Por que Devo Ser Generoso Se o Egoísmo Me Beneficia Mais?: dilemas do relativismo moral

“Isso é certo ou errado?”

“Depende.”

Essa resposta virou padrão cultural. Depende do contexto, da cultura, de quem você pergunta, da época. A moralidade, dizem, é relativa. O que é certo para você pode ser errado para mim. Quem somos nós para julgar? A postura parece humilde, tolerante, sofisticada. Mas há um problema central que ela não consegue resolver: a afirmação se autodestrói, e as consequências de levá-la a sério são mais devastadoras do que a maioria das pessoas percebe.

A armadilha da autocontradição

O relativismo moral afirma que não existem padrões de certo e errado universais, que cada pessoa ou cultura estabelece seus próprios critérios. Mas essa afirmação é ela mesma apresentada como verdade universal. O relativista está dizendo que é objetivamente verdade que não existem verdades objetivas, que é absolutamente certo que não existe certo absoluto.

O problema é visível: se tudo é relativo, então a afirmação “tudo é relativo” também é relativa, apenas mais uma opinião sem autoridade especial. Por que eu deveria aceitá-la em vez de rejeitá-la? A própria estrutura da afirmação a invalida, da mesma forma que a frase “esta sentença é falsa” não pode ser verdadeira nem falsa sem se destruir.

A autocontradição lógica, porém, não é o único problema. Há consequências práticas que precisam ser enfrentadas.

O problema de Nuremberg

Nos julgamentos de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial, oficiais nazistas se defenderam argumentando que apenas cumpriam a lei de seu país. Tecnicamente, sob o regime nazista, suas ações eram legais. Se a moralidade é determinada por cada cultura, então quem poderia condená-los?

A pergunta decisiva feita pelos juízes foi: “Não existe uma lei superior à sua?”

Para o relativista consistente, a resposta teria que ser não. Não existe padrão acima das leis locais pelo qual possamos julgá-las. Genocídio seria apenas errado na nossa cultura, mas certo na deles. Todos sabem, porém, que isso é absurdo, e não apenas “absurdo para nós.” O Holocausto não foi errado porque nossa cultura assim o avalia. Foi objetivamente errado. Seria errado mesmo que toda a Alemanha concordasse que estava certo. Seria errado mesmo que não houvesse ninguém para testemunhar.

Esse instinto, que relativistas também têm quando confrontados com casos extremos, aponta para algo que o relativismo não consegue explicar.

A falácia é-deve

O filósofo David Hume identificou um problema crucial no raciocínio moral: não se pode derivar um “deve” de um “é”. Não se pode passar de fatos descritivos para imperativos normativos sem dar um salto lógico que precisa ser justificado.

O universo físico simplesmente é. Estrelas explodem, galáxias colidem, animais comem outros animais, tudo isso acontece sem julgamento moral. A lei da gravidade não se importa se você cai de um penhasco. A seleção natural não tem preferências éticas. Quando alguém diz “não existe certo ou errado porque o universo não se importa”, está confundindo níveis de realidade: o comportamento de estrelas e átomos não determina como seres humanos racionais e morais devem agir. O fato de que tigres matam não significa que devemos matar. O fato de que o universo é indiferente não significa que nós deveríamos ser indiferentes.

Sem padrões comuns, sem conversa moral

Pense no que acontece quando levamos o relativismo a sério numa discussão real.

“Escravidão é errada.” “Isso é apenas sua opinião baseada na sua cultura.” “Não, torturar pessoas inocentes é objetivamente errado.” “Objetivamente? Não existe objetividade moral. Cada um tem sua verdade.”

A conversa acabou. Se não há padrão comum, não há como resolver desacordos, não há como persuadir, não há como argumentar. Tudo se reduz a preferências pessoais. O filósofo Simon Blackburn observou que o relativismo não arbitra desacordos morais: ele simplesmente os declara irresolvíveis. Genocídio e generosidade ficam no mesmo nível, ambos certos em seus contextos. E se ambos são igualmente válidos, por que escolher generosidade quando egoísmo me beneficia mais?

A evidência de universais morais

Há outro problema para o relativismo: a evidência empírica o contradiz.

Estudos antropológicos mostram que certas normas morais aparecem em todas as culturas pesquisadas. Não existe sociedade onde é considerado virtuoso trair o próprio grupo, ou louvável roubar de membros da família, ou admirável ser completamente egoísta. Todas as culturas valorizam, em algum grau, cuidar da família, retribuir favores, ser leal ao grupo, respeitar certos direitos. As aplicações desses princípios variam. Os princípios básicos, não.

C.S. Lewis documentou isso extensivamente em A Abolição do Homem, mostrando que egípcios antigos, chineses, gregos, vikings e nativos americanos, culturas separadas por milhares de anos e quilômetros, compartilhavam noções morais fundamentais semelhantes. Isso sugere que moralidade não é construção cultural arbitrária. Há algo mais profundo operando.

A resposta cristã: lei natural

A tradição cristã clássica oferece explicação robusta para essas observações: a lei natural.

