Quando a Soberania se Torna Tirania: o Caso Venezuela

A madrugada de 3 de janeiro de 2026 dividiu o mundo. Enquanto forças especiais americanas capturavam Nicolás Maduro em Caracas, encerrando 26 anos de regime chavista, dois discursos opostos ecoavam simultaneamente: nas capitais do mundo, diplomatas citavam a Carta da ONU; nas ruas de Caracas, venezuelanos dançavam de alegria.

Quem está certo? Ou melhor: existe um critério moral objetivo para julgarmos esta ação, que vá além de polarizações ideológicas?

O debate público tem sido previsível. Analistas jurídicos invocam o direito internacional; comentaristas geopolíticos falam de petróleo e hegemonias; ideólogos de esquerda denunciam imperialismo americano; conservadores celebram a queda de um ditador socialista. Mas uma voz tem estado ausente: a da filosofia política cristã, que nos oferece ferramentas morais objetivas para avaliarmos não apenas a legalidade, mas a justiça desta intervenção.

Este artigo propõe uma análise a partir de dois pensadores fundamentais: Dietrich Bonhoeffer, o teólogo alemão que resistiu ao nazismo e desenvolveu uma ética cristã da responsabilidade política; e David Koyzis, filósofo político contemporâneo que nos ensina a identificar “idolatrias políticas” — momentos em que transformamos bens criados em absolutos que substituem Deus.

I. Ferramentas de Análise: Bonhoeffer e Koyzis

Antes de julgarmos a operação na Venezuela, precisamos de critérios claros. Duas tradições intelectuais cristãs nos fornecem lentes úteis:

Dietrich Bonhoeffer e a Ética da Responsabilidade

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) foi um pastor luterano alemão executado pelos nazistas semanas antes do fim da Segunda Guerra. Sua trajetória é emblemática: de um pacifismo acadêmico inicial até a participação ativa em uma conspiração para assassinar Hitler. O que mudou?

Bonhoeffer desenvolveu o que chamou de “ética da responsabilidade” — distinta tanto do legalismo (seguir regras abstratas independente das consequências) quanto do utilitarismo (fazer “o que funciona” sem critérios morais). Para ele, o cristão deve agir responsavelmente diante do próximo concreto que sofre, mesmo que isso signifique “sujar as mãos” violando normas formais.

Sua contribuição mais relevante para nosso tema são os três estágios da ação da Igreja contra o Estado injusto:

  1. Questionar verbalmente: Interpelar o governo sobre a legitimidade de suas ações
  2. Socorrer vítimas: Enfaixar feridas dos esmagados pela “roda do Estado”
  3. Travar a roda: Quando questionar e socorrer não bastam, é preciso arrancar o motorista do volante ou “enfiar um bastão nos raios da roda”¹

Bonhoeffer perguntava: Para quem existe o Estado? Se o Estado existe para proteger o povo, um governo que massacra seu povo deixou de ser Estado legítimo — tornou-se “Besta” (referência apocalíptica ao poder político idolatrado).

Abril de 1933. Adolf Hitler acaba de assumir o poder. A Alemanha vive uma euforia nacionalista, e muitas igrejas celebram o novo regime como um milagre divino. Mas, nos bastidores, uma lei silenciosa começa a excluir judeus da vida pública — e a igreja alemã cogita fazer o mesmo com seus pastores de origem judaica.

Enquanto a maioria se cala ou aplaude, o jovem teólogo Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) sobe à tribuna para proferir um dos textos mais corajosos e perigosos do século XX: “A Igreja diante da Questão Judaica”. Nesta Edição de Estudo, você terá acesso não apenas à tradução fiel deste documento histórico, mas a um guia completo para entender sua profundidade teológica e sua aplicação urgente para os dias de hoje.

David Koyzis e as Idolatrias Políticas

David Koyzis, em Visões e Ilusões Políticas (2021), nos ensina que ideologias políticas funcionam como religiões seculares: têm credos, narrativas de queda e redenção, e exigem lealdade última. O problema não é ter convicções políticas, mas quando a política vira nossa religião funcional.

