Gênesis 1 não é manual de astrofísica – mas também não é mito vazio. Uma exegese do hebraico bara, tohu wabohu e da estrutura literária, mostrando como teologia da criação dialoga (não compete) com cosmologia científica
No princípio Deus criou os céus e a terra” (Gênesis 1.1).
Seja a ciência, a filosofia ou a religião, é inevitável que, em algum momento, tenha que se admitir algo que existia já antes de todas as demais coisas. O primeiro verso da Escritura nos coloca diante dessa questão fundamental: como tudo começou?
Em geral supõe-se que ciência e religião estejam em guerra. Muitos hoje afirmam que a ciência chegou mesmo a tornar redundante a crença religiosa. Outros ainda se voltaram para uma interpretação literalista da criação bíblica para rejeitar ou revisar a ciência. E há os que tentam integrar Darwin com Gênesis.
Mark Harris, teólogo e físico da Universidade de Edimburgo, em seu livro Discutindo a criação: Um encontro entre a Bíblia e a ciência, aborda esse debate complexo debruçando-se ao mesmo tempo sobre a ciência moderna e o academicismo bíblico. A criação é central à teologia cristã e à Bíblia, e tornou-se campo de batalha escolhido por cientistas, ateus e criacionistas.
Mas o que uma exegese rigorosa de Gênesis 1 realmente revela? E como isso dialoga com a ciência contemporânea?
O Texto de Gênesis 1: Estrutura e Linguagem
Antes de perguntar “como Deus criou?”, precisamos perguntar “o que o texto está dizendo?”. A hermenêutica responsável começa com atenção ao gênero literário, à linguagem hebraica e ao contexto histórico.
A Palavra-Chave: Bara (Criar)
O verbo hebraico bara (בָּרָא) aparece logo no primeiro verso e é usado exclusivamente para a atividade criadora de Deus no Antigo Testamento. Mas o que significa bara?
Contrariamente ao que muitos pressupõem, bara não necessariamente significa “criar do nada” (creatio ex nihilo). O termo enfatiza a organização, atribuição de funções e estabelecimento de ordem. Deus não apenas produz matéria nova, mas organiza a realidade, atribui papéis e estabelece propósitos.
Isso é crucial: Gênesis 1 não é primariamente um tratado sobre como o universo foi materialmente constituído, mas sobre quem criou, por que criou e para que criou.
Tohu Wabohu: Caos ou Potencialidade?
Gênesis 1.2 descreve a terra como tohu wabohu (תֹהוּ וָבֹהוּ) – tradicionalmente traduzido como “sem forma e vazia” ou “caos e desolação”.
Análise linguística:
Tohu significa “vazio”, “deserto”, “infrutífero” – descreve ausência de vida e produtividade. Bohu aparece apenas três vezes no Antigo Testamento, sempre em conexão com tohu, funcionando como reforço poético (uma hendíadis – duas palavras que expressam um conceito único).
Importante: tohu wabohu não descreve caos maligno ou resultado de batalha cósmica (como em mitos babilônicos). Descreve um estado pré-organizado, sem forma definida, aguardando a ação ordenadora de Deus.
Como observa o acadêmico Claus Westermann, traduzir tohu wabohu como “caos” carrega conotações mitológicas que o texto hebraico não sustenta. O que temos é potencialidade não realizada, não destruição ou mal primordial.
A Estrutura Literária: Dias de Formação e Preenchimento
Gênesis 1 exibe uma arquitetura literária sofisticada que muitos leitores modernos ignoram:
Dias 1-3: Formação (revertem tohu – “sem forma”)
- Dia 1: Luz separada das trevas
- Dia 2: Águas separadas (firmamento)
- Dia 3: Terra seca separada dos mares; vegetação
Dias 4-6: Preenchimento (revertem bohu – “vazio”)
- Dia 4: Sol, lua, estrelas (preenchem dia/noite do dia 1)
- Dia 5: Aves e peixes (preenchem céu e mares do dia 2)
- Dia 6: Animais terrestres e humanidade (preenchem terra do dia 3)
Dia 7: Descanso – o ápice não é a criação da humanidade, mas o Shabat, quando Deus habita com sua criação.
