Quando tudo parece provisório – verdades, identidades, compromissos – o Credo Apostólico se revela não como repetição arcaica, mas como palavra que sustenta em tempos de incerteza
Introdução
Vivemos numa época em que tudo parece provisório: verdades, identidades, compromissos. O relativismo cultural dilui convicções, o pluralismo fragmentado multiplica narrativas concorrentes, e o sincretismo religioso oferece espiritualidades moldadas ao gosto do consumidor. Nesse cenário, confessar o Credo Apostólico pode soar, para muitos, como um gesto arcaico – uma repetição automática de fórmulas antigas.
No entanto, como nos ajuda a perceber Anselm Grün em sua obra Palavras que nos sustentam: A sabedoria do Credo (Editora Vozes, 2017), o Credo não é um resíduo do passado, mas uma palavra que sustenta, especialmente quando o mundo ao nosso redor perde seus pontos de apoio. Longe de ser um obstáculo à fé contemporânea, o Credo revela-se um caminho de profundidade espiritual e discernimento cristão.
“Eu Creio”: Fé como Firmeza, Não como Opinião
Grün inicia sua reflexão chamando atenção para uma dificuldade recorrente na compreensão moderna da fé: muitos entendem “crer” como sinônimo de não saber. Essa leitura superficial transforma a fé em mera opinião subjetiva. Contra isso, a Escritura apresenta uma compreensão muito mais robusta.
Ao recuperar Isaías 7.9 – “Se não crerdes, não subsistireis” – Grün mostra que crer significa permanecer de pé, encontrar um fundamento sólido para a existência. Lutero, ao traduzir esse texto, reforça essa ideia ao associar fé à fiducia, isto é, confiança firme.
Crer, portanto, não é aceitar qualquer afirmação como verdadeira, mas apoiar-se em Deus. Em um mundo relativista, no qual tudo é negociável, o Credo Apostólico torna-se um ato de resistência espiritual: ao dizer “eu creio”, o cristão afirma que sua vida não repousa apenas sobre sentimentos mutáveis ou construções subjetivas, mas sobre o Deus que cria, sustenta e redime.
“Creio Em”: Fé como Confiança e Relação
Um ponto central da reflexão de Grün é a distinção decisiva entre “crer que” e “crer em”. No Credo, não recitamos uma lista de proposições abstratas; fazemos uma confissão relacional. A fé cristã não se reduz à adesão intelectual a doutrinas, mas se expressa como confiança viva.
Aqui há profunda consonância com a teologia luterana: a fé não é, antes de tudo, conhecimento correto, mas confiança no Deus trino. Essa estrutura do Credo nos afasta tanto do dogmatismo arrogante quanto do sincretismo indiferente.
Ao confessarmos:
- Creio em Deus Pai, afirmamos que não é o acaso nem o mercado que sustentam a realidade;
- Creio em Jesus Cristo, rejeitamos salvadores genéricos e afirmamos a encarnação concreta de Deus;
- Creio no Espírito Santo, reconhecemos a ação contínua de Deus que cria comunhão, fé e esperança.
Em tempos de pluralismo, o Credo não nega a existência de outras vozes, mas confessa com clareza onde repousa nossa confiança última.
Crer é Aprender a Ver de Novo
Ao dialogar com o Evangelho de João, Grün apresenta uma das imagens mais profundas da fé: crer é uma nova maneira de ver. A fé não é fuga da realidade, mas um olhar mais penetrante sobre ela.
Para João, crer em Jesus é contemplar Deus na vulnerabilidade humana, reconhecer na cruz – símbolo de fracasso – a vitória do amor. Trata-se de uma visão que atravessa as aparências e alcança o sentido profundo da existência.
Num mundo saturado de imagens, discursos e narrativas concorrentes, o Credo Apostólico educa o olhar cristão. Ele nos ensina a ver: na fragilidade, a presença de Deus; no sofrimento, a possibilidade de redenção; no mundo ferido, não apenas ruína, mas esperança.
Assim, o Credo funciona como uma hermenêutica da vida, libertando-nos tanto do cinismo moderno quanto da ingenuidade religiosa.
O Credo como “Casaco Protetor”: Fé e Dúvida em Tensão
Entre as imagens mais pastorais da reflexão está a do Credo como um casaco protetor. Ele não elimina o frio da dúvida, nem faz desaparecer as perguntas. Mas protege e aquece quem o veste.
Essa imagem dialoga profundamente com a espiritualidade luterana. A fé não é posse tranquila, mas luta constante. Fé e dúvida coexistem. Não conseguimos dizer o Credo com certeza psicológica plena; dizemo-lo sempre em contato com nossas fragilidades.
Num tempo em que muitos abandonam a fé por não suportarem suas próprias dúvidas, o Credo ensina algo libertador: as dúvidas pertencem à fé. Ao recitá-lo, não proclamamos nossa força interior, mas decidimo-nos novamente pela confiança.
Uma Confissão Pública em Meio à Indiferença
O Credo Apostólico é também um ato público. Em uma cultura marcada pela indiferença religiosa ou pela espiritualidade utilitarista, confessar o Credo é afirmar que a vida possui um fundamento que não está no próprio eu.
Trata-se de um testemunho humilde, não triunfalista. Ao recitar o Credo na liturgia do culto, a igreja reafirma sua identidade, não contra o mundo, mas a favor da vida, da esperança e da dignidade humana.
Considerações Finais
À luz da reflexão de Anselm Grün e da tradição luterana, podemos afirmar: o Credo Apostólico não é uma fórmula morta, mas uma palavra viva que nos sustenta.
Em tempos de relativismo, ele oferece firmeza. Em meio ao pluralismo, proporciona confiança. Diante do sincretismo, ensina uma nova maneira de ver.
Quando a igreja confessa: “Eu creio”, não está encerrando perguntas, mas encontrando um chão firme sobre o qual pode permanecer de pé – hoje, amanhã e no meio das incertezas do nosso tempo.
“Creio em Deus” – e isso basta para não cair.
O Credo Apostólico faz parte da sua prática litúrgica? Quando você o recita, sente que está apenas repetindo palavras antigas ou experimentando a renovação da confiança? Como o Credo pode se tornar, novamente, uma confissão viva em sua vida e em sua comunidade? Compartilhe sua reflexão nos comentários.
A Sabedoria do Credo que Nos Sustenta
Em tempos de dúvidas e incertezas, precisamos de palavras que não apenas informem, mas que sustentem. Este livro oferece exatamente isso.

Em Palavras que nos sustentam: A sabedoria do Credo, Anselm Grün – monge beneditino da Abadia de Münsterschwarzach e um dos autores espirituais mais lidos do mundo – reflete sobre cada linha do Credo Apostólico com profundidade teológica e simplicidade pastoral. Grün leva a sério as perguntas que as pessoas modernas fazem: Por que usar palavras tão antigas? A fé não é algo puramente pessoal? Faz sentido confessar o Credo hoje? Com sabedoria contemplativa, ele mostra que o Credo não é obstáculo à fé contemporânea, mas um caminho de firmeza espiritual num mundo que perdeu seus fundamentos.
Publicado pela Editora Vozes, este livro é para quem busca profundidade sem perder acessibilidade – teologia sólida com coração pastoral.
O Credo não elimina as dúvidas, mas oferece um chão firme onde podemos permanecer de pé – mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar.









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