No silêncio sóbrio do Advento e na humildade do presépio, Dietrich Bonhoeffer nos conduz a uma fé que aprende a esperar – não de braços cruzados, mas com coragem, vigilância e esperança ativa. De seus sermões e cartas na prisão emergem reflexões que iluminam o Natal como o advento de Deus no meio das sombras, abrindo portas que não podemos abrir e inaugurando um novo mundo na vinda de Cristo.
O Advento e o Natal ganham profundidade extraordinária quando vistos pelos olhos de Dietrich Bonhoeffer. Da escuridão de uma cela nazista, o pastor-mártir redescobriu o sentido radical da espera cristã: não um ritual anual, mas uma postura existencial de esperança ativa diante de um mundo ferido. Seus sermões e escritos oferecem uma leitura viva e profética desse tempo litúrgico – lembrando-nos que Deus vem às sombras, abre portas que não conseguimos abrir e inaugura, silenciosamente, um novo mundo no nascimento de Cristo.
Introdução: Advento das Profundezas
O Advento costuma ser lembrado como um tempo de luzes, alegria e expectativa positiva. No entanto, Dietrich Bonhoeffer – pastor, teólogo e mártir sob o regime nazista – nos oferece uma visão surpreendentemente mais profunda, realista e transformadora.
Desde o cárcere, ele compreendeu o Advento como um tempo de espera marcada pela dor, pela limitação e pela esperança inabalável no Deus que vem ao nosso encontro. Seus sermões, reunidos em obras como God Is in the Manger (Deus Está no Presépio), e suas cartas da prisão, preservadas em Resistência e Submissão, revelam um Advento que confronta o comodismo e nos chama a viver na tensão entre o mundo que é e o mundo que virá.
Como Bonhoeffer escreveu:
“O tempo do Advento é um tempo de espera, mas toda a nossa vida é um tempo de Advento, ou seja, um tempo de espera pelo último Advento, pelo tempo em que haverá um novo céu e uma nova terra.”
Nesta reflexão, exploramos alguns insights de Bonhoeffer sobre Advento e Natal e o que sua teologia tem a ensinar à igreja hoje.
A Espiritualidade da Espera: Aprendendo com Moisés, José e Maria
Em suas reflexões sobre o Advento, Bonhoeffer resgata três figuras bíblicas que encarnam a espera: Moisés, José e Maria. Para ele, essas personagens não são meros exemplos morais, mas paradigmas espirituais sobre como aguardar a ação de Deus.
Moisés: A Promessa Que Ultrapassa a Própria Vida
Bonhoeffer não destaca o Moisés triunfante, mas o Moisés que contempla a Terra Prometida sem poder entrar nela. Esse Moisés representa a esperança que não se realiza plenamente em nossa biografia, mas que permanece ancorada na fidelidade de Deus.
A espera de Moisés se transforma em símbolo do próprio Advento: a promessa está dada, o cumprimento ainda está distante, mas Deus permanece fiel no intervalo.
José: Fé Silenciosa Que Sustenta o Invisível
José encarna a obediência humilde. Ele se move na direção da promessa mesmo sem compreender tudo – acolhe Maria, protege o menino, aceita o anonimato.
Para Bonhoeffer, José nos ensina que o Advento exige mais fidelidade no ordinário do que espetacularidade religiosa. Deus age enquanto nós permanecemos firmes no simples.
Maria: Esperança Encarnada na Tensão do “Já e Ainda Não”
Maria vive a tensão do Advento em seu próprio corpo. Ela carrega Cristo, mas o mundo ainda não está redimido; canta o Magnificat, mas os poderosos continuam no trono.
Para Bonhoeffer, Maria é o ícone da esperança cristã: o futuro já começou, mas ainda não se completou. No Advento, somos chamados a viver exatamente nessa mesma tensão.
