Você já entrou em um shopping “só para dar uma olhada” e saiu cheio de sacolas? Você acabou de participar de uma liturgia. E ela está moldando o seu coração mais do que você imagina
📚 LIVRO DA SEMANA
Você entra no shopping “só para dar uma olhada”. Três horas depois, sai com sacolas cheias de coisas que não planejava comprar. No caminho, nota que a arquitetura do shopping bloqueou completamente a visão do mundo exterior – as vitrines brilhantes, a luz difusa, a música ambiente, tudo conspirou para criar um universo autônomo onde consumir parecia natural, até necessário.
Você acabou de experimentar uma liturgia secular.
Essa é a tese provocativa de James K. A. Smith, filósofo da Calvin University e um dos pensadores cristãos mais importantes da atualidade. Em Você é Aquilo que Ama, ele argumenta que não somos primariamente “cérebros ambulantes” que precisam de melhores argumentos teológicos. Somos animais litúrgicos – criaturas moldadas por práticas, rituais e hábitos que educam nossos desejos, frequentemente sem que percebamos.
Há uma questão urgente: se não estamos atentos, liturgias seculares rivais estão formando nossos amores para adorar deuses falsos.
O Problema: Descartes nos Enganou
Smith começa identificando o erro fundamental que domina o evangelicalismo contemporâneo: o que ele chama de “cartesianismo cristão” – a herança de René Descartes (“Penso, logo existo”) que reduz ser humano a “cérebro ambulante”.
Essa visão produziu um modelo de discipulado centrado em informação: se apenas ensinarmos teologia correta, as pessoas viverão corretamente. Se apenas dermos melhores argumentos apologéticos, as pessoas crerão. Se apenas explicarmos cosmovisão cristã, as pessoas transformarão a cultura.
Mas não funciona assim. Como Agostinho reconheceu há 1600 anos, somos primariamente amantes, não pensadores. Não somos movidos principalmente por ideias, mas por desejos. Como Smith escreve:
“Jesus não é professor que apenas informa nosso intelecto, mas forma nossos próprios amores. Ele não se contenta em simplesmente depositar novas ideias em sua mente; Ele persegue nada menos que seus desejos, seus amores, seus anseios.”
O que você ama determina quem você é. E o problema? Você pode não amar o que pensa que ama.
Liturgias Culturais: Como Somos Formados Sem Perceber
A virada de chave do livro: Smith nos convida a reconhecer que todas as práticas culturais significativas funcionam como liturgias – rituais repetitivos que educam nossos desejos e moldam nossos amores.
Uma liturgia não é apenas “ordem de culto”. É qualquer prática repetitiva que, através de narrativas incorporadas, forma nossa imaginação sobre o que constitui vida boa, o que merece nosso amor, o que é o “reino” que buscamos.
Exemplos de liturgias seculares:
O shopping: Arquitetura que cria um mundo autossuficiente. Vitrines como ícones que proclamam: “Você precisa disso para ser feliz.” Música ambiente que cria atmosfera de possibilidade infinita. Narrativa subjacente: consumo = felicidade. Liturgia do materialismo.
Estádio esportivo: Cânticos coletivos, símbolos tribais (camisas, bandeiras), hinos de batalha, rituais de vitória, devoção a heróis (jogadores). Narrativa subjacente: glória através de vitória tribal. Liturgia do nacionalismo/tribalismo.
Universidade secular: Credenciais como salvação, conhecimento como redenção, progresso como escatologia, autonomia como virtude suprema. Narrativa subjacente: iluminação intelectual = liberação. Liturgia do humanismo secular.
Redes sociais: Ritual diário de “checar” feeds, busca por validação (likes/compartilhamentos), curadoria de identidade projetada, comparação constante. Narrativa subjacente: você é o que projeta; validação externa = valor. Liturgia do narcisismo.
O ponto crucial: Essas liturgias não apenas nos ensinam ideias. Elas treinam nossos corações para amar certas versões de “reino”, nos ensinam implicitamente o que é vida desejável.
Como Smith adverte: “o que está em jogo na formação de seus amores é sua identidade
religiosa e espiritual, que se manifesta não apenas naquilo que você pensa ou crê, mas naquilo que você faz e naquilo que essas práticas fazem a você”.
Você Pode Não Amar o Que Pensa Que Ama
O segundo capítulo do livro tem título perturbador: “Você Pode Não Amar o Que Pensa”. Smith nos força a reconhecer: nosso amor mais sincero está menos no que nossa cabeça pensa e mais no que nossos hábitos revelam.
Dizemos que amamos a Deus. Mas:
- Passamos 3 horas por dia em redes sociais e 15 minutos em oração.
- Gastamos mais com entretenimento que com generosidade.
- Nosso calendário revela adoração a produtividade, não a Cristo.
- Nossas conversas giram em torno de política, esportes, séries – raramente Reino de Deus.
Não é que sejamos hipócritas conscientes. É que liturgias rivais formaram nossos desejos sem que percebêssemos. Fomos “discipulados” pelo shopping, pela Netflix, pelo Instagram, pela cultura de trabalho – e essas liturgias seculares competem (e frequentemente vencem) contra uma hora de culto dominical.
