O Peso das Narrativas Incompletas
Frequentemente se afirma que o cristianismo serviu de justificativa para a escravidão nas Américas – e isso é verdade em parte: alguns proprietários invocaram passagens bíblicas para legitimar práticas desumanas. Contudo, essa é apenas uma face da história. Muitos cristãos, a partir de convicções teológicas profundas, fizeram oposição ativa à escravidão, arriscando vida, fortuna e liberdade. Entre esses pioneiros morais, os Quakers (Sociedade dos Amigos) se destacam como um exemplo extraordinário de como convicções teológicas profundas podem gerar mudanças sociais radicais, mesmo quando isso significa nadar contra todas as correntes de sua época.
Abril de 1688: Um Protesto que Ninguém Queria Ouvir
Em 18 de abril de 16881, quatro membros da Sociedade dos Amigos – Francis Daniel Pastorius, Garret Hendericks, Derick op den Graeff e Abraham op den Graeff – reuniram-se em Germantown, Pensilvânia, para redigir o que seria a primeira declaração formal contra a escravidão feita por um grupo religioso nas colônias inglesas. Pastorius, um jovem advogado alemão que havia fundado Germantown apenas cinco anos antes, foi o principal autor e organizador do documento2. O argumento central era simples e devastador: baseado na Regra de Ouro bíblica – “fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem conosco” -, eles questionavam como alguém poderia justificar roubar pessoas, separá-las de suas famílias e vendê-las como propriedade.
A petição não foi bem recebida. Foi apresentada na Reunião Mensal de Dublin (Abington), depois encaminhada à Reunião Trimestral da Filadélfia em 4 de abril, e finalmente à Reunião Anual em Burlington, Nova Jersey, em 5 de julho de 1688 – mas nenhuma ação foi tomada em qualquer nível3. A Reunião Anual declarou que considerava o assunto “não apropriado para este encontro dar um julgamento positivo no caso.” O documento foi então arquivado e permaneceu esquecido até 1844, quando o antiquário quaker Nathan Kite o redescobriu e publicou pela primeira vez em The Friend: A Religious and Literary Journal4. A partir de então, tornou-se um símbolo poderoso para o movimento abolicionista em ascensão. Mas a semente já havia sido plantada; levou décadas para que ela produzisse efeitos legislativos e sociais mais visíveis5.
A Teologia como Combustível para a Justiça
O que torna essa história particularmente fascinante não é apenas o pioneirismo cronológico dos Quakers, mas a profundidade teológica de sua oposição à escravidão. Diferentemente de argumentos pragmáticos ou econômicos contra o sistema escravista, a convicção quaker nascia de uma compreensão radical da imago Dei – a doutrina de que todo ser humano é criado à imagem de Deus. Para os Quakers, que acreditavam na “Luz Interior” presente em cada pessoa, a ideia de que alguém pudesse ser propriedade de outro era não apenas moralmente errada, mas teologicamente absurda6.
Ao longo do século XVIII, uma nova geração de quakers – incluindo John Woolman, Anthony Benezet e outros – intensificou o protesto. O processo foi lento e repleto de tensões internas. Diferentes reuniões quaker locais, regionais e anuais tomaram decisões em momentos distintos e com graus variados de rigor. Em 1758, algumas reuniões começaram a estabelecer que membros envolvidos na importação, venda ou compra de escravos deveriam enfrentar sanções disciplinares. Em 1776, a Reunião Anual da Filadélfia emitiu uma proclamação proibindo quakers de possuírem escravos7.
Em 1º de março de 1780, a Pensilvânia aprovou “An Act for the Gradual Abolition of Slavery” (Lei para a Abolição Gradual da Escravidão) – a primeira legislação abolicionista aprovada por um corpo eleito na história ocidental8. É crucial ressaltar que esta lei estabeleceu um processo de emancipação gradual: pessoas já escravizadas antes de 1º de março de 1780 permaneceram nessa condição por toda a vida, enquanto filhos nascidos de mães escravizadas após essa data deveriam trabalhar como servos contratados para os proprietários de suas mães até completarem 28 anos. A lei não libertou imediatamente ninguém que já estava escravizado, mas impediu a escravização de gerações futuras. O ativismo quaker foi crucial para a aprovação dessa legislação pioneira.
