O Homem que Jesus Nunca Cancelou

Vivemos a era do cancelamento. Uma frase mal colocada, uma decisão questionável, uma lealdade suspeita — e o veredicto coletivo se forma com a velocidade de um clique. A pessoa é varrida do mapa relacional, apagada, descartada. O que é curioso nesse ritual moderno não é apenas sua velocidade, mas sua confortável moralidade: cancelar alguém nos faz sentir do lado certo, limpos, distantes do contágio do erro alheio.

É nesse exato cenário que a figura de Judas Iscariotes se torna perturbadoramente relevante. Não como lição sobre traição — essa lição é óbvia demais. Mas como espelho de algo que raramente queremos enxergar: a maneira como Jesus tratou esse homem, sabendo exatamente o que ele era e o que ele faria.

Um Homem Que Jesus Escolheu de Olhos Abertos

Convém começar pelo detalhe que os Evangelhos registram com desconcertante clareza: Jesus sabia. Não descobriu depois, não foi surpreendido, não foi ingênuo. Judas Iscariotes pertenceu ao grupo dos doze discípulos que Jesus chamou para acompanhá-lo — e seu nome sempre aparece em último lugar nas listas que trazem os nomes dos apóstolos, frequentemente acompanhado de alguma descrição que o distingue: “o traidor”. Mas a escolha foi deliberada, plena, sem reservas visíveis.

O Evangelho de João registra que, em certo momento do ministério, enquanto alguns discípulos abandonavam Jesus por causa de um ensinamento difícil, ele perguntou aos Doze: “Vocês também querem ir embora?” Pedro respondeu com aquela confissão impulsiva e bela. E então João acrescenta, quase como um inciso silencioso: “Jesus respondeu: ‘Não escolhi eu mesmo vocês, os Doze? E, no entanto, um de vocês é um diabo!’” (João 6.70). Ele sabia. Escolheu assim mesmo.

Mais do que isso: Judas não era apenas um seguidor passivo. O Evangelho apresenta os doze como enviados com autoridade para expulsar espíritos, curar doenças e anunciar o Reino. Sendo Judas um deles, o texto nos leva a concluir que ele realizou essa missão junto aos outros — pregou, curou, expulsou demônios. Jesus não o excluiu das missões, não o colocou de lado, não o tratou como suspeito permanente. O confiou até mesmo com a bolsa comum do grupo. Sim, Judas era uma espécie de tesoureiro do grupo. Era ele quem cuidava do dinheiro.

Os Episódios que os Evangelistas Preservaram

A narrativa evangélica registra ao menos três momentos em que o caráter de Judas se revela — e em todos eles a resposta de Jesus é a mesma ausência de qualquer reação vingativa ou humilhante.

O primeiro acontece em Betânia. Maria de Betânia expressa seu amor a Jesus num ato generoso: unge seus pés com um perfume valioso. O cenário de amor e generosidade é quebrado pelo olhar mesquinho de Judas — que cada vez mais vai se afastando do Mestre. Judas critica o ato com a justificativa de que o unguento poderia ser vendido e o valor distribuído aos pobres — mas o evangelista especifica que ele não se importava com os pobres; queria o dinheiro na bolsa comum, da qual furtava. Jesus corrigiu a crítica, defendeu Maria, mas não expôs Judas publicamente. Não o envergonhou diante dos demais.

O segundo momento é a Última Ceia. Jesus está à mesa com os seus apóstolos quando revela que o traidor estaria no meio deles. A cena mais trágica ocorre quando Judas, já consciente de seu plano, ainda pergunta, negando a sua culpa: “Por acaso sou eu, Senhor?” Jesus responde apenas: “Tu o dizes.” Não há explosão, não há acusação pública diante de todos os demais discípulos. E há mais: naquela mesma noite, Jesus lavou os pés de Judas. Pegou a bacia, ajoelhou-se, limpou os pés daquele que em poucas horas o venderia por trinta moedas. O gesto não foi metafórico — foi literal, físico, deliberado.

O terceiro episódio é o mais perturbador de todos: o beijo no Getsêmani. Judas identificou Jesus com um beijo, selando sua traição. E Jesus, naquele momento, o chamou de “amigo” (Mateus 26.50). A palavra grega usada — hetaíre — é um vocativo de proximidade afetiva. No momento da entrega, Jesus não o chamou de traidor, de ingrato, de hipócrita. Chamou de amigo.

O Que Jesus Sabia Sobre Amor que Nós Esquecemos

É impossível ler esses episódios sem sentir o desconforto de quem reconhece, no espelho, seu próprio instinto de cancelar. Porque a resposta natural diante de alguém desleal, aproveitador, falso é exatamente o oposto do que Jesus demonstrou: afastamento, frieza, exposição pública, exclusão.

Jesus havia ensinado em palavras o que agora demonstrava em atos. “Amem seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus 5.44). “Se vocês amarem somente aqueles que os amam, que recompensa terão?” (Mateus 5.46). Com Judas, ele não apenas pregou essas palavras: as habitou. O amor que ele praticou com Judas não era uma emoção sentimental que ignorava a realidade — Jesus via a realidade com mais clareza do que qualquer um dos outros discípulos. Era um amor que escolhia a pessoa apesar do que sabia sobre ela.

