativo categórico que justifica qualquer meio.

Aí você escuta: “Precisamos progredir, custe o que custar.” E de repente está justificando exploração de trabalhadores (eficiência!), destruição de comunidades tradicionais (modernização!), abandono de populações inteiras (seleção natural do progresso!).

A fé cristã nos chama a distinguir cuidadosamente duas esperanças:

Esperança temporal: Sim, devemos buscar melhorias aqui e agora – saúde melhor, educação melhor, justiça melhor. Isso é mordomia fiel, cuidar bem da criação que Deus nos confiou.

Esperança escatológica: Mas nossa esperança última não está em sistemas humanos, não está em progresso técnico. Está em Cristo e no Reino que Ele inaugurou e consumará quando voltar.

Confundir as duas é criar ídolo. E ídolos sempre decepcionam – mas antes de desmoronar, exigem sacrifícios humanos. A história do positivismo brasileiro, especialmente o capítulo da eugenia, mostra exatamente isso: pessoas reais sacrificadas no altar do progresso nacional.

Quarto Problema: Tirania dos Especialistas

Talvez o problema mais perigoso hoje seja a tentação tecnocrática – a crença de que especialistas devem governar porque sabem mais. A lógica é sedutoramente simples:

“Especialistas conhecem as leis que governam a sociedade. Massas são ignorantes. Logo, especialistas devem decidir por todos.”

Vimos essa lógica operar no golpe de 1889: o povo “bestializado” não precisava opinar sobre o tipo de governo que desejava. Vemos hoje quando debates públicos são encerrados com: “A ciência diz. Fim de papo. Não discuta.”

Mas espere. Ciência é método, não é autoridade moral ou política. Ciência te diz como as coisas funcionam – como vírus se espalham, como economias crescem, como sociedades se organizam. Mas ciência não te diz o que você deve valorizar, quais compromissos são aceitáveis, que tipo de sociedade você quer viver.

Essas são questões morais, políticas, filosóficas – que exigem sabedoria prática, deliberação democrática, e sim, até discernimento espiritual. Não podem ser “resolvidas” por especialistas, por mais competentes que sejam em suas áreas técnicas.

E mais: se todo poder se concentra nas mãos de uma elite técnica sem prestação de contas, sem espaço para discordância, sem mecanismos democráticos de correção – você não criou governo científico. Criou teocracia secular, onde especialistas funcionam como sacerdotes infalíveis de uma religião do Progresso.

A cosmovisão reformada nos ensina o sacerdócio universal dos crentes: todo cristão tem acesso direto a Deus através de Cristo, capacidade de ler e interpretar Escritura, responsabilidade de discernir verdade. Não precisamos de mediadores humanos além de Cristo.

Isso se estende à vida pública: pessoas comuns têm sabedoria válida. O agricultor conhece sua terra de formas que nenhum agrônomo urbano pode aprender só em livros. A mãe conhece seu filho de maneiras que nenhum especialista em desenvolvimento infantil pode quantificar. O trabalhador conhece sua realidade profissional melhor que consultores externos.

Expertise técnica é valiosa e deve ser ouvida com atenção. Mas nunca deve se tornar ditadura que silencia a voz e a experiência das pessoas que efetivamente vivem as realidades sobre as quais especialistas teorizam.


Reconhecendo a Graça Comum: O Que o Positivismo Acertou

Mas seria desonesto e injusto pintar o positivismo como mal puro sem contribuições. A teologia reformada nos ensina sobre graça comum: Deus, em Sua bondade, distribui dons, insights e capacidades mesmo para aqueles que não O reconhecem30. Verdades sobre a criação podem ser descobertas por todos, porque como diz Romanos 1.20, as qualidades invisíveis de Deus são “claramente vistas, sendo compreendidas por meio das coisas criadas”.

Então, o que devemos reconhecer honestamente?

Primeiro: O positivismo ajudou a profissionalizar a administração pública brasileira. Antes dele, o Estado funcionava principalmente por patronagem e favoritismo. A introdução de concursos públicos, carreiras burocráticas baseadas em mérito, ênfase em competência técnica – tudo isso representou avanço real.