Resistência Prática: A Underground Railroad
A resistência dos Quakers à escravidão ia muito além de declarações e resoluções institucionais. Tanto indivíduos quakers quanto decisões corporativas das reuniões influenciaram o movimento abolicionista – uma distinção importante para compreender a amplitude do compromisso quaker9. Há registros documentados de aproximadamente oitenta e dois quakers envolvidos apenas no condado de Chester, Pensilvânia, participando da Underground Railroad, a rede clandestina de rotas de fuga para pessoas escravizadas10.
Levi Coffin, quaker nascido na Carolina do Norte, começou a ajudar pessoas escravizadas ainda na adolescência. As estimativas históricas sobre o número de pessoas que ele e sua esposa Catherine auxiliaram variam conforme as fontes biográficas: relatos históricos indicam aproximadamente 2.000 pessoas durante seus vinte anos em Indiana e cerca de 1.300 após mudarem-se para Cincinnati, embora o próprio Coffin, que não mantinha registros detalhados por razões de segurança, estimasse o número total em torno de 3.00011. Sua casa em Fountain City, Indiana, tornou-se conhecida como “Grand Central Station” da Underground Railroad.
Thomas Garrett, outro quaker proeminente de Delaware, é creditado nas fontes biográficas por ter ajudado entre 2.500 e 2.700 pessoas escravizadas a alcançarem a liberdade ao longo de cerca de quarenta anos de ativismo12. Em 1848, Garrett foi processado e multado em mais de 5.400 dólares – uma quantia que quase o levou à falência – mas declarou ao tribunal que continuaria a ajudar pessoas fugitivas enquanto tivesse forças.
Esses não eram ativistas radicais marginalizados; eram pessoas comuns – comerciantes, fazendeiros, artesãos – que arriscavam prisão, ruína financeira e violência porque suas consciências, moldadas pela fé, simplesmente não permitiam outra escolha.
Tensões Internas e Complexidade Moral
É importante não romantizar essa história. A comunidade quaker estava profundamente dividida entre gradualistas, que queriam trabalhar dentro do sistema legal, e ativistas diretos, que sentiam que a urgência moral exigia desobediência civil imediata. Nem todos os quakers apoiaram ativamente a Underground Railroad; muitos temiam que a resistência civil levasse à violência, o que violava o testemunho pacifista central da fé quaker. Alguns quakers abolicionistas, como Isaac Hopper e Lucretia Mott, foram ameaçados de expulsão de suas congregações por suas atividades consideradas radicais13.
Essa tensão não diminui a contribuição quaker; na verdade, a torna mais humana e mais instrutiva. Mesmo dentro de um grupo comprometido com a justiça, havia discordâncias profundas sobre métodos e táticas – e ainda assim o movimento avançou, tanto através de ações individuais heroicas quanto de decisões corporativas institucionais progressivas das reuniões quaker ao longo de quase um século.
Uma Interpretação Acadêmica Influente
O sociólogo Rodney Stark, em seu livro acadêmico For the Glory of God: How Monotheism Led to Reformations, Science, Witch-Hunts, and the End of Slavery (2003), apresenta uma tese influente e amplamente debatida: ele argumenta que a concepção cristã de Deus levou, quase inevitavelmente, à denúncia cristã da escravidão como uma abominação. Stark demonstra como a abolição da escravidão no Ocidente foi consequência direta de convicções teológicas cristãs, com os Quakers representando o exemplo mais claro dessa dinâmica14.
É importante notar que a interpretação de Stark permanece debatida no meio acadêmico. Outros historiadores, como David Brion Davis em The Problem of Slavery in Western Culture (1966) e Christopher Leslie Brown em Moral Capital: Foundations of British Abolitionism (2006), enfatizam fatores econômicos, políticos e filosóficos iluministas como motores igualmente importantes – ou até mais determinantes – do movimento abolicionista15. Alguns críticos argumentam que Stark subestima como interesses econômicos e transformações capitalistas tornaram a escravidão menos lucrativa em certas regiões, facilitando sua rejeição moral.