Essa estrutura simétrica revela que Gênesis 1 não é crônica jornalística, mas teologia expressa em forma litúrgica. O texto foi escrito para ser recitado, celebrado, adorado – não para ser manual de cosmologia científica.
Criação Ex Nihilo ou Ex Materia?
Uma das questões teológicas mais debatidas: Deus criou do nada absoluto ou organizou matéria preexistente?
O Debate Histórico
A doutrina de creatio ex nihilo (criação do nada) surge explicitamente apenas no período helenístico (veja 2 Macabeus 7.28). Antes disso, o judaísmo antigo não tinha posição unificada sobre o assunto.
Gênesis 1.2 menciona elementos já presentes quando Deus inicia a criação:
- Tohu wabohu (terra sem forma)
- Choshech (trevas)
- Tehom (águas profundas)
- Ruach Elohim (Espírito/vento de Deus)
Isso sugere que Gênesis 1 descreve Deus organizando e dando forma a uma realidade preexistente, mais do que produzindo matéria do nada absoluto.
Mas e a Teologia Cristã Tradicional?
A teologia cristã desenvolveu a doutrina de creatio ex nihilo por razões importantes: afirmar que Deus não depende de nada externo a si mesmo, que não há matéria eterna coexistente com Deus, e que toda realidade deriva de sua vontade soberana.
Mark Harris oferece uma síntese útil: O texto de Gênesis 1 não responde diretamente se houve creatio ex nihilo. O que o texto afirma inequivocamente é que Deus é a origem de toda ordem, propósito e sentido na criação.
Westermann e Walter Brueggemann argumentam que não precisamos escolher entre ex nihilo e ex materia – o texto hebraico é mais rico se reconhecermos que essa não era a pergunta que Gênesis 1 buscava responder.
O Que a Ciência Moderna Nos Ensina
A física contemporânea nos oferece um universo de 13,8 bilhões de anos, formado por Big Bang, expandindo-se continuamente, governado por leis físicas precisas que permitem o surgimento de complexidade.
Pontos de Diálogo
1. Contingência do Universo
A ciência moderna confirma algo que Gênesis sempre afirmou: o universo não é necessário. Ele poderia não existir. Sua existência exige explicação – e a fé cristã aponta para Deus como essa explicação última.
2. Ordem e Racionalidade
O fato de que o universo é matematicamente descritível, que segue leis regulares e que nossa racionalidade pode compreendê-lo é surpreendente. Como observa o físico Eugene Wigner, a “eficácia irrazoável da matemática” nas ciências naturais exige explicação.
A tradição cristã sempre afirmou: o universo é racional porque foi criado por um Logos (Razão) divino. A ciência é possível porque Deus criou um cosmos ordenado e nos deu mentes capazes de compreendê-lo.
3. Ajuste Fino e Princípio Antrópico
As constantes físicas do universo parecem “ajustadas” com precisão extraordinária para permitir vida. Altere a constante gravitacional em uma fração ínfima e estrelas não se formariam. Mude a força nuclear forte e elementos pesados não existiriam.
Isso não “prova” Deus, mas é consistente com um universo criado intencionalmente para abrigar vida.
Onde Ciência e Fé Divergem (Apropriadamente)
Mark Harris, com sua formação dupla em física e teologia, enfatiza que ciência e fé não apenas podem coexistir – elas devem permanecer distintas em seus métodos e objetivos.
Ciência Explica Como; Fé Explica Por Que
A ciência descreve mecanismos naturais testáveis experimentalmente. Ela nos diz como estrelas se formam, como espécies evoluem, como neurônios produzem consciência.
A fé responde questões de sentido, propósito e valor. Ela nos diz por que há algo em vez de nada, por que a vida tem significado, por que a consciência moral importa.
Gênesis 1 não compete com astrofísica sobre a idade do universo. Compete com niilismo sobre se há propósito na existência.
O Erro do Literalismo e o Erro do Reducionismo
Literalismo comete o erro de tratar Gênesis 1 como manual científico, forçando o texto a responder perguntas que ele nunca pretendeu abordar. Isso desonra o texto ao ignorar seu gênero literário.