Paulo escreve em Romanos 2.14-15 que quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, porque as exigências da Lei estão gravadas em seu coração, e disso dão testemunho a consciência e os pensamentos que os acusam ou os defendem. A passagem ensina que Deus inscreveu conhecimento moral básico no próprio ser humano. Não precisamos de revelação especial para saber que assassinato é errado ou que devemos cuidar de nossos filhos. Essas verdades são autoevidentes para a consciência humana funcionando adequadamente.

Tomás de Aquino desenvolveu isso sistematicamente: lei natural é participação da criatura racional na lei eterna de Deus, acessível pela razão, anterior a qualquer legislação humana ou revelação sobrenatural. Os primeiros princípios, buscar o bem, evitar o mal, preservar a vida, viver em sociedade, são universais porque refletem a natureza humana criada por Deus. Somos feitos de certa maneira, e viver de acordo com essa natureza é certo; viver contra ela é errado.

Isso não é apenas “opinião cristã”

A lei natural não depende de aceitar a Bíblia ou crer em Deus. É acessível pela razão. Você não precisa ser cristão para reconhecer que tortura de inocentes é errada, que devemos cuidar de crianças, que promessas devem ser cumpridas. Immanuel Kant, por exemplo, argumentou que a razão pura exige que tratemos pessoas como fins em si mesmas, nunca como meros meios. Isso não é relativismo: é objetivismo moral secular.

A perspectiva cristã oferece fundamento metafísico mais profundo para esses princípios, mostrando que refletem o caráter de Deus. Mas os princípios em si são reconhecíveis por qualquer pessoa racional, cristã ou não. É por isso que podemos ter leis contra assassinato em sociedades pluralistas sem impor “moral cristã”: estamos reconhecendo moral humana, acessível a todos pela razão e consciência.

E quanto à diversidade cultural?

Diferentes culturas discordam sobre moralidade, mas menos do que o relativista afirma. Como vimos, há universais morais. E muitas diferenças culturais são sobre aplicação de princípios, não sobre os princípios básicos. Todas as culturas concordam que assassinato é errado, mas discordam sobre o que conta como assassinato em casos limítrofes: legítima defesa, guerra justa, pena de morte. Todas valorizam honestidade, mas discordam sobre quando mentir é permissível.

Essas diferenças não provam relativismo. Provam que aplicar princípios morais em situações complexas é difícil, o que é muito diferente de provar que os princípios não existem. Além disso, algumas práticas culturais simplesmente estavam erradas. Sacrifício humano era praticado por culturas antigas. Escravidão era praticada em larga escala. Podemos dizer isso não por arrogância, mas porque há padrões morais que transcendem qualquer cultura particular, incluindo a nossa.

Ninguém vive como relativista de verdade

No fim, o relativismo moral é uma posição que se defende em teoria, mas que ninguém consegue sustentar na prática.

Quando alguém é traído, roubado ou caluniado, mesmo o relativista mais convicto sente que uma injustiça real foi cometida, não uma mera violação de preferência pessoal. Quando uma criança é abusada, não pensamos “bem, isso é certo para o abusador.” Pensamos que é objetivamente mal e deve parar. Nossos julgamentos morais mais profundos, aqueles que fazemos quando a situação é grave o bastante para importar de verdade, pressupõem padrões objetivos que independem de opinião.

E se esses padrões existem, se realmente há certo e errado universal, então o relativismo está errado, não apenas inadequado como postura filosófica, mas incapaz de descrever como os próprios relativistas vivem quando algo que lhes importa está em jogo.

A perspectiva cristã da lei natural oferece fundamento robusto para o que todos já sabemos intuitivamente: algumas coisas são realmente certas, outras são realmente erradas, e essas verdades não dependem de votação humana. Elas estão gravadas na consciência, acessíveis pela razão, fundadas na natureza humana criada por Deus.

Quando reconhecemos isso, não estamos sendo intolerantes. Estamos sendo humanos. Porque “depende” é resposta honesta para muitas questões. Para algumas, porém, a resposta é simplesmente: não, isso é errado. E a razão pela qual todos nós sabemos disso instintivamente é que há uma lei mais profunda que nenhuma cultura inventou e nenhuma época revogou.


C.S. Lewis mostra por que uma sociedade que abandona a moral objetiva acaba enfraquecendo a própria humanidade.

Em A Abolição do Homem, C.S. Lewis apresenta uma reflexão curta, profunda e surpreendentemente atual sobre os riscos de rejeitar valores morais universais. Em diálogo direto com o tema do artigo sobre a lei natural, a obra ajuda o leitor a perceber que não basta explicar o mundo com relativismo: é preciso reconhecer que existem princípios objetivos que sustentam a vida moral, a dignidade humana e a própria convivência social. Ao ler este clássico, você encontrará argumentos sólidos contra a confusão ética do nosso tempo e uma defesa elegante, filosófica e profética daquilo que não pode ser simplesmente reinventado por opinião ou cultura.

Leia A Abolição do Homem e descubra por que preservar a moral objetiva é essencial para preservar o próprio homem.


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