Mas a evidência histórica dos Quakers permanece incontestável: sua fé não era um obstáculo à justiça social – era o combustível para ela. Eles não lutaram contra a escravidão apesar de serem cristãos, mas precisamente porque eram cristãos. Essa distinção é crucial, especialmente hoje, quando frequentemente se assume que fé religiosa e progresso moral são incompatíveis.
O Que Fazemos com Esta História?
Então, o que devemos fazer com essa história? Primeiro, ela nos lembra que ideias têm consequências. O que você acredita sobre Deus, sobre a natureza humana, sobre verdade e justiça, inevitavelmente moldará como você vive no mundo. Os Quakers não acordaram um dia e decidiram ser abolicionistas; eles se tornaram abolicionistas porque sua teologia os levou, passo a passo, a conclusões que muitos ao seu redor achavam radicais e impraticáveis.
Segundo, ela desafia a narrativa simplista de que religião é sempre reacionária e secularismo sempre progressista. A história real é mais complicada, mais nuançada e mais interessante. Terceiro – e talvez mais importante -, ela nos convida a perguntar: sobre quais injustiças de nossa própria época estamos sendo complacentes? Que sistemas desumanizantes aceitamos porque “todo mundo aceita” ou porque questionar o status quo parece economicamente inviável ou socialmente arriscado?
A coragem moral dos Quakers não estava em ter todas as respostas certas desde o início, mas em estar dispostos a questionar o status quo quando suas consciências, informadas pela fé, os incomodavam. Levou quase um século desde a Petição de Germantown em 1688 até mudanças legislativas significativas em 1780. O processo foi lento, repleto de conflitos internos e externos, fracassos e vitórias parciais. Mas foi implacável.
Essa é uma lição que transcende séculos e que permanece urgentemente relevante hoje. A fé pode mover montanhas – mas raramente o faz de uma vez. Geralmente move uma pedra de cada vez, ao longo de gerações, sustentada por convicções profundas sobre quem Deus é e quem somos como portadores de sua imagem.
Notas e Referências
- A data precisa de 18 de abril de 1688 é confirmada por múltiplas fontes históricas e pela transcrição original do documento. Ver: Germantown Monthly Meeting, “Germantown Friends’ Protest Against Slavery” (manuscrito original, 1688), Quaker & Special Collections, Haverford College Library, Haverford, PA. ↩
- Sobre a autoria e papel de Pastorius: Hildegard Binder-Johnson, “The Germantown Protest of 1688 Against Negro Slavery,” Pennsylvania Magazine of History and Biography 65 (1941): 145-156; Craig W. Horle et al., eds., Lawmaking and Legislators in Pennsylvania: A Biographical Dictionary, Volume One, 1682-1709 (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1991), 586-590. ↩
- A trajetória da petição através das reuniões quaker está documentada nas atas: Philadelphia Yearly Meeting Minutes, 5/7M/1688. Ver também: Brycchan Carey, “Inventing a Culture of Anti-Slavery: Pennsylvanian Quakers and the Germantown Protest of 1688,” in Cora Kaplan and John R. Oldfield, eds., Imagining Transatlantic Slavery (London: Palgrave Macmillan, 2010). ↩
- Nathan Kite, “The German Friends,” The Friend: A Religious and Literary Journal 17 (1844): 126. O documento foi redescoberto em 1844, temporariamente perdido novamente, e redescoberto em março de 2005 no cofre da Arch Street Meeting House, Filadélfia. ↩
- Katharine Gerbner, “‘We are against the traffick of mens-body’: The Germantown Quaker Protest of 1688 and the Origins of American Abolitionism,” Pennsylvania History: A Journal of Mid-Atlantic Studies 74, no. 2 (Spring 2007): 149-172. ↩
- Sobre a teologia quaker da Luz Interior e imago Dei como fundamento para oposição à escravidão: Jean R. Soderlund, Quakers and Slavery: A Divided Spirit (Princeton: Princeton University Press, 1985); Ryan P. Jordan, Slavery and the Meetinghouse: The Quakers and the Abolitionist Dilemma, 1820-1865 (Bloomington: Indiana University Press, 2007). ↩