Segundo: Contribuiu para a valorização da educação, mesmo que sua visão educacional fosse limitada. A insistência positivista de que conhecimento importa, que ciência deve ser ensinada, que sociedades prosperam quando educam seus cidadãos – essas são verdades que permanecem.

Terceiro: O método científico que o positivismo defende é ferramenta legítima e preciosa para explorar a criação de Deus. Observação cuidadosa, experimentação rigorosa, teste de hipóteses – tudo isso honra a ordem que Deus colocou na criação e nos permite desenvolver medicina, tecnologia, conhecimento genuíno.

Quarto: A preocupação com ordem social não é má em si mesma. Sociedades precisam de estrutura, leis, organização. O pecado não está em buscar ordem, mas em absolutizá-la, em sacrificar justiça e misericórdia no altar da eficiência.

O erro do positivismo não foi valorizar essas coisas, mas absolutizá-las – pegar verdades parciais e transformá-las em verdades totais, elevar ferramentas úteis à categoria de salvadores.


Positivismo Hoje: Novas Roupagens da Velha Fé

A Tentação da “Despolitização”

Um dos disfarces contemporâneos do positivismo é o movimento por “despolitização” – a ideia de que deveríamos remover política de certas áreas da vida e deixar que “especialistas técnicos” decidam baseados apenas em “dados” e “ciência”.

Parece razoável. Quem não está cansado de politização excessiva, de ideologia infiltrando tudo? Mas o problema é que tudo é político no sentido de que toda decisão pública envolve valores, prioridades, trovas e negociações entre bens concorrentes. Não existe “solução puramente técnica” para problemas humanos complexos.

Quando banco central “independente” define juros, está fazendo escolha política: priorizar controle de inflação (que beneficia rentistas) ou crescimento econômico (que beneficia trabalhadores)? Quando agências reguladoras definem padrões ambientais, estão fazendo escolha política: quanto peso dar a preservação vs. desenvolvimento econômico?

“Despolitizar” é, na verdade, esconder a política – transferir poder de instituições democraticamente responsáveis para tecnocratas não eleitos, sob pretexto de neutralidade técnica que não existe. É o velho sonho positivista: especialistas iluminados governando sem o incômodo da participação popular.

Tecnocracia Digital e Inteligência Artificial

A fé positivista encontrou nova expressão na era digital. “Big data vai resolver tudo.” “Algoritmos são objetivos, livres de viés humano.” “Deixe a IA decidir, ela é mais eficiente que humanos falhos.”

Mas já vimos essa promessa antes. A diferença agora é que os “especialistas” não são sociólogos com teorias, mas engenheiros com algoritmos. A tentação permanece a mesma: entregar decisões moralmente complexas a sistemas técnicos, acreditando que eficiência computacional substitui sabedoria humana.

Cristãos precisam resistir. Algoritmos não têm consciência, não sentem compaixão, não entendem contexto, não carregam responsabilidade moral. São ferramentas – úteis, mas ferramentas. Quando deixamos que sistemas automatizados decidam quem recebe empréstimo, quem vai preso, quem merece tratamento médico, estamos repetindo o erro positivista: reduzir pessoas a dados e confiar em processos impessoais para fazer julgamentos que exigem sabedoria profundamente pessoal.


O Caminho Cristão: Cultivar e Guardar com Sabedoria

Princípio 1: Honrar a Ciência Como Dom, Não Como Salvadora

Use ciência. Valorize pesquisa. Medicina moderna, tecnologia de comunicação, conhecimento sobre o mundo natural – tudo isso é graça comum, presente de Deus para humanidade. Estudar a criação com rigor é forma de adorar o Criador.

Mas nunca, nunca diga: “A ciência vai nos salvar.” Só Cristo salva. Ciência é ferramenta poderosa nas mãos de pessoas que, elas mesmas, precisam de redenção.

Como Francis Schaeffer resumiu: “A ciência é uma excelente serva e uma péssima mestra”31. Serve maravilhosamente quando permanece em seu lugar próprio. Destrói quando é elevada a autoridade final sobre questões que transcendem seu domínio.