Calvino disse que o coração humano é “fábrica de ídolos”. Smith adiciona: nossas idolatrias são mais litúrgicas que teológicas. Não adoramos ídolos porque temos teologia errada. Adoramos ídolos porque fomos formados por práticas que nos ensinaram a amá-los.
A Solução: Adoração Como Reorientação do Amor
Se o problema é formação litúrgica rival, a solução não é apenas melhor informação teológica. É contra-formação litúrgica. Precisamos de práticas cristãs robustas que eduquem nossos desejos na direção certa.
E aqui está a beleza da tese de Smith: a igreja já tem essas práticas. Foram dadas por Cristo, preservadas por séculos, e muitas vezes negligenciadas por evangelicalismo contemporâneo em busca de “relevância”.
Adoração corporativa como centro do discipulado:
Smith argumenta que adoração dominical não é apenas “uma das coisas que cristãos fazem”. É estação central de formação espiritual – o lugar onde a contra-liturgia do Reino é praticada, onde imaginação é recalibrada, onde amores são reorientados.
Elementos litúrgicos tradicionais não são formalismo vazio. São pedagogias do desejo:
Chamado à adoração: Somos convocados para fora de nós mesmos, lembramos que não somos o centro.
Confissão de pecado: Nomeamos idolatrias, reconhecemos fracassos, rejeitamos autonomia.
Declaração de perdão: Ouvimos absolvição, recebemos graça, somos libertados de performance.
Leitura da Escritura: Entramos em uma história maior que nossa narrativa autocentrada.
Pregação: Palavra nos interpreta (não vice-versa), expondo ídolos e apontando para Cristo.
Credo: Confessamos juntos quem Deus é, reafirmamos identidade corporativa.
Eucaristia: Comemos e bebemos Cristo, incorporamos literalmente o Evangelho.
Bênção: Somos enviados ao mundo como embaixadores do Reino.
Cada elemento é prática corporal que, através de repetição ao longo de anos, forma nossos desejos. Como James K. A. Smith nos lembra, a adoração cristã não visa apenas nos informar, mas nos formar. Ela nos convida para dentro da história bíblica, não apenas para entendê-la, mas para ‘incorporá-la’ e deixar que ela nos ‘tome pelas entranhas.
Aplicações Práticas: Além do Domingo
Smith não para na adoração corporativa. Dedica capítulos inteiros a aplicar princípio de formação litúrgica a diferentes esferas:
Família: Criar ritmos litúrgicos em casa – refeições juntos, orações antes de dormir, calendário litúrgico cristão (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Pentecostes), culto familiar simples. Cores litúrgicas decoram casa conforme estação. Histórias bíblicas se tornam textura da vida familiar.
Educação: Reconhecer que educação sempre forma desejos (não apenas transmite informação). Escolas cristãs que integram adoração, não apenas adicionam “aula de Bíblia”. Formação que trata alunos como “animais litúrgicos”, não apenas “cérebros a serem enchidos”.
Trabalho: Vocação não é apenas “aplicar princípios cristãos no trabalho”, mas reconhecer trabalho como liturgia – práticas repetidas que formam quem somos. Perguntar: meu trabalho está me formando para amar Cristo ou amar ídolos (dinheiro, status, poder)?
Ministério com jovens: Pare de tentar “competir” com liturgias seculares (shows, jogos, entretenimento). Ofereça contra-liturgias robustas que formem imaginação cristã – adoração contemplativa, estudo bíblico profundo, serviço sacrificial, comunidade vulnerável.
Por Que Este Livro Incomoda (e Por Que Isso É Bom)
Você é Aquilo que Ama incomoda porque expõe o quanto evangelicalismo contemporâneo capitulou a liturgias seculares sem perceber.
Incomoda igrejas “seeker-sensitive”(sensível ao buscador) que arquitetonicamente imitam shopping centers e funcionalmente operam como entretenimento religioso. Smith adverte: quando igreja parece shopping, pessoas inconscientemente aproximam-se com mentalidade consumista.
Incomoda movimentos de “igreja contemporânea” que abandonaram práticas litúrgicas tradicionais como “formalismo morto”. Smith mostra: essas práticas não são vazias – são pedagogias do desejo testadas por séculos.
Incomoda evangélicos intelectuais que pensam que transformação vem principalmente de livros, conferências e debates teológicos. Smith insiste: intelecto importa, mas formação do desejo acontece primariamente através de práticas corporais repetidas.
Incomoda protestantes anti-litúrgicos que veem qualquer estrutura como “catolicismo”. Smith (reformado!) recupera sabedoria litúrgica sem abraçar teologia católico-romana.
Incomoda a cultura de “autenticidade” que rejeita “ir através dos movimentos”. Smith argumenta: há virtude em práticas mesmo quando coração não está “sentindo” – porque práticas formam coração ao longo do tempo.
Esse desconforto é precisamente o que torna o livro indispensável. Ele nos desperta para reconhecer: liturgias seculares estão vencendo porque são mais robustas, mais frequentes, mais envolventes que uma hora de culto dominical.
