Quando o Estado reconhece a igreja, o que ela entrega em troca? Um alerta sobre o risco de a igreja se tornar capelã do poder, seja de direita ou de esquerda.
O Palácio aplaude a cultura gospel e a igreja celebra. Mas na sombra do reconhecimento oficial, a pergunta de um teólogo que enfrentou o nazismo ecoa mais alto do que nunca: o que estamos entregando em troca?
Uma Palavra Necessária Antes de Prosseguir
Este artigo usa a teologia de Dietrich Bonhoeffer como lente de análise para discernir relações entre igreja e Estado no Brasil contemporâneo. Antes de prosseguir, é importante esclarecer três pontos: 1. Não estamos comparando contextos históricos como idênticos. A Alemanha nazista de 1933 não é o Brasil de 2025. As diferenças de contexto histórico, político e social são enormes e devem ser reconhecidas; 2. Não estamos equiparando personagens políticos. Lula não é Hitler. Bolsonaro não é Hitler. Nenhum líder político brasileiro atual pode ser comparado ao ditador nazista. Fazer essa comparação seria historicamente irresponsável e teologicamente impreciso; 3. O que fazemos é aplicar princípios teológicos. Bonhoeffer desenvolveu princípios sobre como a igreja deve se relacionar com o poder estatal — princípios que são atemporais e aplicáveis a qualquer contexto. O que buscamos aqui é identificar dinâmicas onde a igreja corre o risco de perder sua identidade em Cristo e sua voz profética, independentemente do espectro político do governo em questão. A crítica aqui não é a um governo específico, mas à dinâmica de captura — seja ela vinda da direita ou da esquerda. Porque, como Bonhoeffer nos ensinou, a igreja não pertence a nenhum partido político. Ela pertence a Cristo.
O Decreto e a Pergunta Incômoda
No dia 23 de dezembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que reconhece a cultura gospel (incluindo música, manifestações cênicas, literárias e audiovisuais de caráter religioso cristão) como manifestação cultural nacional, com diretrizes para sua valorização, promoção e proteção.
A cerimônia no Palácio do Planalto contou com a presença da primeira-dama Janja, da ministra da Cultura, Margareth Menezes, de parlamentares e de diversos artistas gospel, incluindo o pastor e cantor Kleber Lucas. O presidente Lula declarou que a iniciativa reconhece a “força simbólica profunda” da cultura gospel e faz “justiça ao povo evangélico”.
A mídia, de espectros políticos variados, interpretou o ato como um aceno estratégico ao eleitorado evangélico, segmento com alta rejeição a Lula, visando as eleições de 2026.
A Pergunta Necessária
A pergunta que Dietrich Bonhoeffer faria não é: “Esse decreto é bom ou ruim para a cultura gospel?” A pergunta seria: “O que a igreja entrega em troca desse reconhecimento?”
Porque, para Bonhoeffer, toda relação entre igreja e Estado exige discernimento. O Estado pode reconhecer a igreja, pode até protegê-la — mas quando a igreja aceita esse reconhecimento sem questionar o custo, ela corre o risco de se tornar capelã do poder.

O Risco da Instrumentalização: A Igreja Como Moeda de Troca Política
Bonhoeffer viveu na Alemanha nazista e testemunhou como o Estado pode instrumentalizar a igreja para seus próprios fins. O regime nazista não destruiu a igreja imediatamente — ele a capturou. Ofereceu reconhecimento, proteção, até privilégios. E muitos pastores aceitaram, achando que estavam “ganhando espaço” para o Evangelho.
O resultado? A igreja perdeu sua voz profética. Ela deixou de criticar as injustiças do regime porque estava ocupada cantando no palácio.
No Brasil de 2025, a dinâmica é diferente, mas o princípio permanece: quando a igreja aceita reconhecimento do Estado sem discernir o contexto, ela corre o risco de ser instrumentalizada. A pergunta não é se a cultura gospel merece reconhecimento (merece). A pergunta é: por que agora? Por que dessa forma? E o que o governo espera em troca?
A resposta da mídia é clara: trata-se de um aceno eleitoral. O governo, enfrentando alta rejeição entre evangélicos, busca reverter essa tendência. E a igreja, ao aceitar o convite para estar presente no Palácio, oferece — consciente ou inconscientemente — legitimação política.
