Redescobrir quem é a Igreja e a quem ela pertence é urgente. Explore a identidade missional do povo de Deus no mundo de hoje.
Num mundo em que a fé se tornou fluida e a pertença opcional, redescobrir quem é a Igreja – e a quem ela pertence – é um ato contracultural. Michael Goheen nos convida a reencontrar a beleza e a responsabilidade de ser o povo de Deus no tempo presente.
Vivemos em uma era em que muitos falam da Igreja como se fosse um “serviço religioso”, uma “marca espiritual” ou um “centro de autoajuda moral”. Mas essa visão reducionista ignora o coração do Evangelho: a Igreja não é uma invenção humana, e sim o povo de Deus, o corpo de Cristo, o sinal do Reino. Em seu artigo “The Church: Who and Whose Are We?” (A Igreja: Quem somos e a Quem Pertencemos?), publicado no Calvin Theological Seminary Forum (vol. 20, n. 2, 2013), o teólogo Michael W. Goheen recorda algo que as Escrituras sempre afirmaram: quando esquecemos quem somos e a quem pertencemos, acabamos pertencendo a qualquer coisa – e a qualquer um.
Quem somos: O povo de Deus e o corpo de Cristo
O século XX, com sua teologia fragmentada e sua cultura centrada no indivíduo, fez da pergunta “O que é a Igreja?” um tema urgente. Goheen, ecoando Martinho Lutero em seu Catecismo Menor, lembra que até uma criança de sete anos deveria saber o que é a Igreja, pois confessa no Credo Apostólico: “Creio na santa Igreja cristã, a comunhão dos santos”. No entanto, adultos modernos parecem ter desaprendido isso. A crise eclesial que vivemos é, na verdade, uma crise de identidade espiritual: somos ainda o povo que vive sob o senhorio de Cristo (Colossenses 1.18) ou apenas um reflexo religioso das tendências culturais?
Goheen, dialogando com Herman Ridderbos, oferece uma síntese poderosa: a Igreja é, ao mesmo tempo, o povo de Deus e o corpo de Cristo. Isso significa que ela está em continuidade com o Israel do Antigo Testamento – um povo escolhido, redimido e chamado para a santidade – e, ao mesmo tempo, vive a novidade do Reino inaugurado por Jesus e pelo Espírito. A Igreja nasce da aliança e renasce na cruz. É antiga e nova. É Israel renovado e humanidade redimida.
Pedro nos lembra dessa identidade transformada: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2.9). E Paulo reforça: “Vocês não são mais estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Efésios 2.19). Essa tensão entre o “já” e o “ainda não” define nossa vocação: viver o futuro de Deus no presente.
A quem pertencemos: Sob o senhorio de Cristo
A partir disso, a teologia de Herman Ridderbos nos ajuda a compreender: o Reino de Deus é maior que a Igreja. O Reino abrange toda a criação – o cosmos reconciliado sob Cristo – e a Igreja é o lugar onde esse reinado se torna visível e palpável. Ela é o ensaio da nova criação, a amostra gratuita do mundo vindouro. Por isso, ser Igreja é muito mais do que frequentar um culto aos domingos; é viver sob o senhorio de Cristo em cada aspecto da existência – no trabalho, na cultura, na política, na arte e nas relações.
Em última análise, a questão não é apenas “quem somos”, mas a quem pertencemos. E a resposta é clara: pertencemos a Cristo. Ele é a cabeça da Igreja, o fundamento da nossa fé e a fonte da nossa esperança. Pertencer a Ele significa participar de Sua missão redentora e viver como sinal de Seu Reino em um mundo que ainda insiste em viver sob outras coroas.
Adoração e missão: Os dois focos da Igreja
Goheen conclui com uma imagem que deveria ser gravada no coração de cada cristão: a Igreja é uma elipse com dois focos. Um deles é a adoração – o povo reunido para ser nutrido pela Palavra, pela oração, pela Ceia e pela comunhão. O outro é a missão – o povo enviado ao mundo para servir, amar, denunciar o mal e proclamar o Evangelho (Mateus 28.19-20).
Quando a Igreja foca apenas no primeiro, cai na sacralização: torna-se um fim em si mesma, voltada para dentro. Quando se fixa apenas no segundo, cai na secularização: dilui sua identidade e se confunde com o mundo. O verdadeiro equilíbrio está em ser alimentada para ser enviada, reunida para ser espalhada, santificada para ser missionária.
Jesus não apenas nos reuniu; Ele nos enviou. “Mas vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1.8). Essa é a vocação missional da Igreja: ser testemunha viva do Reino de Deus em cada canto da criação.
Conclusão
Redescobrir isso é redescobrir o que significa ser Igreja – não uma instituição, mas um povo vivo, chamado, enviado e sustentado pelo Deus que faz novas todas as coisas (Apocalipse 21.5). A Igreja missional não é um modelo de crescimento ou uma estratégia de marketing; é a natureza essencial do povo de Deus que, amado por Cristo, ama o mundo que Ele veio salvar.
Pertencer a Cristo significa viver como embaixadores do Reino, anunciando com palavras e obras que o Rei já chegou, e que Seu governo é de justiça, paz e alegria. Que possamos, como Igreja, viver à altura dessa identidade gloriosa e dessa missão transformadora.
Leituras recomendadas:
- GOHEEN, Michael W.; BARTHOLOMEW, Craig. O Drama das Escrituras. São Paulo: Vida Nova, 2025.
- KELLER, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014.
- WRIGHT, Christopher J. H. A Missão de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2012.
- RIDDERBOS, Herman. A Vinda do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.
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