A Incoerência Que Nos Define: Por Que Resistimos ao Deus Que Buscamos

Dizemos que não cremos em Deus porque não O vemos – mas ignoramos a injustiça que está diante dos nossos olhos. Alegamos que a ciência não O comprova – mas negamos evidências científicas que nos incomodam. Rejeitamos um Deus bom num mundo mau – mas toleramos o mal em quem amamos e em nós mesmos. Chamamos a fé de ilusão – enquanto nos entorpecemos com distrações que sabemos ser vazias. O problema não é falta de evidência. É que a evidência aponta para um Deus que exige mais do que estamos dispostos a dar.


O Natal se aproxima novamente, e com ele ressurgem as velhas objeções. “Como posso crer em um Deus que não vejo?” – pergunta o cético honesto. “A ciência não comprova Sua existência” – afirma o naturalista convicto. “Um Deus bom não permitiria tanto sofrimento” – protesta o coração ferido. “Religião é apenas ópio do povo, ilusão reconfortante” – sentencia o desencantado.

São objeções antigas, repetidas em cada geração, e muitas delas carregam peso real. Merecem ser levadas a sério. Mas há algo profundamente revelador não apenas nas objeções que levantamos contra Deus, mas nas contradições que vivemos quando as fazemos. Porque a verdade inconveniente é esta: muitas vezes, as razões que alegamos para não crer em Deus dizem mais sobre nós do que sobre Ele.

Não estou sugerindo que toda descrença seja má-fé, nem que dúvidas sinceras sejam desonestidade disfarçada. Longe disso. Estou apontando para algo que todo pastor, todo conselheiro espiritual e todo ser humano honesto eventualmente reconhece: há uma distância frequente entre as razões que apresentamos e as razões reais que nos movem. E nessa distância, nessa incoerência que nos define, podemos encontrar não apenas um diagnóstico de nossa condição, mas também – paradoxalmente – um caminho de volta para casa.

Porque o Deus do Natal é especialista em vir ao encontro de pessoas incoerentes, contraditórias, perdidas. Ele não espera que resolvamos nossas contradições antes de buscá-Lo. Ele entra nelas, habita nelas, e nos transforma a partir delas.

Não Vemos Deus, Mas Ignoramos O Que Vemos

“Não posso crer no que não vejo” – é a objeção empirista clássica. E tem sua lógica. Afinal, como confiar em algo invisível, intangível, que não se submete ao escrutínio sensorial? A demanda parece razoável: mostre-me Deus, e então crerei.

Mas há algo curioso nessa objeção quando a colocamos ao lado de como realmente vivemos. Porque vemos – com clareza brutal, diariamente – realidades que deveriam nos mover à ação, e permanecemos paralisados na indiferença.

Vemos a criança de rua estendendo a mão na esquina, e desviamos o olhar. Vemos as estatísticas de fome, violência doméstica, tráfico humano, e viramos a página. Vemos o colega de trabalho sendo humilhado, o vizinho em necessidade óbvia, a injustiça estrutural que beneficia uns às custas de outros – e seguimos nossa rotina como se nada houvesse para ver.

Não é que essas realidades sejam invisíveis. Elas gritam diante de nós. Mas escolhemos não enxergar, ou enxergar sem ver realmente, sem permitir que o que vemos nos transforme. A verdade é que visibilidade não garante resposta. Ver não é suficiente para mover o coração humano à ação.

Jesus conhecia bem essa dinâmica. Na parábola do bom samaritano (Lucas 10.25-37), tanto o sacerdote quanto o levita viram o homem espancado à beira da estrada. Não havia problema de visibilidade. O sofrimento estava ali, exposto, inegável. E ambos passaram de largo. Não porque não viram, mas porque ver exigiria algo que não estavam dispostos a dar: inconveniência, custo, envolvimento.

Às vezes, a invisibilidade que alegamos é menos sobre o objeto e mais sobre o observador – menos sobre o que está diante de nós e mais sobre nossa disposição de responder ao que vemos. E se esse é o caso com realidades humanas tangíveis e visíveis, quanto mais com Deus?

O problema não é que Deus seja invisível demais. É que, se O víssemos claramente, seríamos confrontados com demandas que preferimos evitar. A invisibilidade de Deus, paradoxalmente, nos convém. Ela nos permite manter distância segura, controle sobre nossas vidas, autonomia confortável. Ver Deus – realmente vê-Lo – significaria render-se a Ele. E essa é uma transação que a autonomia humana resiste com todas as forças.