Princípio 2: Exigir Políticas Que Combinem Eficácia com Compaixão

Planejamento é útil. Eficiência é valiosa. Mas sempre pergunte: Quem fica de fora dessa planilha? Quem está sendo sacrificado no altar da eficiência? Quem paga o preço do “progresso”?

Isaías 1.17 é mandamento, não sugestão: “Aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva.”

Justiça e misericórdia não são sentimentalismo que atrapalha eficiência. São critérios pelos quais Deus julgará nações e indivíduos. Como Miqueias 6.8 resume: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.”

Se sua cidade melhora os índices econômicos mas expulsa os pobres para periferia invisível? Não é progresso segundo Deus.
Se sua empresa bate todas as metas mas destrói famílias de funcionários? Não é sucesso segundo o Evangelho.
Se sua nação “avança” deixando populações inteiras para trás? Não é desenvolvimento que Deus abençoa.

Princípio 3: Valorizar Sabedoria Comum e Participação Democrática

Resista à tentação tecnocrática. Especialistas merecem ser ouvidos – mas não merecem governar sem prestação de contas. Decisões públicas complexas exigem deliberação ampla, não apenas expertise técnica.

Isso não é anti-intelectualismo. É reconhecimento humilde de que:

  • Conhecimento está disperso: Nenhum grupo de especialistas detém toda informação relevante.
  • Valores são plurais: Sociedades devem negociar prioridades concorrentes, não deixar tecnocratas imporem as suas.
  • Poder corrompe: Quanto mais concentrado e menos fiscalizado, mais perigoso.

A doutrina reformada da soberania de esferas nos ensina que diferentes instituições – família, igreja, negócios, governo, artes, ciências – têm autoridade própria em seus domínios32. Estado não é engenheiro social onipotente. É uma esfera entre outras, com papel limitado: administrar justiça pública, proteger direitos, criar condições para que outras esferas floresçam.

Princípio 4: Cultivar Esperança Distinta

Nossa promessa não é sociedade perfeita construída por planejamento humano. É a presença redentora de Cristo agora – Seu Reino já inaugurado, transformando vidas e comunidades – e restauração final por Ele quando voltar, novos céus e nova terra onde justiça habita.

Isso não é escapismo que desiste do mundo presente. É realismo esperançoso que trabalha fielmente sem ilusões messiânicas. Trabalhamos por melhorias – educação melhor, saúde melhor, justiça melhor – mas sem confundir nosso trabalho com a obra salvífica de Cristo.

Como N.T. Wright frequentemente enfatiza, a esperança cristã não é “ir para o céu quando morrer”, mas ressurreição corporal e renovação da criação inteira33. O que fazemos agora importa eternamente – não porque construiremos o Reino (só Cristo faz isso), mas porque o trabalho fiel de cultivar e guardar antecipa, de forma imperfeita mas real, a restauração final.

O Reino de Deus já começou em Cristo. Vai ser consumado quando Ele voltar. Até lá, somos sal e luz (Mt 5.13-16): preservamos, iluminamos, testemunhamos – mas não confundimos igreja com Estado, evangelho com ideologia política, Cristo com programa de governo.


15 de Novembro 2025: O Que Celebramos, O Que Lamentamos

Quando o dia 15 de novembro chegar, o que devemos fazer com essa data que marca a fundação da República brasileira sob ideologia positivista?

Celebramos:

  • A República como forma de governo que, em princípio, é legítima e pode servir ao bem comum. Nada há de inerentemente superior em monarquia vs. república – ambas são arranjos políticos temporais.
  • Avanços reais que vieram nas décadas seguintes: expansão educacional (ainda que imperfeita), profissionalização administrativa (ainda que burocrática), desenvolvimento econômico (ainda que desigual).
  • Brasileiros comuns que, em cada geração, trabalharam fielmente para construir país melhor, independente da ideologia dos governantes.

Lamentamos:

  • A imposição de cima para baixo de um sistema político que o povo não pediu nem compreendeu – padrão tecnocrático que se repetiria.
  • A herança positivista que ainda molda nossa cultura política: fé excessiva em especialistas, desconfiança de participação popular, tentação de resolver tudo por planejamento central.
  • Especialmente, a eugenia e o abandono programático da população negra – capítulo sombrio que não pode ser esquecido, cujas consequências perduram.

