Paulo de Tarso: O Apóstolo Mais Odiado (E Por Que Seus Críticos Estão Errados)

Paulo de Tarso é, sem dúvida, a figura mais controversa do cristianismo primitivo. Para seus admiradores, ele é o apóstolo que levou o evangelho aos gentios e articulou a teologia cristã de forma definitiva. Para seus críticos — de Nietzsche a autores ateus contemporâneos — ele é o homem que “inventou” o cristianismo, transformou um movimento ético libertador em religião repressiva, e criou a culpa cristã que assombra a civilização ocidental.

Mas será que essas acusações resistem ao escrutínio histórico? Ou são retórica poderosa disfarçada de erudição?

A Acusação Central: Paulo “Inventou” o Cristianismo?

A tese é sedutora. Jesus, dizem os críticos, era um pregador apocalíptico judeu, marginal, que ensinava ética simples através de parábolas e chamava as pessoas ao arrependimento. Ele não fundou uma religião. Não criou dogmas complexos. Não falou de “pecado original” ou “salvação pela fé no sangue de Cristo”.

Então entra Paulo. Um fariseu educado, cidadão romano, imerso na filosofia helenística. Alguém que nunca conheceu Jesus pessoalmente. E, no entanto, é Paulo quem transforma esse pregador galileu marginal em Cristo cósmico, Senhor divino, sacrifício expiatório universal. É Paulo quem articula sistematicamente a linguagem da cruz, ressurreição, justificação pela fé, eleição e predestinação.

A conclusão dos críticos? Se você tirar Paulo do cristianismo, o que sobra? Um Jesus ético, um profeta judeu. Mas não uma religião universal. Logo, Paulo inventou o cristianismo.

A Prova do Contrário: O Credo que Paulo Recebeu, Não Criou

A acusação é poderosa, mas tem um problema fundamental: ela assume o que precisa provar. Para dizer que Paulo “inventou” o cristianismo, seria necessário mostrar que antes dele ninguém cria em Jesus como Messias divino ou em sua morte como sacrifício. Os dados históricos, no entanto, não sustentam isso.

Vamos começar com o próprio Paulo. Em 1 Coríntios 15.3-5, ele escreve:

“Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze.”

Repare na linguagem: “recebi… transmiti”. Isso é terminologia técnica rabínica para a transmissão de tradição oral. Paulo não está dizendo “eu inventei isso”. Ele está dizendo “eu recebi isso de outros e agora estou passando adiante”. Isso significa que a fé em Cristo crucificado e ressuscitado precede Paulo.

Estudiosos do Novo Testamento — incluindo críticos como E.P. Sanders e até Bart Ehrman — reconhecem que essa confissão em 1 Coríntios 15 é provavelmente uma das tradições cristãs mais antigas que possuímos, datando de poucos anos após a crucificação. Ou seja, antes de Paulo escrever uma única carta, já existia uma comunidade que cria no cerne do Evangelho.

Helenização de Jesus: Paulo Foi um Tradutor ou um Traidor?

A outra acusação é que Paulo helenizou Jesus, pegando um Messias judeu e o transformando em uma figura mítica palatável ao mundo greco-romano. Ele teria importado conceitos como logos, pneuma e dualismo corpo-alma.

Isso é parcialmente verdade — mas não da forma que os críticos sugerem. Sim, Paulo usa linguagem filosófica grega para audiências gentílicas. Mas isso não é “invenção”; é tradução. Quando missionários chegaram ao Brasil e traduziram a Bíblia para o português, eles “inventaram” o cristianismo brasileiro ou contextualizaram a mensagem?

Paulo está fazendo exatamente isso: articulando o núcleo judaico da fé (Messias, ressurreição, cumprimento das Escrituras) em uma linguagem que os gentios pudessem entender. Além disso, a cristologia alta — a crença em Jesus como Senhor divino — precede Paulo. Hinos como Filipenses 2.6-11 e Colossenses 1.15-20 são, muito provavelmente, tradições litúrgicas pré-paulinas que ele está citando. Isso destrói a tese de que Paulo inventou a divindade de Cristo.

A Conversão em Damasco: Alucinação Psicótica ou Encontro Real?

Os críticos então apontam para a conversão de Paulo, diagnosticando-a como “alucinação”, “surto psicótico” ou histeria de um homem sexualmente reprimido. Nietzsche o chama de “gênio em matéria de ódio”. O problema com essa abordagem? Ela substitui historiografia por psiquiatria à distância. Diagnosticar alguém que morreu há 2.000 anos é retórica, não método.

Mas vamos além. Paulo não foi aceito automaticamente pelas comunidades cristãs. Em Gálatas 1-2, ele relata que teve que ir a Jerusalém e se encontrar com Pedro, Tiago e João. Houve debate e tensão. No final, eles o reconheceram. Esse não é o comportamento de um “inventor solitário”, mas de alguém se integrando a uma tradição já existente.

O Argumento do Silêncio: Paulo Ignorou o Jesus Histórico?