A Ciência Não Prova Deus, Mas Negamos a Ciência Que Incomoda

“A ciência não demonstra a existência de Deus” – é a objeção do materialista científico. E novamente, tem sua lógica interna. Se Deus não pode ser medido, testado, reproduzido em laboratório, como pode ser considerado real dentro de um framework científico? A questão é válida.

Mas observemos a incoerência: muitos que invocam a autoridade da ciência para rejeitar Deus são seletivamente céticos quanto à ciência em outras áreas – especialmente quando suas conclusões exigem mudanças de comportamento.

A ciência demonstra os danos neurológicos e sociais do vício em telas, redes sociais, pornografia. E aumentamos nosso tempo de exposição ano após ano. A ciência comprova os benefícios da disciplina, do sono adequado, da alimentação balanceada, do exercício regular. E ignoramos essas evidências na prática diária. A ciência revela a importância de comunidade, propósito, generosidade para o bem-estar humano. E vivemos cada vez mais isolados, consumistas, autocentrados.

Não é que rejeitemos a ciência por ela ser inconclusiva. Rejeitamos conclusões científicas – mesmo quando robustas – porque elas exigem mudanças que não queremos fazer. Exigem sacrifício de conveniência, renúncia de prazeres imediatos, transformação de hábitos arraigados.

A questão, portanto, não é se há evidência suficiente para crer em Deus, mas se estamos dispostos a seguir evidências quando elas apontam para conclusões incômodas. E a resposta, historicamente, é não. Não seguimos evidências que demandam rendição. Seguimos evidências que confirmam o que já queremos acreditar.

C.S. Lewis, ele mesmo um antigo ateu que se converteu justamente pela força das evidências, escreveu em Cristianismo Puro e Simples: “Não estou pedindo que alguém aceite o cristianismo se sua melhor razão lhe disser que o peso da evidência está contra ele. Mas se alguém rejeita o cristianismo, que o faça pela verdadeira razão, não porque ‘o cachorro comeu meu dever de casa’ espiritual.”

A verdadeira razão, muitas vezes, não é falta de evidência, mas medo da rendição que a evidência exigiria.

Rejeitamos ‘Deus Bom’ Num ‘Mundo Mal’, Mas Toleramos o Mal Próximo

“Como posso crer em um Deus bom enquanto existe tanto mal no mundo?” – é a objeção da teodiceia, o problema do mal. E é, sem dúvida, a mais visceral, a mais pessoalmente dolorosa de todas as objeções. Não é abstração filosófica. É grito de coração partido diante de sofrimento real, injustiça concreta, dor inexplicável. E merece ser tratada com seriedade, empatia e honestidade.

Mas ainda assim, há uma incoerência reveladora em como a formulamos.

Dizemos que não podemos tolerar um Deus que permita o mal – e simultaneamente toleramos, justificamos e até defendemos o mal em pessoas que amamos. O pai que bebe demais, mas “está passando por dificuldades”. O amigo que trai a esposa, mas “o casamento estava ruim mesmo”. O líder político que rouba, mas “pelo menos não é do outro partido”. O colega que mente, mas “todos fazem isso para sobreviver”.

Nós, que exigimos perfeição moral de Deus como condição para crer Nele, praticamos ginástica moral diária para justificar imperfeições em nós mesmos e em quem nos convém defender.

Mais ainda: reconhecemos nossa própria maldade – os pensamentos mesquinhos, as palavras cortantes, as omissões egoístas, a indiferença calculada – e encontramos infinitas desculpas. “Eu estava cansado.” “Ela mereceu.” “Todo mundo faria o mesmo.” “Não foi tão grave assim.”

Aplicamos um padrão de perfeição a Deus que jamais aplicaríamos a nós mesmos. E isso revela algo profundo: não é que o mal no mundo seja intolerável. É que um Deus que nos confronta com nosso próprio mal é intolerável. Não é o sofrimento dos outros que nos impede de crer. É o julgamento sobre nós mesmos que a existência de Deus implicaria.

Jesus abordou essa incoerência diretamente em João 3.19-20: “O julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas.”