Todas as ideologias, argumenta Koyzis, contêm “graça comum” — verdades parciais sobre a realidade. Mas se tornam idolátricas quando absolutizam um aspecto da criação. Exemplos:

  • Liberalismo: Absolutiza a autonomia individual (verdade parcial: dignidade da pessoa)
  • Socialismo: Absolutiza a igualdade material (verdade parcial: justiça econômica)
  • Nacionalismo: Absolutiza a nação (verdade parcial: importância da comunidade)

A questão venezuelana envolve uma idolatria específica: absolutizar a soberania nacional a ponto de defender tiranos que massacram seus povos.

As ideologias políticas não são uma mera questão de governança. Elas são intrínseca e inescapavelmente religiosas. Escrito sob uma perspectiva bastante ampla e analítica, Visões e ilusões políticas reafirma, em sua segunda edição ampliada e atualizada, o compromisso de ser um guia útil e sensível, sobretudo para aqueles que atuam na esfera pública, analistas culturais, eruditos, cientistas políticos, enfim, todos os que se interessam pelo pensamento político.

II. A Soberania como Ídolo: Quando um Bem se Torna Mal

A soberania nacional é um bem criado. Ela protege povos de interferências arbitrárias, permite autodeterminação, reconhece dignidade de comunidades distintas. Mas quando tratamos a soberania como valor último e inviolável, criamos uma narrativa que justifica qualquer atrocidade: “É assunto interno”, dizemos, enquanto milhões sofrem.

Apliquemos a pergunta bonhoefferiana: Para quem existe o Estado venezuelano? Para proteger o povo ou para proteger Maduro do povo?

Os fatos são incontornáveis:

  • Mais de 18.000 prisões políticas desde 2013 (Foro Penal)²
  • Mais de 8.200 execuções extrajudiciais entre 2015-2017 (Anistia Internacional)³
  • Fraude eleitoral sistemática, culminando em julho de 2024 quando a oposição comprovou vitória com 68,7% dos votos, mas o CNE declarou Maduro vencedor⁴
  • 7,9 milhões de refugiados — um quarto da população — o maior êxodo da história latino-americana (ACNUR)⁵

Quando Maduro massacrava manifestantes, executava extrajudicialmente milhares, fraudava eleições — de quem era esta “soberania”? Do povo venezuelano ou do aparato repressor que o mantinha refém?

A Venezuela esgotou os três estágios bonhoefferianos. A comunidade internacional questionou (timidamente). ONGs socorreram vítimas. Mas o motorista estava bêbado, a máquina acelerava rumo ao precipício. Quem teria autoridade moral para “travar a roda”?

E quando ninguém age, enquanto invocamos “direito internacional”, não nos tornamos cúmplices silenciosos? O direito que não serve à justiça concreta torna-se legalismo farisaico — exatamente o que Bonhoeffer combateu ao conspirar contra Hitler.

III. Realismo Político sem Cinismo: A Questão dos Interesses

Os críticos da operação têm razão em um ponto: os Estados Unidos não agiram por altruísmo puro.

Em coletiva de imprensa em Mar-a-Lago no dia 3 de janeiro, Trump declarou que os EUA “planejam ocupar o país e facilitar um maior envolvimento norte-americano na indústria petrolífera venezuelana”⁶. O Secretário de Estado Marco Rubio, em entrevistas subsequentes, destacou a necessidade de conter a influência de China e Rússia no hemisfério ocidental⁷. E oficialmente, a justificativa apresentada ao Departamento de Justiça foi o combate ao narcotráfico — Maduro é acusado de liderar o “Cartel de Los Soles”, com recompensa de US$ 50 milhões oferecida pelo DEA⁸.

Motivações geopolíticas são inegáveis. Mas aqui entra uma distinção filosófica crucial: uma ação pode ser moralmente justa mesmo quando motivada por interesses mistos, se o resultado concreto é a libertação de um povo oprimido.

A Tradição da Guerra Justa

A tradição cristã da guerra justa, formulada por Agostinho e refinada por Tomás de Aquino, nunca exigiu pureza absoluta de motivos. O que ela exige são cinco critérios:

  1. Causa justa: Há razão moral legítima para uso da força?
  2. Autoridade legítima: Quem age tem legitimidade para isso?
  3. Intenção reta: Busca-se genuinamente paz e justiça?
  4. Proporcionalidade: Os meios são adequados ao fim?
  5. Última instância: Outros meios foram esgotados?

A operação na Venezuela atende estes critérios?

Causa justa: Um regime que executou milhares, prendeu dezenas de milhares, fraudou eleições sistematicamente e provocou êxodo de um quarto da população é manifestamente tirânico. Remover tal regime é causa justa por definição.

