Apresentar ou Batizar?

A prática de “apresentar” crianças no culto tem crescido entre comunidades protestantes. Mas como essa prática se relaciona – ou entra em tensão – com o batismo infantil?


Introdução – Duas Práticas, Uma Pergunta Essencial

Em muitas igrejas evangélicas, tornou-se comum “apresentar” ou “consagrar” crianças diante da comunidade. Esse gesto, bonito e carregado de afeto pastoral, muitas vezes substitui – ou torna secundário – o batismo infantil. O problema é que essa substituição não é neutra: ela reflete pressupostos teológicos profundos sobre fé, salvação, Igreja, sacramentos e a ação de Deus na vida humana.

A tradição luterana sempre afirmou que o batismo infantil não apenas é permitido, mas desejado, porque nele Deus age primeiro, conferindo graça, fé e nova identidade. Já Peter J. Leithart, em O Corpo Batizado (Monergismo, 2025), reforça essa visão ao compreender o batismo como incorporação real no corpo de Cristo, um ato eficaz da comunidade e do Espírito.

Assim, a pergunta não é se o batismo infantil é “permitido”, mas se a apresentação infantil dá às crianças aquilo que o batismo dá. A resposta, teológica e biblicamente, é não.


A Teologia Luterana: O Batismo como Obra de Deus

O Batismo é Evangelho Visível

Para Lutero, o batismo é “a Palavra de Deus ligada ao elemento”. Deus fala, age e promete no batismo. Não depende da racionalidade da criança – depende da fidelidade de Deus.

“No batismo, Deus nos dá a vitória sobre a morte, o perdão dos pecados e a salvação.”
(Catecismo Maior, Parte 4: O Batismo)

Se isso é verdade, retardar o batismo até a idade adulta é retirar da criança uma promessa que Deus oferece agora.

A Fé é Dom, Não Decisão

Crianças podem crer, porque a fé não é uma decisão voluntária, mas obra do Espírito. Lutero afirma:

“A criança é trazida ao batismo para que receba ali o que Deus promete.”
(Catecismo Maior, Parte 4: O Batismo)

Apresentar a criança não é meio de graça; batizar, sim.

O Batismo Faz a Pessoa Cristã

Segundo a teologia luterana, o batismo é identidade. Ele coloca a criança sob a cruz e à sombra da promessa. Ele a insere na aliança do Deus triúno.

Apresentar é um gesto devocional; batizar é um ato de Deus e obediência cristã.


Peter J. Leithart: O Batismo como Incorporação Real

Batismo Cria um Novo Povo

Leithart enfatiza que o batismo é um ato eclesial e trinitário que forma o corpo, cria unidade e estabelece identidade:

“Pelo batismo, Deus nos reconfigura como um povo renovado. O batismo não apenas simboliza, mas faz.”
(Peter J. Leithart)

A pergunta é inevitável: se o batismo faz, por que privar as crianças disso?

Entrada na História de Cristo

Para Leithart, o batismo não é uma declaração humana: é o momento em que Deus introduz a pessoa na história de Jesus – sua morte, ressurreição e missão.

“O batismo é a passagem para dentro da vida do Filho.”
(Peter J. Leithart)

A apresentação não faz isso. Ela não une a criança a Cristo, não a enterra nem ressuscita com Ele.

Coerência da Missão

Leithart defende que a missão da Igreja inclui formar discípulos desde o berço, e o batismo é o início dessa formação. A criança batizada é tratada como discípula, incluída na aliança, educada na fé, sustentada pela comunidade.


Por que a Apresentação Surgiu – E o que Ela Não É

A apresentação infantil surgiu como alternativa em tradições que:

  • Rejeitavam o batismo infantil;
  • Desconfiavam da teologia sacramental;
  • Viam o batismo como mero símbolo ou rito denominacional.

O gesto é bonito e pastoral, mas não é sacramento, não confere nova identidade, nem insere a criança na comunhão do corpo de Cristo. Ela expressa o desejo dos pais – mas não realiza a promessa de Deus.

Muitos pais, ao apresentarem seus filhos no culto, acreditam estar cumprindo um ato de fé suficiente. Mas ao compreenderem que o batismo é o meio pelo qual Deus sela sua promessa, passam a desejar que seus filhos sejam também batizados – não por tradição, mas por convicção.


Diferenças Fundamentais entre Apresentar e Batizar

TemaApresentaçãoBatismo
Agente principalPais e comunidadeDeus
NaturezaDevocionalSacramental
EfeitoDedicação e oraçãoPerdão, adoção, nova vida, incorporação ao corpo
Base bíblicaOrações por criançasMandato explícito de Cristo (Mateus 28.18-20; Atos 2.38-39)
IdentidadeNão transformaFaz o cristão
MissãoEnvolvimento comunitárioEntrada na vida de Cristo e do povo de Deus

A Visão Missional: Crianças como Participantes da Aliança

A teologia missional, representada por autores como Lesslie Newbigin, Michael Goheen, N. T. Wright e Kevin Vanhoozer, enfatiza que a Igreja não é um clube voluntário, mas o povo da aliança.

A prática de batizar crianças:

  • Reconhece que Deus chama famílias inteiras (Atos 16);
  • Reconhece que a fé nasce na comunidade;
  • Entende as crianças como agentes da missão, e não meros espectadores;
  • Alinha a igreja com a história bíblica da aliança, desde Abraão.