O problema não é que Deus permita o mal. O problema é que Deus expõe o mal – incluindo o nosso. E exposição dói. Exige arrependimento. Exige mudança. Por isso, mantemos Deus à distância filosófica, usando o mal do mundo como escudo contra o desconforto de confrontar o mal em nós.

Chamamos Deus de Ilusão, Mas Vivemos de Ilusões Escolhidas

“Religião é ópio do povo, ilusão reconfortante, otimismo ingênuo” – é a objeção do desencantamento moderno, ecoando Marx, Freud, Nietzsche. E há verdade nela: religião pode ser, e frequentemente tem sido, usada como escapismo, anestesia contra realidade dolorosa, fantasia reconfortante.

Mas a incoerência aparece quando observamos em que realmente colocamos nossa esperança de consolo, sentido e escape.

Quantos que rejeitam Deus como “ópio” se entorpecem diariamente com álcool, drogas recreativas, maratonas de séries, pornografia, compras compulsivas, redes sociais infinitas? Quantos que ridicularizam a fé como “otimismo ingênuo” alimentam fantasias de riqueza através de apostas, loterias, esquemas de enriquecimento rápido? Quantos que denunciam a religião como escape da realidade passam horas em mundos virtuais de jogos, em feeds algorítmicos desenhados para vício, em construções de imagem nas redes que nada têm a ver com quem realmente são?

Não estou igualando fé em Deus com vícios comportamentais. Estou apontando a incoerência de rejeitar Deus como ilusão enquanto abraçamos ilusões que admitidamente não nos satisfazem, não nos transformam, não nos libertam.

Pelo menos a “ilusão” de Deus, historicamente, produziu santos, mártires, reformadores sociais, pessoas que amaram sacrificialmente e viveram com propósito transcendente. O que nossas ilusões seculares produzem? Ansiedade epidêmica, depressão em massa, isolamento crescente, sentimento de vazio existencial mesmo em meio à abundância material.

Blaise Pascal, no século XVII, já havia diagnosticado essa condição humana: “Todos os homens buscam a felicidade. Não há exceção. Seus meios podem ser diferentes, mas todos tendem a esse fim… A vontade nunca dá o menor passo exceto em direção a esse objetivo. É o motivo de toda ação de todo homem, até daqueles que vão se enforcar.”

Buscamos transcendência, sentido, consolo. A questão não é se buscaremos, mas onde. E muitas vezes, as alternativas que escolhemos são demonstravelmente mais ilusórias, mais vazias, mais destrutivas do que o Deus que rejeitamos.

A Graça Para Incoerentes: O Natal Como Resposta

Se tudo isso soa como acusação, como exposição implacável de nossa hipocrisia, é porque, em certo sentido, é exatamente isso. Mas não para condenar. Para libertar. Porque reconhecer nossa incoerência é o primeiro passo para honestidade, e honestidade é o primeiro passo para cura.

E aqui está a beleza paradoxal do Natal: Deus não esperou que resolvêssemos nossas contradições para vir até nós. Ele veio justamente porque somos contraditórios, incoerentes, perdidos.

O Natal não é história de Deus vindo para pessoas que finalmente tinham argumentos filosóficos perfeitos, evidências científicas conclusivas e coerência moral impecável. É história de Deus vindo para pastores analfabetos, magos pagãos, uma jovem grávida fora do casamento, um carpinteiro de aldeia obscura. Gente comum, gente confusa, gente contraditória. Gente como nós.

A encarnação não é Deus exigindo que subamos até Ele. É Deus descendo até nós – na bagunça, na incoerência, na contradição. E ali, naquele lugar improvável, Ele planta a semente de transformação.

Paulo, escrevendo aos Romanos, capturou essa dinâmica perfeitamente em Romanos 5.8: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.”

Não quando nos tornamos coerentes. Não quando resolvemos todas as objeções intelectuais. Não quando alcançamos perfeição moral. Quando ainda éramos pecadores. Quando ainda éramos contraditórios. Quando ainda éramos incoerentes. Ali, naquele lugar, Cristo veio.

E isso muda tudo. Porque significa que nossas objeções contra Deus – por mais sinceras que sejam – não são obstáculos intransponíveis. São, muitas vezes, sintomas de uma condição mais profunda: alienação de nossa própria verdade, medo de rendição, resistência à transformação. E Deus não nos rejeita por causa dessas resistências. Ele as reconhece, as honra como parte de nossa jornada e, gentilmente, pacientemente, nos convida a atravessá-las em direção a Ele.

