Igrejas do primeiro século sem hierarquia unificada demonstravam comunhão mais profunda que muitas denominações modernas organizacionalmente unidas. A coleta gentílica para Jerusalém mostra: catolicidade não é instituição, é koinonia.
Há algo profundamente irônico na história da igreja: instituições que se uniram organizacionalmente através de concílios, credos e hierarquias frequentemente exibem menos comunhão real do que as primeiras comunidades cristãs, que nunca tiveram estruturas unificadas.
As igrejas do primeiro século não tinham denominação global, nem papa, sínodos, assembleias gerais ou uniformidade litúrgica. E, no entanto, demonstravam uma unidade que faz muitas de nossas uniões eclesiásticas modernas parecerem superficiais por comparação.
Como isso era possível?
A resposta está em algo que Herman Bavinck chamava de “catolicidade”, não no sentido institucional romano, mas no sentido original de katholikos: universal, integral, abrangente. A igreja é católica não porque está organizada sob uma hierarquia única, mas porque participa de realidades que transcendem toda estrutura humana: a unidade do próprio Deus.
A unidade que vem de cima
Paulo não começa sua teologia da unidade da igreja com organização humana. Ele começa com o caráter de Deus.
Em Efésios 4.4-6 ele escreve: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.” Conte quantas vezes aparece a palavra “um” nessa passagem: sete vezes, não por acaso. Paulo está dizendo que a unidade da igreja não é projeto humano a ser alcançado, mas realidade divina a ser reconhecida e vivida.
Há um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo em comunhão eterna. Há um só Mediador entre Deus e humanidade. Há um só Espírito habitando todos os crentes. Há uma só aliança da graça, uma só salvação oferecida a judeus e gentios. Portanto, há necessariamente uma só igreja, não no sentido de uma única instituição visível governando todos os cristãos, mas no sentido de um só corpo espiritual composto por todos os que estão unidos a Cristo pela fé. Como diz 1 Coríntios 12.13: “Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres.”
Essa unidade não depende de acordos institucionais. Ela existe onde quer que pessoas estejam unidas a Cristo. E onde existe, ela exige expressão visível.
O teste da catolicidade: a coleta para Jerusalém
Se você quer entender o que realmente significa unidade da igreja, não olhe para concílios ecumênicos ou declarações de união denominacional. Olhe para algo aparentemente mundano: uma coleta de dinheiro.
Por vários anos, Paulo organizou uma coleta nas igrejas gentílicas de Macedônia, Acaia, Galácia e Ásia Menor para socorrer os cristãos pobres em Jerusalém. Essa coleta aparece repetidamente em suas cartas, Romanos 15.25-28, 1 Coríntios 16.1-4, 2 Coríntios 8 e 9, Atos 11.29-30, e Paulo nunca a trata como simples caridade. Ele vê algo muito mais profundo acontecendo.
Em Romanos 15.27 ele explica: “Pois se os gentios participaram das bênçãos espirituais dos judeus, devem também servir aos judeus com os seus bens materiais.” Há aqui uma lógica de reciprocidade, de koinonia, de participação mútua. Os gentios receberam o evangelho através de apóstolos judeus, receberam as Escrituras que vieram de Israel, receberam o Messias prometido a Abraão. São, nas palavras de Paulo, participantes das bênçãos espirituais que fluíram de Jerusalém. Quando socorrem materialmente os cristãos judeus, não estão apenas sendo generosos. Estão reconhecendo uma unidade espiritual que transcende todas as diferenças culturais, geográficas e étnicas entre eles.
Derrubando o muro de inimizade
Para entender a profundidade do que estava acontecendo, é preciso lembrar que judeus e gentios não se misturavam. A hostilidade entre eles era antiga, profunda e institucionalizada.
Judeus consideravam gentios impuros, não comiam com eles, não entravam em suas casas, não se casavam com eles. O templo em Jerusalém tinha muro físico separando o pátio dos gentios do pátio dos judeus, com avisos de pena de morte para qualquer gentio que o atravessasse. Gentios, por sua vez, desprezavam judeus como supersticiosos e exclusivistas. As tensões políticas entre Israel e Roma eram constantes, e revoltas e repressões marcavam o relacionamento.
Esse era o “muro de inimizade” ao qual Paulo se refere em Efésios 2.14: “Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade.” Cristo derrubou esse muro, e não apenas teoricamente. Quando gentios na Macedônia, pessoas que nunca haviam pisado em Jerusalém, que não guardavam a lei judaica, que comiam carne sacrificada a ídolos, voluntariamente contribuíram com dinheiro para socorrer cristãos judeus pobres em Jerusalém, algo humana e historicamente impossível estava acontecendo. O evangelho estava criando família onde antes havia inimizade.