Renovamos o compromisso:

De viver como cidadãos fiéis do Reino de Cristo em território brasileiro. De cultivar e guardar este pedaço da criação de Deus com sabedoria. De buscar justiça, amar misericórdia e andar humildemente com nosso Deus – não importa que ideologia governe, que bandeira tremule, que slogan político esteja em voga.


Conclusão: Ordem e Progresso, Sim – Mas Sob Qual Senhor?

Quando você olhar para a bandeira brasileira esta semana, quando ouvir discursos sobre progresso e desenvolvimento, quando encontrar no trabalho ou na igreja aquela mentalidade de “números não mentem, vamos focar no que funciona”…

Lembre-se da história que contamos aqui. Lembre-se de que há 136 anos, uma elite iluminada prometeu salvar o Brasil pela ciência e técnica. Prometeu ordem perfeita e progresso inevitável. E ainda estamos esperando a redenção pela expertise chegar.

Porque ela nunca vai chegar. Redenção já chegou. Tem nome: Jesus Cristo.

Ordem e progresso? Sim, busquemos. São bens legítimos, parte de nossa mordomia criacional. Mas justiça e misericórdia primeiro. E esperança última? Só em Cristo, nunca em planilhas, especialistas ou ideologias.

Timothy Keller costumava dizer que ídolos sempre prometem demais e entregam de menos34. O positivismo prometeu sociedade científica perfeita. Entregou burocracias sufocantes, elitismo tecnocrático, e no seu pior momento, justificou genocídio racial com jaleco branco.

Mas o Evangelho promete algo muito mais humilde e infinitamente mais verdadeiro: vida abundante sob o senhorio de Cristo, reconhecendo nossos limites enquanto aguardamos a cidade “cujo arquiteto e edificador é Deus” (Hebreus 11.10). Não Brasília planejada por Lúcio Costa. Não sociedade científica de Auguste Comte. Mas Nova Jerusalém descendo dos céus, onde Deus habitará com Seu povo, enxugará toda lágrima, e fará novas todas as coisas (Apocalipse 21.1-5).

Até lá, trabalhamos. Estudamos. Pesquisamos. Planejamos. Organizamos. Buscamos melhorias. Mas sempre lembrando:

Ciência é dom de Deus, não salvador.
Progresso é ferramenta, não telos.
Especialistas têm conhecimento, não onisciência.
E toda autoridade – científica, política, econômica – está sob a autoridade de Cristo, não acima dela.

Soli Deo Gloria – glória somente a Deus. Não à Ciência. Não ao Progresso. Não à Ordem tecnocrática. Somente a Deus, que criou todas as coisas, sustenta todas as coisas, e redimirá todas as coisas em Cristo.

Essa, e somente essa, é a esperança que não decepciona.


Para Reflexão Pessoal

  1. Onde você vê mentalidade positivista operando em sua vida? No trabalho que reduz você a KPIs (Indicadores-Chave de Desempenho)? Na escola que forma “recursos humanos” em vez de pessoas? Na igreja que mede “sucesso” apenas por números?
  2. Como você está tratando ciência e especialistas? Com respeito adequado mas não adoração? Com humildade para aprender mas coragem para questionar?
  3. Suas esperanças estão corretamente ordenadas? Você busca melhorias temporais com diligência sem confundi-las com salvação última?
  4. Você está honrando a imago Dei nas pessoas ao seu redor? Ou está, mesmo inconscientemente, avaliando valor humano por produtividade mensurável?
  5. Como você pode ser sal e luz em contextos onde a mentalidade tecnocrática domina? Que testemunho profético você pode dar de que pessoas são mais que números?

Recursos Adicionais

Livros:

Para aprofundamento em vídeo: Confira o vídeo completo sobre este tema no canal Teologia Missional: [LINK DO VÍDEO]


Que Deus nos dê sabedoria para usar os dons da criação sem transformar a criação em nosso deus. Que neste 15 de novembro, possamos olhar para nossa história com olhos sóbrios – celebrando o que merece celebração, lamentando o que exige lamento, e renovando compromisso de viver fielmente sob o senhorio de Cristo em território brasileiro.