O Convite Para Além da Incoerência

Então, o que fazemos com tudo isso? Como respondemos ao reconhecimento de nossa própria incoerência? Não com desespero, mas com esperança. Não com autocondenação, mas com convite à honestidade.

Se você é alguém que alega não crer em Deus porque não O vê, pergunte-se: o que você vê e ignora? Se você rejeita Deus por falta de evidência científica, pergunte-se: que evidências você já rejeita quando elas exigem mudança? Se você não consegue crer em um Deus bom num mundo mal, pergunte-se: que mal você tolera em si mesmo e em quem ama? Se você chama a fé de ilusão, pergunte-se: que ilusões você abraça diariamente?

Essas não são perguntas para envergonhar. São perguntas para libertar. Porque quando reconhecemos nossa incoerência, podemos finalmente parar de usar nossas objeções como escudos e começar a usá-las como pontes. Pontes em direção à honestidade sobre quem realmente somos. Pontes em direção à humildade sobre o que realmente precisamos. Pontes em direção a um Deus que não se assusta com nossa bagunça, mas entra nela para nos encontrar.

O Natal é o testemunho de que Deus não está interessado em nossas defesas intelectuais perfeitas. Ele está interessado em nós. Não na versão polida que apresentamos ao mundo, mas na versão real, contraditória, incoerente, ferida e buscando. E Ele vem – não com exigências de perfeição prévia, mas com oferta de transformação progressiva. Não com provas que eliminam toda dúvida, mas com presença que sustenta através da dúvida. Não com respostas prontas para todas as objeções, mas com amor que permanece mesmo quando objeções permanecem.

Neste Natal, talvez o convite não seja resolver todas as objeções intelectuais antes de aproximar-se de Deus. Talvez seja aproximar-se de Deus com todas as objeções intelectuais – e descobrir que Ele é grande o suficiente para sustentá-las, paciente o suficiente para caminhá-las conosco, e amoroso o suficiente para nos transformar através delas.

Porque o Deus do Natal é especialista em fazer o extraordinário através do ordinário, o milagroso através do improvável, o eterno através do temporal. Ele não precisa que sejamos coerentes para nos amar. Ele só precisa que sejamos honestos para nos transformar.


E você? Que incoerência em sua vida aponta não para a ausência de Deus, mas para o medo de encontrá-Lo? Que objeção você levanta não porque seja intelectualmente insuperável, mas porque a resposta exigiria rendição que você ainda não está pronto para dar? Compartilhe nos comentários – não suas defesas, mas suas honestidades. Porque é ali, na honestidade sobre nossa incoerência, que o Deus do Natal nos encontra e começa a nos refazer.

Que este Natal seja não o tempo de respostas fáceis, mas de perguntas honestas. Não de defesas perfeitas, mas de rendições libertadoras. Não de coerência fabricada, mas de graça recebida na incoerência real. Porque ali, justamente ali, Cristo nasce novamente.


📚 Para Continuar a Jornada da Honestidade

Se as reflexões deste texto tocaram você e despertaram o desejo de explorar mais profundamente a tensão entre nossas objeções a Deus e nossas contradições humanas, esta é uma obra indispensável.

Este livro aborda exatamente as perguntas que exploramos aqui: Por que Deus permite sofrimento? Como pode haver uma só religião verdadeira? Religião não é apenas ilusão reconfortante? Mas Keller não oferece respostas defensivas ou simplistas. Com a sensibilidade pastoral e rigor intelectual que o caracterizam, ele mostra como a fé cristã é não apenas defensável, mas profundamente racional – e como nossas objeções frequentemente revelam mais sobre nós do que sobre Deus. Valendo-se da literatura, filosofia e conversas do cotidiano, Keller constrói uma ponte entre ceticismo honesto e fé transformadora.

Leitura que trata não apenas nossa mente, mas nosso coração – porque reconhece que as maiores barreiras à fé raramente são apenas intelectuais. São existenciais, morais, emocionais. Keller oferece não fórmulas mágicas, mas companhia sábia para a jornada de honestidade que pode nos levar, paradoxalmente, a encontrar o Deus de quem fugíamos.


O DEUS DOS CAMINHOS IMPROVÁVEIS


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