Para Quem Este Livro é Indispensável
Para pastores e líderes de adoração: Este livro revolucionará como você pensa sobre domingo. Adoração não é “preliminar” antes do sermão. É centro de formação espiritual. Cada elemento importa. Você está curando liturgia com sabedoria ou replicando cultura secular?
Para pais: Se você quer formar filhos cristãos, informação não basta. Precisa criar ritmos litúrgicos em casa – práticas repetidas que formam imaginação para amar Cristo e seu Reino.
Para educadores cristãos: Pare de pensar educação como “transmitir informação + adicionar oração”. Comece a pensar como formação litúrgica integral – todo aspecto da escola (espaço físico, ritmos diários, práticas corporativas) forma desejos.
Para quem está cansado de “guerras de adoração”: Smith oferece o framework teológico para avaliar práticas litúrgicas não por preferência estética, mas por poder formativo. A questão não é “tradicional vs. contemporâneo”, mas “que história essa liturgia está contando?”
Para quem sente que cultura está moldando você mais que Cristo: Este livro diagnostica o problema e oferece caminho de volta – não através de mais estudo bíblico (embora importante), mas através de imersão em contra-liturgias robustas do Reino.
Ame Bem Para Viver Bem
Você é Aquilo que Ama recupera insight agostiniano central: somos animais litúrgicos cujos amores são formados por adoração. E adoração não é opcional – sempre adoramos algo. A questão é: adoramos bem?
Liturgias seculares estão formando uma geração para adorar consumo, entretenimento, autonomia, validação externa, sucesso material. E muitas igrejas, tentando ser “relevantes”, replicam essas liturgias em vez de oferecer contra-liturgia robusta do Reino.
A esperança? Deus nos deu práticas – adoração corporativa, Escritura, oração, Eucaristia, ritmos do calendário cristão, vida comunitária – que, quando praticadas fielmente ao longo do tempo, recalibram nossos desejos, reorientam nossos amores, e nos formam como cidadãos do Reino.
Como Smith conclui: “Discipulado precisa ser centrado e alimentado por nossa imersão no corpo de Cristo.”
Não é mais informação que precisamos. É contra-formação litúrgica – práticas repetidas que implantam história bíblica em nossos ossos, até que amar a Deus se torne nossa segunda natureza.
Que a leitura deste livro desperte igrejas para recuperar tesouros litúrgicos esquecidos, famílias para criar ritmos santos em casa, e indivíduos para reconhecer: você é aquilo que ama. E amor se aprende através de prática.
Ficha Técnica
Título: Você é Aquilo que Ama: O Poder Espiritual do Hábito
Título original: You Are What You Love: The Spiritual Power of Habit (2016)
Autor: James K. A. Smith (PhD Villanova, Professor de Filosofia Calvin University, Editor Comment Magazine)
Editora: Edições Vida Nova
Publicação Brasil: 2017
Páginas: 256
Disponível: Impresso, eBook, Audiobook
Prêmio: Melhor Livro 2016 – The Word Guild Canadian Writing Awards
Parte da trilogia “Liturgias Culturais”: Desejando o Reino (2018), Imaginando o Reino (2019), Aguardando o Rei (2020) – todos pela Vida Nova
Público: Pastores, líderes de adoração, educadores cristãos, pais, qualquer cristão preocupado com formação espiritual
Nível: Acessível mas profundo – não exige formação filosófica, mas requer reflexão
Temas: Liturgia, formação espiritual, adoração, desejo, hábitos, liturgias seculares, discipulado, educação cristã
Indicação: ★★★★★ (Indispensável)
Você já leu Você é Aquilo que Ama? Que liturgias seculares você reconhece moldando seus desejos? Como sua igreja está formando amores através de práticas litúrgicas? Compartilhe nos comentários suas reflexões sobre formação espiritual e o poder das práticas repetidas.
Em quem suas práticas estão transformando você?
Você pode conhecer a doutrina correta.
Pode frequentar a igreja.
Pode até defender a fé com bons argumentos.
Mas a pergunta decisiva permanece: o que, de fato, está formando seus amores?

Você é Aquilo que Ama é um livro que desmonta nossas falsas seguranças espirituais. James K. A. Smith mostra, com lucidez e profundidade pastoral, que o verdadeiro discipulado não acontece apenas na mente, mas no coração moldado por hábitos, práticas e rotinas diárias. Não somos transformados apenas pelo que pensamos, mas pelo que repetidamente fazemos e, assim, aprendemos a amar.
Se você sente que a cultura está moldando mais seus desejos do que o Evangelho.
Se percebe que o culto virou rotina, mas não transformação.
Se deseja formar sua fé, sua família e sua igreja de maneira mais profunda e duradoura.
📘 Você é Aquilo que Ama é leitura necessária.
👉 Leia e aprenda a amar melhor, para viver melhor
Porque seguir Jesus não é apenas crer corretamente.
É aprender, dia após dia, a amar o Reino mais do que os reinos rivais.









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