Autoridade legítima: Juridicamente, nenhum Estado tem “autoridade” para intervir em outro. Mas filosoficamente, quando o próprio Estado-alvo se tornou ilegítimo (fraudando eleições, massacrando população), quem possui legitimidade? Koyzis nos lembraria: governos não são fins em si mesmos, mas instrumentos para o bem comum. Um “governo” que se tornou predador de seu povo perdeu legitimidade moral, ainda que mantenha aparato de controle.

Intenção reta: Complexa. Sim, há interesse em petróleo e contenção geopolítica. Mas a questão moral não é pureza da motivação, mas se o resultado serve genuinamente ao bem do povo venezuelano. E aqui entra o critério decisivo que a maioria dos analistas ignora:

IV. O Critério Esquecido: A Voz do Povo

A professora de filosofia política Bruna Torlai, em análise sobre a operação, articula com precisão: “Para avaliarmos como positiva ou negativa essa operação, temos que observar a reação do povo. O povo se sentiu feliz e considerou um bem a retirada do ditador do poder”⁹.

Este não é argumento populista. É o reconhecimento de um princípio político fundamental, profundamente cristão: o Estado existe para o povo, não o povo para o Estado. Quando debates sobre “soberania” e “direito internacional” abstraem completamente da experiência concreta dos venezuelanos — que celebraram nas ruas, que choraram de alívio, que agradeceram pela libertação — esses debates tornaram-se exercícios acadêmicos desconectados da realidade política.

Em resumo, as diversas manifestações de venezuelanos expressa que o povo passou 26 anos sob opressão. Tentaram a via democrática, manifestações, resistência interna. Não conseguiram. Por isso comemoram que uma força externa libertou o país de um problema que, sozinhos, não puderam resolver¹⁰.

Bonhoeffer chamaria isto de ética da responsabilidade em ação. Não a ética de mãos limpas que preserva princípios abstratos enquanto pessoas morrem, mas a ética que age concretamente — e está disposta a assumir a “culpa” de violar normas formais — para salvar vidas. O mártir alemão diria que quem evita se sujar, não salva o mundo… Aquele que age responsavelmente torna-se culpado¹¹.

V. Navegando Entre Babel e Nova Jerusalém

Reconhecer a justiça da remoção de Maduro não significa endossar ingenuamente tudo que seguirá. A análise koyzisiana nos protege de duas idolatrias opostas:

Idolatria da Esquerda: Absolutizar a “soberania” e o “anti-imperialismo” a ponto de defender ditadores que massacram seus povos. Esta é a graça comum (legítima preocupação com autodeterminação) transformada em ídolo que sacrifica pessoas reais em nome de princípios abstratos.

Idolatria da Direita: Absolutizar o “interesse nacional” americano e confundir libertação com ocupação imperial permanente. Trump afirmou que EUA “governarão até transição segura”¹² — mas quem define “segura”? Quanto tempo? Com que critérios de saída?

A sabedoria cristã navega entre esses extremos. Reconhecemos:

  1. A legitimidade da remoção: Maduro era um tirano, não um governante legítimo. Removê-lo foi ato de justiça, não crime.
  2. A ambiguidade dos libertadores: Os EUA agem por interesses mistos. Isso não invalida a justiça da ação, mas exige vigilância sobre o que vem depois.
  3. A realidade geopolítica: Venezuela não é potência. Nações menores existem sempre sob influência de maiores. A questão não é se haverá influência externa, mas qual influência serve melhor ao florescimento venezuelano.
  4. O teste pragmático: A Venezuela prosperou mais quando aliada aos EUA (pré-Chávez) ou quando aliada a China/Rússia sob Maduro? Os fatos são cristalinos: a primeira era gerou classe média e relativa prosperidade; a segunda gerou miséria, fome e êxodo.

VI. Penúltimo e Último: A Esperança que Não Idolatra

Bonhoeffer nos ensinou a distinção entre Último e Penúltimo: o Último é o Reino de Deus, a justificação pela fé, a volta de Cristo; o Penúltimo é a vida aqui e agora — comida, trabalho, governo, justiça. Nosso erro recorrente é confundir os dois.