Há uma distinção crucial que precisamos fazer aqui, e que é frequentemente perdida no debate contemporâneo. Amar o inimigo não é o mesmo que fingir que ele não é inimigo. Jesus não tratou a traição de Judas como se fosse lealdade. Ele a nomeou, em privado (“Tu o dizes”), com sobriedade e sem drama. Mas nomear o erro não implicou destruir a pessoa. O diagnóstico não virou condenação. A decepção não virou ódio.

Polarização, Cancelamento e o Teste de Getsêmani

Voltemos ao cenário contemporâneo. A polarização que vivemos não é apenas política — é relacional. Ela invadiu famílias, igrejas, amizades. Quem pensa diferente não é apenas quem discorda: é o inimigo, o traidor, o irrecuperável. E o mecanismo do cancelamento é eficiente precisamente porque nos livra do trabalho mais difícil: o de continuar em relação com quem nos decepciona.

Bonhoeffer, escrevendo de dentro de uma Alemanha que havia escolhido o ódio como projeto coletivo, advertiu que a comunidade cristã genuína não é formada por pessoas que se escolheram mutuamente por afinidade, mas por pecadores que foram reunidos pelo perdão de Cristo — pessoas que não se escolheriam naturalmente e que só permanecem juntas porque algo maior do que a simpatia as sustenta. A comunidade que só sobrevive enquanto ninguém decepciona ninguém não é comunidade: é um clube de afinidade com verniz espiritual.

O teste real do amor — o que Jesus chamou de “novo mandamento” em João 13.34-35 — não é amar quem nos ama de volta. Isso é instinto, não virtude. O teste é o Getsêmani: como tratamos aquele que sabemos nos trair?

A Tragédia Que Não Precisava Acontecer

É necessário dizer, com honestidade, o que os Evangelhos também dizem: o amor de Jesus por Judas não garantiu o arrependimento de Judas. Judas arrependeu-se amargamente, a ponto de tirar a própria vida. A diferença entre ele e Pedro não estava no crime — ambos traíram Jesus — mas na coragem de recomeçar: Pedro foi capaz de pedir perdão por suas falhas; Judas não teve essa coragem.

Isso desfaz um equívoco perigoso: amar radicalmente não é uma técnica para mudar o outro. Jesus não amou Judas como estratégia de transformação — amou porque o amor é a natureza do próprio Deus, independente do resultado. O amor ágape, que Paulo descreve em 1 Coríntios 13, não é condicional ao retorno. Ele “suporta todas as coisas” — inclusive a ingratidão, inclusive a traição, inclusive o silêncio do outro diante da graça oferecida.

A tragédia de Judas não foi a traição. Foi o remorso sem retorno, o arrependimento que não ousou crer que o perdão era possível. Pedro olhou para Jesus depois de negá-lo três vezes (Lucas 22.61) — e aquele olhar foi suficiente para que a graça fizesse seu trabalho. Judas nunca voltou o rosto.

O Que Fazer Com Tudo Isso

A pergunta que este texto deixa não é fácil. Não é “como tolerar quem me faz mal”. É mais específica e mais exigente: quem é o Judas na sua vida — aquela pessoa que você já identificou como desleal, aproveitadora, falsa — e como você tem reagido a ela?

Cancelar é mais limpo. Bloquear é mais simples. Afastar é mais cômodo. Jesus poderia ter feito tudo isso com Judas e nenhum de nós teria nada a dizer. Ele tinha todos os motivos e toda a autoridade moral para fazê-lo. Escolheu não fazer.

Não porque fosse ingênuo. Não porque aprovasse a traição. Mas porque havia algo que ele amava mais do que sua própria comodidade relacional: a pessoa de Judas, feita à imagem de Deus, ainda portadora de uma dignidade que a traição maculava mas não destruía.

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 13.34). O critério não é “como vocês se amam”. É “como eu os amei”. E Jesus nos amou sabendo exatamente quem somos — inclusive os nossos Getsémanis, inclusive os nossos beijos de traição.

Isso é amor radical. E é o único tipo que muda alguma coisa.


Há um “Judas” em sua vida — alguém que você tem cancelado, evitado ou tratado com frieza como resposta a uma decepção? O que Jesus faria diferente da sua resposta atual? Compartilhe sua reflexão nos comentários — essa conversa precisa acontecer.


Seguir a Cristo é fácil quando todos te aplaudem. O teste real começa quando alguém te vende por trinta moedas.

Em Discipulado, Dietrich Bonhoeffer argumenta que a graça que não custa nada não transforma ninguém — e que o amor cristão genuíno, ao contrário do sentimentalismo barato, exige morrer para si mesmo. Escrito enquanto o nazismo transformava a Alemanha em um laboratório do ódio coletivo, o livro é um manifesto sobre o que significa seguir Jesus no mundo real, entre pessoas reais, com todas as suas falhas e traições. Bonhoeffer viveu o que escreveu — e pagou o preço mais alto por isso.

Alguns livros informam. Este transforma — se você tiver coragem de levá-lo a sério.


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