Comunhão mais profunda que estrutura
Paulo descreve a resposta dos cristãos em Jerusalém quando receberam a coleta. Em 2 Coríntios 9.12-14 ele escreve que o serviço transborda em muitas expressões de gratidão a Deus, e que enquanto oram pelos gentios, “o coração deles irá para vocês, em virtude da superabundante graça de Deus sobre vocês.”
Gentios dão dinheiro. Judeus recebem com gratidão. Ambos agradecem a Deus. Os judeus começam a orar pelos gentios com afeto profundo. Isso é koinonia, comunhão espiritual real, não acordo doutrinário em papel nem reconhecimento mútuo formal, mas amor prático, gratidão genuína, intercessão fervorosa, unidade vivida.
E essas igrejas não tinham estrutura organizacional comum. A igreja em Corinto não prestava contas à igreja em Jerusalém. Não havia concílio governando ambas nem hierarquia eclesiástica conectando-as administrativamente. Mas havia algo mais forte: a consciência de que pertenciam ao mesmo corpo, de que o Espírito que habitava nos cristãos em Jerusalém era o mesmo nos cristãos na Macedônia, de que ambas participavam das mesmas promessas, da mesma aliança, da mesma salvação, do mesmo Cristo.
Essa comunhão espiritual era, nas palavras de Bavinck, “mais íntima do que a de muitas igrejas posteriores que, embora unidas organizacionalmente em classes ou sínodos, carecem desse vínculo vital.”
A ironia das uniões sem comunhão
A história da igreja está cheia de exemplos de igrejas unidas organizacionalmente mas divididas espiritualmente. Denominações com hierarquias nacionais onde congregações locais mal se conhecem. Sínodos que se reúnem anualmente mas cujos membros não oram uns pelos outros. Concílios e eventos ecumênicos que produzem declarações impressionantes em papel mas não geram amor prático entre as comunidades que representam.
Estrutura organizacional não garante comunhão espiritual. Pode até, paradoxalmente, substituí-la, fazendo-nos sentir “unidos” pelo cumprimento de protocolos institucionais sem que jamais experimentemos koinonia real.
As primeiras igrejas não tinham esses protocolos. Paulo podia dizer sobre a coleta que queria verificar “a sinceridade do amor de vocês” (2 Coríntios 8.8). Não a sinceridade dos acordos, não a qualidade das estruturas. A sinceridade do amor. Essa era a medida de unidade.
O que a catolicidade realmente pede
Ser verdadeiramente católico, no sentido bavinckiano, exige algumas coisas que nossas estruturas denominacionais frequentemente obscurecem.
A primeira é reconhecer que a unidade já existe. Não precisamos criá-la. Precisamos viver a unidade que Cristo já estabeleceu, porque todos os que estão unidos a ele pela fé já são um corpo, quer reconheçam isso ou não. A segunda é buscar expressões visíveis dessa unidade: a unidade espiritual invisível deve produzir amor visível, serviço prático, intercessão mútua, apoio material quando necessário. A coleta para Jerusalém não criou a unidade entre judeus e gentios. Cristo já havia feito isso. Mas tornou essa unidade visível e tangível.
Importa também não confundir uniformidade com unidade. As igrejas gentílicas não precisavam se tornar judaicas para ser uma com os cristãos em Jerusalém, e Paulo lutou ferozmente contra qualquer tentativa de impor circuncisão ou lei mosaica sobre gentios. A unidade não exige que todos sejam idênticos. Exige que todos reconheçam que pertencem ao mesmo Senhor. Batistas e presbiterianos, pentecostais e reformados, carismáticos e tradicionais: todos que confessam Cristo como Senhor são um corpo, e a medida dessa unidade não é a concordância em todos os detalhes teológicos nem a identidade de estruturas eclesiásticas. Jesus disse: “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos: se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.35). Amor é o teste.
Catolicidade vivida
A catolicidade da igreja não é primariamente questão organizacional. É realidade espiritual enraizada na unidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e expressa em comunhão prática entre os que pertencem a Cristo.
As primeiras igrejas demonstraram isso com eloquência. Gentios que nunca haviam se encontrado com judeus em Jerusalém contribuíram generosamente para socorrê-los. Judeus que inicialmente duvidavam de que gentios pudessem ser salvos sem circuncisão receberam a oferta com gratidão profunda e começaram a orar por seus irmãos distantes. Não havia sínodo conectando essas igrejas, não havia declaração formal de união, não havia hierarquia coordenando tudo. Mas havia koinonia, um só Espírito, um só corpo, amor que atravessava todo muro de inimizade.
Quando a igreja vive essa catolicidade, quando ora por irmãos que nunca viu, serve a comunidades que não compartilham sua tradição, e reconhece como irmão quem confessa o mesmo Cristo ainda que em outro idioma litúrgico, o mundo vê algo que nenhuma organização humana consegue produzir. Vê o amor de Cristo manifestado em seu corpo. E esse amor é, no fim, o único argumento que a catolicidade precisa fazer.
Uma Fé Grande o Suficiente para o Mundo
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