Erro utópico: Esperar que a intervenção americana crie um paraíso venezuelano. Não criará. Governos humanos são imperfeitos. Haverá corrupção residual, transição dolorosa, interesses conflitantes. Quem espera o Reino pelo braço armado sofrerá decepção amarga.

Erro escapista: Dizer que, como nenhum governo é perfeito, tanto faz viver sob Maduro ou sob transição democrática. Este cinismo pseudo-espiritual abandona o Penúltimo ao diabo. Como Bonhoeffer nos lembra em Ética, ao faminto deve-se dar o pão… isso é preparação do caminho para a vinda da graça, pois o penúltimo deve ser preservado para que a última palavra da justificação possa ser ouvida¹³.

A sabedoria cristã cuida do Penúltimo por causa do Último. Trabalhamos por justiça aqui não porque este mundo seja nossa esperança final, mas porque servimos ao Deus que se importa com órfãos, viúvas e oprimidos. Remover tiranos não traz o Reino, mas prepara o caminho para que o evangelho seja ouvido por pessoas que não estão mais fugindo de balas ou morrendo de fome.

VII. E Agora? Vigilância sem Cinismo — Os Desafios Reais

A captura de Maduro foi o momento dramático, mas representa apenas o primeiro ato de um processo longo e complexo. Aqui reside o desafio mais árduo: remover um ditador é uma coisa; desmantelar todo o aparato institucional que ele criou para se sustentar no poder é outra vastamente mais complexa.

O chavismo não foi apenas Maduro. Foi 26 anos de aparelhamento sistemático:

Poder Judiciário: O Supremo Tribunal de Justiça é composto majoritariamente por magistrados nomeados politicamente. Desde 2004, quando Chávez expandiu o número de juízes e empilhou a corte com aliados, a independência judicial foi sistematicamente destruída¹⁴.

Forças Armadas: Generais e comandantes foram cooptados através de participação em negócios lucrativos (especialmente no setor petroleiro) e tolerância com corrupção. Forças militares venezuelanas não são neutras — são parte orgânica do regime¹⁵.

Burocracia estatal: Décadas de nomeações ideológicas criaram uma classe burocrática chavista enraizada em todos os níveis de governo, desde ministérios até governos locais.

Coletivos armados: Grupos paramilitares leais ao regime, que funcionaram como braço repressor extra-oficial, continuam existindo e armados¹⁶.

Economia: A PDVSA (petroleira estatal) está destruída — produção caiu de 3,2 milhões para 500 mil barris/dia. Reconstruí-la exigirá investimento massivo e anos de trabalho técnico. A hiperinflação (130.060% em 2018) destruiu a moeda e o sistema bancário¹⁷.

Capital humano: 7,9 milhões de venezuelanos — frequentemente os mais educados e qualificados — deixaram o país. Reconstruir sem essa força de trabalho será desafio hercúleo.

O Penúltimo, para os venezuelanos agora, significa ar puro depois de 26 anos sufocando, mas, não podemos ignorar que a simples remoção de Maduro inaugura instantaneamente uma nova realidade. Estamos afirmando algo mais modesto, mas crucial: a possibilidade de reconstrução agora existe, onde antes não existia.

É como a diferença entre um prisioneiro que permanece acorrentado versus um prisioneiro recém-libertado que ainda carrega cicatrizes, trauma e precisa reaprender a caminhar. A libertação não é o fim da história — é o começo possível de uma história nova.

Vigilância Necessária

Se a operação foi justa, o que vem depois determinará se foi sábia. Cristãos devem vigiar:

1. Cronograma de transição transparente: Trump deve especificar prazos claros para eleições livres. Governo de transição não pode virar ocupação indefinida. A história está repleta de “intervenções temporárias” que se perpetuaram.

2. Participação venezuelana genuína: A reconstrução não pode ser feita para venezuelanos, mas com venezuelanos. Instituições devem ser venezuelanas, não americanas. O conhecimento local é insubstituível.

3. Reforma institucional profunda: Não basta trocar pessoas no topo. É preciso reformar judiciário, despolitizar forças armadas, desmantelar coletivos, reconstruir PDVSA com critérios técnicos (não políticos). Isso leva anos, não meses.

4. Evitar messianismo político: A tentação será criar “democracia modelo” imposta de fora. Democracias reais crescem organicamente, com todas as imperfeições humanas. Venezuelanos devem ter liberdade de errar e aprender — é assim que povos amadurecem politicamente.