Advento Como Cela de Prisão: Um dos Mais Potentes Insights de Bonhoeffer
Em Resistência e Submissão (Sinodal, 2015), Bonhoeffer escreve da prisão:
“Uma cela de prisão como esta é uma boa analogia para o Advento. Espera-se, confia-se, faz-se isto ou aquilo — em última análise, coisas insignificantes —, mas a porta permanece fechada e só pode ser aberta pelo lado de fora.” [1]
Essa imagem é profundamente missional e própria para o Advento.
A Escuridão Não Impede a Esperança
Para Bonhoeffer, o Advento não nega o sofrimento. Pelo contrário, reconhece que vivemos presos em estruturas de pecado, medo e injustiça; carregamos ansiedades internas e limitações externas; não conseguimos nos libertar por nós mesmos.
A esperança cristã começa justamente aí: na certeza de que Aquele que vem abrirá a porta de fora.
Espera Ativa, Não Resignação
A metáfora da prisão não produz paralisia. Bonhoeffer insiste que o cristão deve “manter sua lâmpada acesa” – expressão tirada de Lucas 12.
No Advento, a igreja é chamada a vigiar, orar, servir, denunciar a injustiça e viver como quem aguarda o Rei. A esperança do Natal não é passiva: é uma esperança em movimento.
A Espiritualidade do Natal: Celebrar Mesmo Entre os Escombros
Bonhoeffer acreditava que o Natal poderia e deveria ser celebrado mesmo “entre escombros”. Ele mesmo viveu essa convicção: mesmo encarcerado, escrevia sobre a beleza da família, sobre a manjedoura como sinal de resistência do Reino e sobre o triunfo silencioso de Deus contra o mal.
Para ele, celebrar o Natal é reconhecer que Deus entra na vulnerabilidade humana, confronta o mundo através da fraqueza e está presente onde menos esperamos – no estábulo, na prisão, na dor.
O Natal, segundo Bonhoeffer, é o anúncio de uma revolução divina: os humildes são exaltados, a criação é renovada, e a promessa da restauração total já começou no nascimento de Cristo.
Implicações Missionais Para a Igreja Hoje
À luz de Bonhoeffer, algumas práticas tornam-se fundamentais para viver um Advento missional:
Solidariedade com os que sofrem. Quem vive o Advento segundo Bonhoeffer não celebra de costas para o sofrimento do mundo. Advento é aproximação, compaixão, presença nos “estábulos” da vida.
Espera que denuncia e transforma. O Advento nos impede de aceitar injustiças como “normais”. A esperança cristã denuncia toda forma de opressão política, espiritual e emocional, e aponta para o Reino que vem.
Humildade e simplicidade. A espiritualidade natalina não combina com um Natal consumista, comercial ou espetacular. José e Maria nos lembram que Deus age na simplicidade.
Vigilância espiritual. Esperar Cristo é manter as candeias acesas com fé viva, amor ao próximo e compromisso ético com a verdade.
Conclusão: Esperança Inabalável nas Sombras
Bonhoeffer nos oferece uma visão de Advento e Natal que vai muito além do sentimentalismo religioso. Ele nos chama à espera corajosa, à esperança ativa, à fidelidade humilde e à fé que celebra mesmo na escuridão.
Em seu testemunho, aprendemos que o Advento é o tempo da promessa que ainda não chegou, e o Natal é o sinal de que ela já começou.
E, como ele mesmo disse: “Esperamos o tempo em que haverá um novo céu e uma nova terra.”
Que este Advento e Natal reacenda em nós essa esperança inabalável e nos torne testemunhas vivas do Deus que vem, do Deus que liberta e do Deus que renova todas as coisas.