Reducionismo científico comete o erro oposto: assume que se a ciência explica como algo acontece, não há espaço para explicação teológica de por que. Isso é falha categorial – confunde níveis de explicação.
Como ilustra Harris: explicar neuroquimicamente por que eu amo minha esposa não elimina a verdade de que eu amo minha esposa. São níveis diferentes de realidade, não competidores.
Implicações Teológicas para Hoje
1. A Criação É Boa (Mas Não Perfeita)
Gênesis 1 repete sete vezes: “E viu Deus que era bom”. Mas “bom” não significa “perfeito” no sentido de finalizado. Significa adequado ao propósito, funcionando conforme o design.
Mark Harris observa: “A criação será perfeita no fim do processo, não no início”. A criação está em movimento em direção à plenitude – o que a ciência evolutiva sugere e que Apocalipse 21-22 promete.
2. Humanidade Como Imago Dei
Gênesis 1.27: “Criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
Ser imagem de Deus não é sobre aparência física ou imortalidade da alma (conceitos gregos, não hebraicos). É sobre função: representar Deus na criação, cuidar dela, nomeá-la, ordená-la. A humanidade é vice-regente de Deus no cosmos.
Isso tem implicações éticas massivas: cada ser humano carrega dignidade divina inalienável. Racismo, desumanização, exploração – tudo isso viola a imago Dei.
3. O Sábado Como Propósito
O clímax de Gênesis 1 não é a criação do homem (dia 6), mas o Shabat (dia 7). Deus descansa não por cansaço, mas por consumação – a criação está completa para relacionamento.
O propósito último da criação não é produtividade, mas comunhão com Deus. O Shabat antecipa a Nova Criação, quando Deus habitará plenamente com seu povo (Apocalipse 21.3).
Conclusão: Fé e Ciência Como Aliados
A guerra entre fé e ciência é em grande parte fabricada. Como demonstra Mark Harris, “a ciência moderna prestou um serviço aos textos bíblicos da criação ao indicar que algumas interpretações tradicionais precisam ser reavaliadas”.
Gênesis 1 não nos ensina física ou biologia. Ensina-nos que:
- O universo não é acidente – tem Criador
- A realidade não é caótica – tem ordem
- A vida não é sem sentido – tem propósito
- A humanidade não é insignificante – carrega imagem divina
- A existência não é para produção infinita – é para Shabat com Deus
A ciência nos mostra como o cosmos funciona. Gênesis nos mostra para quem e para quê ele existe.
E quando compreendemos isso, tanto a bancada do laboratório quanto o altar da igreja se tornam lugares de adoração ao Criador de todas as coisas.
“Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” – Salmos 19.1
Como você lida com a tensão entre leituras literalistas de Gênesis 1 e descobertas científicas modernas? Você consegue apreciar o texto bíblico em seu gênero literário próprio sem forçá-lo a ser manual científico? Que perguntas sobre criação ainda te inquietam? Compartilhe nos comentários.
A Bíblia Tem Medo da Ciência?
Muitos cristãos sentem que precisam escolher entre duas opções desconfortáveis. Ou abandonam a fé para aceitar a ciência moderna, ou rejeitam descobertas científicas para proteger uma leitura rígida da Bíblia. Mas será que essa é realmente a única escolha?

Em Discutindo a criação: Um encontro entre a Bíblia e a ciência, o físico e teólogo Mark Harris propõe um caminho mais responsável. Em vez de colocar Bíblia e ciência em guerra, ele examina com cuidado o que os textos bíblicos realmente afirmam sobre a criação e como essas afirmações dialogam com o conhecimento científico contemporâneo. Com rigor acadêmico e profunda reverência às Escrituras, Harris mostra que muitas tensões surgem não da Bíblia em si, mas de interpretações apressadas — tanto religiosas quanto científicas. O resultado é uma conversa madura sobre origem, propósito e sentido do universo.
Se você deseja compreender melhor como a fé cristã pode dialogar seriamente com a ciência moderna, esta leitura é um excelente ponto de partida.









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