Profeta vs. Capelã: A Escolha Inevitável Diante do Poder
Bonhoeffer fazia uma distinção crucial entre duas posturas da igreja diante do poder. Em obras como Discipulado e Ética, ele desenvolveu essa tensão:
A Igreja como Profeta:
- Critica o Estado quando ele ultrapassa seus limites
- Defende os oprimidos, mesmo quando isso desagrada o governo
- Mantém sua independência e liberdade para dizer “não”
- Não confunde reconhecimento cultural com lealdade política
A Igreja como Capelã:
- Legitima o Estado em troca de privilégios
- Silencia sobre injustiças para não perder “espaço”
- Confunde fidelidade a Cristo com fidelidade ao governo
- Torna-se instrumento de propaganda política
A cerimônia de 23 de dezembro levanta a questão: qual dessas posturas a igreja evangélica brasileira está assumindo?
Quando artistas cristãos posam sorrindo ao lado do presidente, quando líderes religiosos celebram o decreto como “vitória” — o que está sendo comunicado?
Está sendo comunicado que a igreja apoia o governo? Que a igreja está disponível para ser usada como instrumento eleitoral? Ou está sendo comunicado apenas que a igreja agradece o reconhecimento cultural, mas mantém sua liberdade para criticar quando necessário?
O Padrão que se Repete: Da Direita à Esquerda, a Tentação é a Mesma
É crucial reconhecer: isso não é exclusividade de um governo ou de um espectro político. A igreja evangélica brasileira tem um histórico de confundir reconhecimento político com fidelidade a Cristo.
Nos últimos anos, vimos pastores apoiando Bolsonaro de forma acrítica, tratando-o como “ungido de Deus”, silenciando sobre injustiças e abusos em troca de acesso ao poder. Agora, vemos o mesmo padrão se repetindo do outro lado: um governo de esquerda oferecendo reconhecimento, e parte da igreja aceitando sem discernir o custo. Há, inclusive, pastores que se movimentam convenientemente entre diferentes líderes políticos, procurando posar ao lado de quem está no poder, não importa o viés ideológico.
Por mais óbvio que seja, devemos relembrar sempre: a igreja não pertence à esquerda nem à direita. Ela pertence a Cristo. E quando ela se vende — seja para Bolsonaro, seja para Lula, seja para qualquer outro — ela deixa de ser corpo de Cristo e vira capelania do poder.
Para Além da Celebração: Discernimento, Silêncio e uma Alternativa Profética
O Decreto É Bom ou Ruim? A Pergunta Errada
Muitos evangélicos estão celebrando o decreto como uma “vitória” — finalmente, o reconhecimento que a cultura gospel merece. Outros estão criticando como “manipulação eleitoral”. Mas talvez ambos estejam fazendo a pergunta errada.
A pergunta não é: “O decreto é bom ou ruim?” A pergunta é: “O que a igreja está comunicando ao aceitar esse reconhecimento de forma tão acrítica?”
Porque reconhecer a cultura gospel como manifestação cultural brasileira pode ser, em si, justo. A música gospel é parte da cultura brasileira. Ela merece ser valorizada. Mas quando esse reconhecimento vem envolto em uma cerimônia política, com presença de líderes religiosos no Palácio, em ano pré-eleitoral, com um governo que enfrenta alta rejeição entre evangélicos — a mensagem é clara: isso não é apenas reconhecimento cultural. É estratégia política.
E a igreja precisa discernir isso. Precisa ser capaz de dizer: “Agradecemos o reconhecimento, mas não confundimos isso com apoio político. Continuaremos criticando injustiças, defendendo oprimidos e mantendo nossa liberdade profética.”
O Silêncio que Grita: O que Não foi Dito no Palácio
O que chamou a atenção na cerimônia não foi apenas o que foi dito, mas o que não foi dito.
- Alguém perguntou sobre as políticas estratégicas do governo? Sobre a fome, o desemprego, a violência?
- Alguém perguntou sobre corrupção? Sobre transparência? Sobre justiça?
- Alguém lembrou que a igreja tem uma responsabilidade profética de questionar o poder, não apenas celebrá-lo?
Como Bonhoeffer alertou, uma igreja que se cala para preservar sua segurança institucional assina sua própria sentença de óbito espiritual. A igreja que quer apenas salvar a sua própria existência já não é a igreja de Cristo. E quando a igreja vai ao Palácio e celebra, mas não questiona, ela está silenciando. Ela está comunicando que está disponível para ser usada, desde que receba reconhecimento em troca.