📚 Leituras Essenciais Para Aprofundar o Advento com Bonhoeffer
Se você deseja mergulhar ainda mais fundo na espiritualidade do Advento e do Natal a partir da teologia de Dietrich Bonhoeffer, poderá encontrar algumas reflexões em suas cartas escritas durante seu período na prisão:
Resistência e Submissão
Cartas e anotações escritas na prisão
Embora não seja um livro especificamente natalino, muitas das reflexões mais marcantes de Bonhoeffer sobre o Advento e o Natal aparecem justamente aqui, escritas em meio às sombras da prisão nazista. Nas cartas, ele fala do Advento como espera ativa (não passiva), da cela de prisão como metáfora da condição humana que aguarda libertação, da celebração do Natal em meio ao sofrimento, da necessidade de “manter a lâmpada acesa” e da viva esperança na vinda de Cristo.
Algumas das passagens mais poderosas de Bonhoeffer sobre esperança, vigilância e encarnação se encontram nestas cartas – textos que, até hoje, iluminam a fé cristã em tempos difíceis.

Oração de Advento no Espírito de Bonhoeffer
Senhor Jesus Cristo,
Tu que vens a nós na humildade do presépio e na firme promessa do teu retorno, ensina-nos a esperar por ti com o coração desperto. Livra-nos da pressa vazia e da esperança superficial; dá-nos a vigilância dos que sabem que a luz irrompe justamente nas trevas mais densas.
No espírito da teologia de Dietrich Bonhoeffer, concede-nos uma fé que não fuja do sofrimento, mas que nele encontre sinais da tua presença. Que o Advento renove em nós a coragem para permanecer firmes, mesmo quando as portas parecem trancadas. E que o Natal reacenda em nós a alegria silenciosa de saber que Deus está conosco – Deus no presépio, Deus na cruz, Deus no mundo.
Faz de nós testemunhas da tua encarnação,
gente que espera trabalhando, que confia obedecendo,
que ama servindo e que persevera esperando pela tua vinda.
Vem, Senhor Jesus.
Que a tua luz brilhe em nossas trevas
e que o teu Reino nasça novamente em nós.
Amém.
Como a teologia do Advento de Bonhoeffer transforma sua forma de esperar e celebrar o Natal? Que práticas de vigilância e esperança ativa você pode cultivar neste tempo litúrgico? Compartilhe suas reflexões nos comentários.
Referências:
[1] Bonhoeffer escreveu essa analogia sobre o Advento em uma carta da prisão de Tegel, datada de 21 de novembro de 1943 e endereçada ao seu amigo Eberhard Bethge. Para Bonhoeffer, o Advento é um tempo de espera radical, em que a salvação não pode ser conquistada por esforço humano, mas apenas recebida como ação de Deus “de fora” (BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão: Cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal, 2015, p. 184).
Dependente da graça
O prisioneiro não pode abrir sua cela sozinho, o ser humano não pode abrir o caminho para a salvação sem Cristo.

Se a carta do Advento já o tocou, imagine o que o restante desse legado pode fazer por sua fé.
Resistência e Submissão não é apenas um conjunto de cartas históricas. É a voz de um teólogo preso por desafiar um regime assassino. É fé em carne viva. É pensamento forjado entre grades, vigias e incertezas. É espiritualidade que não foge do mundo, mas permanece lúcida no meio dele.
Esse livro é um tesouro espiritual e histórico. Um testamento teológico escrito a lápis por alguém que estava disposto a morrer pela verdade que proclamava.
Se você deseja compreender a profundidade da fé cristã em tempos sombrios, esta obra é indispensável.
A Roda e a Cruz: Bonhoeffer e a Resistência Cristã ao Estado Totalitário

Adolf Hitler acaba de assumir o poder. A Alemanha vive uma euforia nacionalista, e muitas igrejas celebram o novo regime como um milagre divino. Mas, nos bastidores, uma lei silenciosa começa a excluir judeus da vida pública — e a igreja alemã cogita fazer o mesmo com seus pastores de origem judaica. Enquanto a maioria se cala ou aplaude, o jovem teólogo Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) sobe à tribuna para proferir um dos textos mais corajosos e perigosos do século XX: “A Igreja diante da Questão Judaica”.









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