- A cronologia das decisões quaker varia conforme as reuniões locais e regionais. Para o desenvolvimento gradual: Thomas E. Drake, Quakers and Slavery in America (New Haven: Yale University Press, 1950); Jack D. Marietta, The Reformation of American Quakerism, 1748-1783 (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1984). ↩
- Pennsylvania General Assembly, “An Act for the Gradual Abolition of Slavery,” aprovada em 1º de março de 1780. Texto completo disponível em: Pennsylvania Archives, Series 1, Volume 8. Ver também: Gary B. Nash and Jean R. Soderlund, Freedom by Degrees: Emancipation in Pennsylvania and Its Aftermath (New York: Oxford University Press, 1991). ↩
- Sobre a distinção entre abolicionismo individual e institucional quaker: Ryan P. Jordan, Slavery and the Meetinghouse. ↩
- Para os quakers no condado de Chester: William C. Kashatus, Just Over the Line: Chester County and the Underground Railroad (West Chester, PA: Chester County Historical Society, 2002). ↩
- Sobre Levi Coffin e as estimativas variadas: Levi Coffin, Reminiscences of Levi Coffin, the Reputed President of the Underground Railroad (Cincinnati: Robert Clarke & Co., 1876); Mary Ann Yannessa, Levi Coffin, Quaker: Breaking the Bonds of Slavery in Ohio and Indiana (Richmond, IN: Friends United Press, 2001). ↩
- Sobre Thomas Garrett: James A. McGowan, Station Master on the Underground Railroad: The Life and Letters of Thomas Garrett (Moylan, PA: Whimsie Press, 1977); William C. Kashatus, Thomas Garrett: Quaker Stationmaster (Kennett Square, PA: KNA Press, 2005). ↩
- Sobre as tensões internas e divisões: Ryan P. Jordan, Slavery and the Meetinghouse; Vanessa Julye and Donna McDaniel, Fit for Freedom, Not for Friendship: Quakers, African Americans, and the Myth of Racial Justice (Philadelphia: Quaker Press, 2009). ↩
- Rodney Stark, For the Glory of God: How Monotheism Led to Reformations, Science, Witch-Hunts, and the End of Slavery (Princeton: Princeton University Press, 2003), especialmente capítulo 4. ↩
- Para perspectivas alternativas e críticas a Stark: David Brion Davis, The Problem of Slavery in Western Culture (Ithaca: Cornell University Press, 1966); Christopher Leslie Brown, Moral Capital: Foundations of British Abolitionism (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2006); Seymour Drescher, Econocide: British Slavery in the Era of Abolition (Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1977). ↩
The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade

A minissérie The Underground Railroad (2021, Amazon Prime), baseada no romance premiado de Colson Whitehead, reimagina a rota subterrânea como uma rede literal de trilhos e estações numa narrativa que mistura realismo histórico e elementos alegóricos; ela acompanha a jornada de Cora, uma jovem escravizada que foge de uma plantação na Geórgia e atravessa diferentes estados e regimes de violência em busca de liberdade, encontrando tanto aliados corajosos quanto autoridades implacáveis. A produção vale a pena pela força visual e pela ambição estética do diretor, que transforma memórias e horrores do sistema escravista em imagens potentes e memoráveis; pelas atuações intensas e comoventes que humanizam cada personagem; e pelo modo como a série amplia a compreensão da Underground Railroad, mostrando não só as rotas de fuga, mas também as redes sociais, morais e institucionais que permitiam – e dificultavam – a libertação. É uma obra que provoca empatia, insere o espectador na brutalidade e na resistência daquele tempo e estimula reflexão histórica e ética sem reduzir a complexidade das experiências vividas.
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