O Caminho Estreito: Como Receber Reconhecimento Sem se Vender
Mas há uma alternativa. É possível receber reconhecimento sem se vender. É possível agradecer sem se comprometer. É possível estar presente sem perder a voz profética.
Como ser a Igreja Profética Hoje? Passos Práticos
1. Reconhecer o decreto pelo que ele é
Um ato político em ano pré-eleitoral, não apenas reconhecimento cultural. Discernir o contexto é o primeiro passo para manter a liberdade profética. Os representantes da igreja, assim, poderiam ter aconselhado o governo a fazer o decreto e a cerimônia em momento mais oportuno.
2. Agradecer, mas manter distância crítica
“Agradecemos o reconhecimento, mas isso não significa apoio político automático.” A igreja pode receber sem se comprometer. Quando os representantes da igreja são os mesmos que, declaradamente, são também militantes do partido e dos políticos no poder, as intenções ficam escancaradas.
3. Continuar criticando injustiças
Não silenciar sobre corrupção, fome, violência ou qualquer outro problema, independentemente de quem está no poder. A voz profética não pode ser negociada.
4. Reafirmar a lealdade última
“Nossa lealdade é a Cristo, não a Lula, não a Bolsonaro, não a nenhum líder humano.” Como Bonhoeffer ensinou em Discipulado, o custo de seguir a Cristo inclui a liberdade de dizer “não” a qualquer outro senhor.
5. Educar a comunidade
Pastores e líderes precisam ensinar suas igrejas a discernir. Não basta criticar o governo — é preciso formar cristãos que entendam a diferença entre reconhecimento cultural e lealdade política.
Para Bonhoeffer, o cristão vive em uma ‘mundanidade santa’: totalmente imerso na realidade do mundo, mas obedecendo exclusivamente a Cristo. A igreja pode dialogar com o poder, mas nunca pode confundir sua missão: ela existe para a cidade, mas pertence somente ao Senhor.
Questões Que Ficam: A Quem Pertencemos? A Resposta que Nenhum Decreto Pode Dar
A pergunta que precisamos nos fazer todos os dias é: a quem pertencemos?
Quando a igreja celebra no Palácio, quando líderes religiosos posam ao lado do presidente, quando artistas gospel comemoram o decreto sem questionar o contexto — a quem eles estão comunicando que pertencem?
A Cristo? Ou ao poder que oferece reconhecimento?
A resposta não pode ser “aos dois”. Porque, como Jesus disse, “ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24). E quando o Estado oferece reconhecimento em troca de legitimação política, a igreja precisa discernir: o que estamos entregando em troca?
Bonhoeffer pagou com a vida por essa clareza. Ele se recusou a cantar no palácio de Hitler. Ele se recusou a legitimar um regime injusto, mesmo quando isso lhe custou privilégios, liberdade e, finalmente, a vida.
Não estamos vivendo sob um regime nazista. Não estamos comparando Lula (ou Bolsonaro) a Hitler. Mas o princípio permanece: a igreja não pode se vender. Não pode trocar sua voz profética por reconhecimento. Não pode confundir fidelidade a Cristo com fidelidade ao poder.
Porque, no fim, a única pergunta que importa é: a quem pertencemos?
E a resposta não pode ser escrita em um decreto. Ela precisa ser vivida, dia após dia, em fidelidade ao único Senhor que morreu por nós — e ressuscitou.
Em Busca do Discernimento
No tempo em que o reconhecimento do Estado parece uma vitória, a obra-prima de Bonhoeffer é o mapa que nos impede de confundir o caminho do poder com o caminho da cruz.

Se a análise sobre a igreja e o poder acendeu um alerta em você, a Ética é o laboratório onde Bonhoeffer forjou as respostas. Escrito em meio à escuridão da Alemanha nazista, este não é um tratado acadêmico distante; é o testamento de um homem lutando para discernir como ser fiel a Cristo em um mundo de concessões, ambiguidades e decisões impossíveis. Mais do que um livro, a Ética é uma bússola teológica para a ação responsável. Ela não oferece regras fáceis, mas nos ensina a pensar, a agir e a assumir a responsabilidade como cristãos no mundo real, não em uma bolha idealista.
Troque a confusão do momento pela clareza de quem viveu o extremo. Sua voz profética começa nestas páginas









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