5. Generosidade econômica verificável: Se EUA exploram petróleo venezuelano, devem garantir transparência sobre como receitas são usadas. Teste prático: daqui a 5 anos, a classe média venezuelana cresceu ou mingou? Pobreza diminuiu ou permaneceu? Infraestrutura melhorou? Esses serão os indicadores reais de sucesso.

6. Justiça transicional sem vingança: Haverá pressão por retaliação contra chavistas. Mas justiça deve equilibrar prestação de contas (crimes não podem ficar impunes) com reconciliação nacional (nem todo funcionário chavista foi criminoso; muitos foram coagidos ou simplesmente tentavam sobreviver).

Conclusão: Justiça Imperfeita em Mundo Caído

A intervenção na Venezuela não foi perfeita. Ela nunca poderia ser. Vivemos em mundo caído, onde toda ação política carrega ambiguidade. Mas entre a tirania consolidada de Maduro e a incerteza da transição atual, a escolha moral é clara.

Como cristãos formados pela tradição de Bonhoeffer e Koyzis, recusamos tanto a idolatria do Estado absoluto quanto a idolatria da pureza moral que paralisa ação concreta. Celebramos a queda de um tirano. Vigiamos criticamente os libertadores. Oramos pelos venezuelanos. E lembramos: nossa esperança última não está em Washington, Caracas, Pequim ou Moscou. Está na Nova Jerusalém que desce do céu.

Enquanto aguardamos o Último, cuidamos responsavelmente do Penúltimo. E hoje, o Penúltimo para venezuelanos significa ter recuperado a possibilidade de reconstrução — possibilidade que 26 anos de ditadura haviam obliterado. Os próximos anos dirão se essa possibilidade se transformará em realidade. Mas pela primeira vez em décadas, existe esperança concreta onde antes havia apenas desespero.

Isso não é utopia. É o modesto, mas profundamente significativo, trabalho de cuidar do pão cotidiano dos famintos — para que, tendo pão, possam ouvir sobre o Pão da Vida.


Para Reflexão Pessoal

  • Onde você tem absolutizado conceitos políticos (soberania, democracia, mercado, nação) transformando-os em ídolos que substituem o discernimento moral concreto?
  • Que tirania contemporânea você defende em nome de “princípios” abstratos, enquanto ignora sofrimento de pessoas reais?
  • Como cristão, você equilibra cuidado com o Penúltimo (justiça política aqui e agora) sem confundi-lo com o Último (Reino escatológico de Deus)?
  • Diante de injustiças políticas, você tende ao erro utópico (esperar soluções perfeitas e rápidas) ou ao erro escapista (cinismo que abandona a política como “suja”)?

