O dízimo ainda é válido para cristãos hoje? Descubra o que a Bíblia realmente ensina e como viver a generosidade com liberdade e fidelidade.
Quando o dinheiro vira um fim em si mesmo
Poucos temas causam tanto desconforto nas igrejas quanto o dízimo. Para alguns, é uma obrigação pesada, quase um imposto religioso. Para outros, é uma chave mágica para prosperidade financeira. Em muitos contextos, a prática do dízimo foi distorcida por uma teologia de mercado, que transforma a fé em investimento e Deus em um gerente de recompensas. A igreja vira empresa, o púlpito vira palco, e a generosidade vira moeda de troca.
Mas também há quem, ao perceber esses abusos, vá para o extremo oposto: rejeita completamente o dízimo como algo ultrapassado, restrito ao Antigo Testamento, sem valor para a vida cristã hoje. Afinal, se estamos na graça, por que falar de porcentagens?
A pergunta é legítima. E a resposta precisa ser bíblica, honesta e pastoral.
O que a Bíblia realmente ensina sobre o dízimo?
O dízimo aparece na Bíblia como uma prática anterior à Lei de Moisés. Abraão deu o dízimo a Melquisedeque como um ato espontâneo de honra e reconhecimento da soberania de Deus (Gênesis 14.18-20). Jacó também prometeu devolver a Deus a décima parte de tudo o que recebesse (Gênesis 28.20-22), como expressão de confiança e dependência.
Mais tarde, a Lei mosaica formalizou o dízimo como parte do sistema de culto e sustento dos levitas (Levítico 27.30; Números 18.21), incluindo também festas comunitárias e assistência aos pobres (Deuteronômio 14.28-29). Ou seja, o dízimo não era apenas uma taxa: era parte de uma vida de adoração, justiça e generosidade organizada dentro da teocracia de Israel.
É importante entender que, na teologia reformada, o dízimo pertencia ao sistema cerimonial e civil da lei mosaica – aquele que regulava o culto, o sacerdócio levítico e a vida nacional de Israel – e não à lei moral permanente (como os Dez Mandamentos). Com a vinda de Cristo, o sacerdócio levítico foi cumprido e superado pelo sacerdócio eterno de Cristo (Hebreus 7.11-12). O autor de Hebreus menciona o dízimo de Abraão a Melquisedeque justamente para mostrar a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o de Levi (Hebreus 7.1-10).
No Novo Testamento, o dízimo não é apresentado como mandamento obrigatório para os cristãos. Jesus menciona a prática em Mateus 23.23, criticando os fariseus por cumprirem o dízimo com rigor, mas negligenciarem a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Ele não condena a prática do dízimo sob a lei, mas deixa claro que ela não substitui o que realmente importa: o coração transformado pela graça.
Já os apóstolos, especialmente Paulo, falam sobre contribuições com ênfase na liberdade, na intencionalidade e na alegria. “Cada um contribua segundo tiver decidido em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9.7). A generosidade cristã é fruto da graça, não da imposição.
E Malaquias 3? Deus não promete bênção pelo dízimo?
Muitos pregadores citam Malaquias 3.8-10 para ensinar que o dízimo é obrigatório e que traz bênção material garantida. Mas é preciso ler o texto com cuidado.
Malaquias estava falando ao povo de Israel sob a antiga aliança, denunciando a negligência com o templo e os levitas. A “maldição” mencionada não era uma ameaça genérica para todos os tempos, mas consequência da quebra da aliança mosaica específica. Aplicar esse texto diretamente aos cristãos, como se fôssemos israelitas sob a teocracia, é um erro hermenêutico grave.
Isso não significa que o princípio da generosidade desapareceu – pelo contrário, ele se aprofundou. Mas a motivação mudou: não damos para evitar maldição ou garantir prosperidade, mas porque fomos alcançados pela generosidade suprema de Deus em Cristo (2 Coríntios 8.9).
Dízimo como princípio, não como peso
A tradição reformada clássica, especialmente Calvino, não tratava o dízimo como um mandamento perpétuo da lei moral, mas reconhecia seu valor como princípio útil e justo para o sustento do ministério da Palavra e o cuidado com os necessitados. Calvino defendia que, embora o dízimo como lei tenha cessado, os cristãos deveriam contribuir generosamente – e que 10% era um bom ponto de partida, não um teto.
Em vez de perguntar “sou obrigado a dar o dízimo?”, talvez devêssemos perguntar: “Como posso expressar minha gratidão a Deus com meus recursos?” A generosidade cristã não nasce da culpa, mas da graça. Não é motivada por medo de maldição, mas por amor ao Reino.
Em um país como o Brasil, onde muitos vivem com orçamentos apertados, falar de dízimo exige sensibilidade. Mas também exige coragem. Porque o dinheiro revela o que realmente valorizamos. E a prática regular de contribuir com a igreja local, seja com 10% ou mais ou menos, pode ser uma forma concreta de dizer: “Senhor, tudo o que tenho vem de Ti, e quero participar da Tua missão.”
Isso inclui sustentar o ensino fiel da Palavra, apoiar missionários, cuidar dos necessitados e manter comunidades vivas que testemunham o evangelho em meio à cidade. Em um tempo em que a fé é muitas vezes reduzida a consumo religioso, contribuir com generosidade é um ato contracultural: é declarar que a igreja não é um serviço que usamos, mas uma família da qual fazemos parte.
Aplicação prática
- Reflexão: O que sua maneira de lidar com o dinheiro revela sobre sua confiança em Deus?
- Desafio: Reveja seu orçamento este mês e pergunte: estou contribuindo com generosidade, regularidade e alegria para a missão de Deus?
- Oração:
Senhor, tudo o que tenho vem de Ti. Livra-me da avareza e da culpa. Ensina-me a contribuir com liberdade, fé e alegria, para que minha vida reflita a Tua generosidade. Amém.
Sugestão de leitura complementar
- KELLER, Timothy. Como Integrar Fé e Trabalho. São Paulo: Vida Nova, 2014.
- STOTT, John. Cristianismo Equilibrado. Viçosa: Editora Ultimato, 2017. (Capítulo sobre mordomia cristã).
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