Outra acusação comum: como Paulo não menciona as parábolas ou milagres de Jesus, ele teria ignorado o Jesus histórico. Essa crítica comete o erro do “argumento do silêncio”. As cartas de Paulo são textos ocasionais, respondendo a problemas específicos, não biografias.

No entanto, Paulo cita o ensino de Jesus quando relevante:

  • Em 1 Coríntios 7.10-11, sobre o divórcio: “…ordeno, não eu, mas o Senhor…”
  • Em 1 Coríntios 9.14, sobre o sustento dos pregadores: “…o Senhor ordenou que os que pregam o evangelho vivam do evangelho.”
  • Em 1 Coríntios 11.23-25, ele transmite a tradição da Última Ceia: “Pois recebi do Senhor o que também lhes transmiti…”

O foco de Paulo na cruz e ressurreição não anula a vida de Jesus; ele a fundamenta. Com a ressurreição, as parábolas se tornam palavras do Senhor que governa o cosmos.

O Criador da Culpa? A Verdade Sobre Paulo, o Pecado e o Corpo

Chegamos a uma das acusações mais viscerais: Paulo inventou a culpa cristã e o desprezo pelo corpo. Nietzsche o acusa de criar o “ideal ascético”. Isso ignora dois fatos cruciais.

Primeiro, a doutrina do pecado está enraizada no Antigo Testamento, em textos como Gênesis 6.5, Salmo 51.5 e Jeremias 17.9. Paulo não está inventando uma antropologia pessimista; está desenvolvendo uma tradição judaica.

Mais Judeu que Platônico: Por que Paulo Defendia a Ressurreição Corporal

Segundo, Paulo não “odeia o corpo”. Ele defende a ressurreição corporal. Se ele desprezasse o corpo, por que dedicaria 1 Coríntios 15 à sua defesa? Por que diria que “o corpo é templo do Espírito Santo” (1 Coríntios 6.19)? A esperança cristã paulina inclui a redenção do corpo (Romanos 8.23), não a fuga dele.

Quando Paulo fala contra a “carne” (sarx), ele não se refere ao corpo físico, mas à natureza humana caída. As “obras da carne” em Gálatas 5 incluem inveja, ira e divisões — coisas que não têm a ver com o corpo físico. Paulo não é inimigo do corpo; ele é inimigo do pecado que corrompe o corpo.

Ética vs. Fé: Paulo Aboliu o “Agir” ou o Libertou?

A acusação aqui é que Paulo substituiu a ética de Jesus (“ame o próximo”) pela teologia abstrata (“creia que Cristo morreu por você”). Mas isso é uma falsa oposição. Paulo não substitui a ética; ele a fundamenta na fé. Basta ler as longas seções éticas de suas cartas (Romanos 12-15, Gálatas 5-6, Efésios 4-6).

A diferença é esta: para Paulo, a ética não é o meio para a salvação, mas a resposta à salvação já recebida. Você não obedece para ser salvo; você obedece porque foi salvo. Isso não abole a ética; a liberta da ansiedade do desempenho.

O Terreno Espinhoso: Mulheres, Escravidão e Autoridade

Os críticos apontam para textos sobre a submissão de mulheres e escravos para rotular Paulo como opressor. É preciso honestidade intelectual. Sim, Paulo opera dentro das estruturas do primeiro século. Ele não é um feminista moderno.

Mas a análise dos críticos é superficial. Em Efésios 5, antes de dizer “Mulheres, sujeitem-se”, ele diz “Sujeitem-se uns aos outros” (v. 21). A mutualidade vem primeiro. E a ordem para os maridos é radical: “amem suas mulheres, como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (v. 25). Isso é subversão do patriarcado, exigindo amor sacrificial, não domínio.

Da mesma forma, ele não abole a escravidão por decreto, mas mina sua base teológica ao chamar o escravo Onésimo de “irmão amado” (Filemom 1.16) e declarar que em Cristo “não há escravo nem livre” (Gálatas 3.28). São sementes que floresceriam séculos depois.

Conclusão: Uma Caricatura com Retórica Forte, Mas Historiografia Fraca

As acusações contra Paulo são retoricamente poderosas, apelando para as suspeitas modernas sobre a religião. Contudo, elas não resistem ao escrutínio histórico.

Paulo não inventou o cristianismo; ele articulou tradições que já existiam. Ele não ignorou o Jesus histórico; ele interpretou o significado de sua vida. Ele não inventou a culpa; ele desenvolveu a antropologia judaica. Ele não aboliu a ética; ele a fundamentou na graça. Ele não criou uma religião de controle; ele subverteu estruturas de poder por dentro.

Você pode discordar de Paulo. Mas não pode caricaturá-lo usando psiquiatria especulativa e argumentos do silêncio. Porque, no final, a questão não é se Paulo era perfeito. É se ele estava certo sobre Jesus. E essa é a pergunta que os críticos raramente se atrevem a responder.

E para você, qual é a acusação mais persistente contra Paulo que você ouve? Compartilhe nos comentários.


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