Notas e Referências

  1. BONHOEFFER, Dietrich. A Igreja e a Questão Judaica (1933). In: Obras Completas, Vol. 12.
  2. FORO PENAL. Balance de Presos Políticos en Venezuela. Atualizado em 23/12/2024. Disponível em: foropenal.com . O monitoramento do Foro Penal registra um total cumulativo de detenções e processos por motivos políticos que, em relatórios e comunicados públicos recentes, ultrapassa a casa das dezenas de milhares desde meados da década de 2010. O número citado (≈18.000) aparece em compilações jornalísticas que citam dados do Foro Penal sobre prisões e detidos ao longo do período de crise política.
  3. AMNESTY INTERNATIONAL. Hunger for Justice: Crimes against humanity in Venezuela. London: Amnesty International, 2019. Index: AMR 53/0222/2019. Anistia Internacional e outras missões independentes documentaram milhares de execuções extrajudiciais, mortes em operações de segurança e uso letal excessivo por forças estatais no período 2015–2017; relatórios da organização descrevem um padrão sistemático de execuções e pedem investigações por crimes graves. Algumas fontes jornalísticas e relatórios agregados citam cifras específicas (por exemplo, 8.200) com base em consolidações de dados locais e ONGs; porém, a metodologia varia e outras investigações (ONU, HRW) usam categorias e períodos ligeiramente diferentes.
  4. THE CARTER CENTER. Venezuela Presidential Election Report, July 28, 2024. Atlanta: The Carter Center, 2024. Nas eleições de 28 de julho de 2024, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) divulgou resultados oficiais favoráveis a Nicolás Maduro, enquanto plataformas e contagens alternativas da oposição (ConVzla) publicaram atas digitalizadas e uma apuração paralela indicando ≈68,7% para o candidato opositor (dados consolidados por ConVzla) — essa discrepância e as alegações de irregularidades foram amplamente documentadas e discutidas pela imprensa internacional.
  5. UNHCR. Venezuela Situation. Atualizado em dezembro de 2024. Disponível em: unhcr.org/emergencies/venezuela-situation . O ACNUR/UNHCR reporta quase 7,9 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos fora do país (dados consolidados por agências regionais e R4V), cifra atualizada em relatórios até dezembro de 2024/2025, e descreve esse movimento como o maior êxodo recente na região em termos absolutos e impacto regional. A proporção em relação à população varia conforme a estimativa populacional usada, mas 7,9 milhões corresponde a aproximadamente um quarto da população venezuelana segundo as estimativas demográficas mais usadas nas análises humanitárias.
  6. CNN; RTP PORTUGAL. Trump announces occupation plans for Venezuela at Mar-a-Lago press conference. 3 de janeiro de 2026.
  7. #COLABORA; CARTACAPITAL. Marco Rubio e os interesses geopolíticos na intervenção venezuelana. 4 de janeiro de 2026.
  8. U.S. DEPARTMENT OF STATE. Narcoterrorism Rewards Program: Nicolás Maduro Moros. Disponível em: state.gov
  9. TORLAI, Bruna. Ataque dos EUA à Venezuela é justo ou injusto? YouTube, 2026. <https://youtu.be/CJwil9IB3ms?si=kYpR2Cgb__qNJMkr>.
  10. Reportagens de veículos como O Tempo, BBC News, G1, O Globo e outros (03–04 jan 2026) mostram grupos da diáspora venezuelana no Brasil comemorando a captura de Maduro, com entrevistas a refugiados e imigrantes que expressaram alívio e esperança. Nessas matérias aparecem frases de agradecimento e relatos sobre sofrimento prévio.
  11. BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2000. Em sua ética da responsabilidade, Bonhoeffer desenvolve a questão dizendo que quem se esquiva da culpa na ação responsável dissolve-se da realidade da história e do mistério redentor de Cristo, que assumiu a culpa humana por amor. O agente responsável, ao ousar agir na liberdade entre obrigação e risco, entrega sua ação a Deus, tornando-se culpado aos olhos do mundo, mas justificado na graça — pois evitar o envolvimento na luta pelo outro não preserva a inocência, mas abandona o mundo à sua própria destruição (BONHOEFFER, Dietrich. Ethik. In: __. Dietrich Bonhoeffer Werke. Band 6. Hrsg. von Ilse Tödt; Heinz Eduard Tödt; Ernst Feil; Clifford J. Green. 2. Aufl. Gütersloh: Chr. Kaiser; Gütersloher Verlagshaus Gerd Mohn, 1992).
  12. THE WHITE HOUSE. Statement by President Trump on Venezuela Operation. 3 de janeiro de 2026. Ver: BBC News Brasil, <https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckgjvygdv3ro> . Acesso 06 jan. 2026.
  13. BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2000.
  14. HUMAN RIGHTS WATCH. A Decade Under Chávez: Political Intolerance and Lost Opportunities. New York: HRW, 2008.
  15. INSIGHT CRIME. The Venezuelan Armed Forces: From Arbiter to Accomplice. 2020.
  16. AMNESTY INTERNATIONAL. Venezuela: Colectivos and repression. 2017.
  17. IMF. World Economic Outlook Database, October 2018. Washington: IMF.

Quando Mãos Limpas Significam Consciência Suja

Você está preparado para agir com responsabilidade moral em situações onde todas as escolhas carregam culpa?

Em “Ética”, Dietrich Bonhoeffer — escrevendo enquanto conspirava para assassinar Hitler, meses antes de ser executado pelos nazistas — destrói a ilusão de que podemos permanecer moralmente puros diante da tirania. Sua ética da responsabilidade nos ensina que amar o próximo concreto pode exigir violar normas abstratas, que cuidar do Penúltimo prepara o caminho para o Último, e que quem recusa “sujar as mãos” frequentemente abandona o mundo ao mal. Obra inacabada, mas profética para cristãos que enfrentam decisões políticas impossíveis onde o cinismo e o utopismo não bastam.

Equipe-se para pensar moralmente em tempos de ambiguidade radical


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