Referências

  1. LOBO, Aristides. “Carta do Rio de Janeiro”. Diário Popular, São Paulo, 18 de novembro de 1889.
  2. COMTE, Auguste. Système de politique positive (Sistema de Política Positiva). Paris: 1851-1854, vol. 1.
  3. COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva (1830-1842). Tradução de José Arthur Giannotti. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 3-8.
  4. LINS, Ivan. História do Positivismo no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 112-145.
  5. KOYZIS, David T. Visões e Ilusões Políticas: Uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. Tradução de Neuza Batista da Costa. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 21-35.
  6. CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 129-139.
  7. LEMOS, Renato (org.). Benjamin Constant: Vida e História. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999.
  8. CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
  9. TEIXEIRA MENDES, Raimundo. A Bandeira Nacional. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1889.
  10. GOMES, Ângela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. 3ª ed. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2005, p. 201-215.
  11. HOLSTON, James. A Cidade Modernista: Uma crítica de Brasília e sua utopia. Tradução de Marcelo Coelho. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  12. SKIDMORE, Thomas. Brasil: De Castello a Tancredo, 1964-1985. Tradução de Mario Salviano Silva. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 198-234.
  13. SAVIANI, Dermeval. História das Ideias Pedagógicas no Brasil. 4ª ed. Campinas: Autores Associados, 2013, p. 365-380.
  14. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  15. SKIDMORE, Thomas E. Preto no Branco: Raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (1870-1930). Tradução de Donaldson M. Garschagen. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 81-114.
  16. LACERDA, João Batista de. “Sur les métis au Brésil”. Premier Congrès Universel des Races, Paris, 1911.
  17. RODRIGUES, Raimundo Nina. As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1894.
  18. ROMERO, Sílvio. História da Literatura Brasileira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1902-1903.
  19. NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. London: Kingdon & Neves, 1883, p. 127.
  20. NABUCO, Joaquim. Minha Formação. Rio de Janeiro: Garnier, 1900. Ver especialmente o capítulo “Atração do Mundo” onde critica o cientificismo da época.
  21. SPURGEON, Charles H. Sermão pregado em 16 de dezembro de 1860 no Music Hall, Royal Surrey Gardens. The Complete Works of C.H. Spurgeon, Volume 6, Sermon 360.
  22. WILBERFORCE, William. A Practical View of the Prevailing Religious System of Professed Christians. London: T. Cadell Jun. and W. Davies, 1797.
  23. REILY, Duncan Alexander. História Documental do Protestantismo no Brasil. 3ª ed. São Paulo: ASTE, 2003.
  24. MATOS, Alderi Souza de. Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil (1859-1900): Missionários, pastores e leigos do século 19. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
  25. BONHOEFFER, Dietrich. Ethics. Edited by Eberhard Bethge. New York: Simon & Schuster, 1955.
  26. LEWIS, C.S. O Peso da Glória. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2017.
  27. KELLER, Timothy. Justiça Generosa. São Paulo: Vida Nova, 2013.
  28. ACTON, John Emerich Edward Dalberg. Carta ao Bispo Mandell Creighton, 5 de abril de 1887.
  29. KOYZIS, Visões e Ilusões Políticas, p. 28-30.
  30. KUYPER, Abraham. “Common Grace” (1898). In: Abraham Kuyper: A Centennial Reader. Edited by James D. Bratt. Grand Rapids: Eerdmans, 1998, p. 165-201.
  31. SCHAEFFER, Francis A. How Should We Then Live? The Rise and Decline of Western Thought and Culture. Old Tappan: Fleming H. Revell, 1976, p. 165.
  32. KUYPER, Abraham. “Sphere Sovereignty” (1880). In: Abraham Kuyper: A Centennial Reader, p. 461-490.
  33. WRIGHT, N.T. Surprised by Hope: Rethinking Heaven, the Resurrection, and the Mission of the Church. New York: HarperOne, 2008, p. 192-206.
  34. KELLER, Timothy. Deuses Falsos, São Paulo: Vida Nova, 2018.

15 de Novembro… só mais um feriado???
…a filosofia que prometeu salvar o mundo pela ciência e técnica, mas…



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