A apresentação infantil não contradiz isso, mas não substitui o batismo como marca da aliança.


Kolb e Veith Jr.: Recuperar a Objetividade da Ação Divina

O Batismo como Ato Criador de Identidade

Robert Kolb mostra que Deus cria aquilo que diz. Sua Palavra é eficaz. Assim, quando Deus declara no batismo: “Tu és meu”, essa palavra cria uma nova identidade.

“O batismo é o modo pelo qual Deus insere pessoas em sua história e lhes dá nova identidade.”
(Robert Kolb)

A apresentação pode expressar desejo dos pais – mas não cria identidade.

Crianças como Portadoras de Fé e Vocação

Kolb e Veith afirmam que:

  • Crianças têm fé verdadeira;
  • Possuem vocação dentro da comunidade;
  • São membros plenos da Igreja desde o batismo;
  • Vivem sob a promessa da aliança.

Adiar o batismo até que a criança “entenda” reflete uma visão racionalista e individualista da fé, contrária à fé como dom.

A Crítica ao Individualismo Evangélico

Veith identifica que a prática de apresentação frequentemente deriva de uma teologia centrada na escolha humana, não na promessa divina:

“A fé infantil é a imagem da verdadeira fé: confiar é receber, não compreender.”
(Gene Edward Veith Jr.)

Se a fé é recebida e não produzida, a criança é plenamente capaz de recebê-la no batismo.

Apresentação como Gesto Pastoral – Não Sacramental

Kolb e Veith reconhecem valor na apresentação como oração comunitária, mas insistem: ela nunca deve ocupar o lugar do batismo. Não é meio de graça, não une a Cristo e não insere na aliança. Sua função é complementar – não substitutiva.


Conclusão – Recuperar o Dom é Recuperar a Identidade

Apresentar ou batizar?

A resposta cristã sempre começa com esta verdade: Deus age primeiro.

A tradição luterana, a teologia sacramental de Leithart e a contribuição contemporânea de Kolb e Veith nos chamam a recuperar a confiança na objetividade da graça: no batismo, Deus faz o que promete – inclusive na vida das crianças.

A apresentação pode continuar como gesto devocional, mas o batismo é o lugar em que Deus diz, cria e sela a identidade de seu povo. Privar as crianças disso não é apenas perda teológica; é perda pastoral.

Batizar crianças é afirmar, com convicção missional: a graça chega antes da compreensão, antes da resposta e antes da decisão – porque Deus chega antes.


Leituras Recomendadas


Volte às Raízes da Fé Protestante

Redescubra, com o Catecismo Maior de Martinho Lutero, a solidez doutrinária que sustenta a Igreja desde a Reforma e fortalece a vida cristã hoje.

Em tempos de mensagens rápidas e teologia superficial, muitos cristãos sentem falta de um alicerce claro para crer, viver e ensinar. O Catecismo Maior de Lutero apresenta, de forma pastoral e didática, os fundamentos da fé cristã: Dez Mandamentos, Credo, Oração do Pai-nosso, sacramentos e vocação. Ao mergulhar nessas páginas você ganha: (1) compreensão bíblica profunda para responder dúvidas cotidianas; (2) material confiável para discipular sua família e igreja; (3) inspiração histórica que conecta a Reforma ao seu dia a dia brasileiro.

Uma leitura que corrige distorções, aquece o coração e equipa para uma obediência prática e inteligente.

Retenha, com fé e amor em Cristo Jesus, o modelo da sã doutrina que você ouviu de mim” (2 Timóteo 1.13)


Perguntas Frequentes

1. A apresentação infantil substitui o batismo?

Não. A apresentação é um gesto devocional, mas não é sacramento, não comunica graça e não incorpora a criança no corpo de Cristo.

2. Por que batizar crianças se elas não entendem?

Porque a fé é dom, não compreensão. Deus age primeiro, e o batismo é sinal e selo dessa promessa, como ensina a tradição luterana.

3. O que a apresentação tem de valor, então?

Ela pode expressar o desejo dos pais e envolver a comunidade em oração, mas deve ser vista como complementar, não substitutiva ao batismo.

4. O batismo infantil é bíblico?

Sim. A prática está alinhada com a visão de aliança nas Escrituras (Atos 2.38-39; Atos 16), onde famílias inteiras são incluídas na promessa.

5. O que está em jogo ao adiar o batismo?

A identidade cristã da criança, sua inclusão na comunidade da fé e a confiança na ação objetiva de Deus por meio dos sacramentos.


Você é pai, mãe, pastor ou líder de igreja?

Reflita: o que você deseja comunicar ao apresentar uma criança diante de Deus? E o que Deus deseja comunicar a ela por meio do batismo?

O batismo infantil não é apenas uma tradição – é uma expressão viva da graça que nos alcança antes mesmo de compreendermos.

Que tal conversar com sua comunidade sobre isso? Talvez seja hora de redescobrir, juntos, a beleza do batismo como dom, promessa e missão.

“A promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar.”
(Atos 2.39)


Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Um espaço dedicado a explorar a igreja e a teologia a partir de uma perspectiva missional. Aqui, buscamos refletir sobre a missão de Deus no mundo, como a igreja pode viver de forma fiel ao chamado cristão e como podemos aplicar os ensinamentos bíblicos de maneira prática e transformadora em nossa sociedade.