A Bíblia é ou contém a Palavra de Deus?

Há perguntas que atravessam séculos, e ainda assim continuam pedindo respostas pessoais, maduras, espiritualmente honestas. Uma delas, que nunca deixou de nos acompanhar, é esta: a Bíblia é ou apenas contém a Palavra de Deus? Essa pergunta, embora pareça técnica, mexe com a fé da igreja de modo profundo. Ela toca o que entendemos sobre Deus, sobre nós e sobre o próprio mundo em que vivemos.

Nos últimos anos, essa discussão deixou de ser algo restrito à teologia acadêmica e passou a moldar, silenciosamente, nossas comunidades. É perceptível que ela se torna especialmente urgente quando observamos o modo como a Bíblia tem sido tratada em alguns ambientes marcados por militâncias ideológicas – tanto seculares quanto religiosas. A própria Escritura reivindica para si autoridade divina plena: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça”, como lemos em 2 Timóteo 3.16. Pedro afirma que “homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo”, conforme 2 Pedro 1.21. Se isso é verdade, então submeter o texto a critérios humanos como árbitros finais é inverter a ordem da revelação.

Analisando o fenômeno da militância, o mesmo pode ser definido como uma entrega intensa a uma causa que, no fim, tende a desumanizar e absolutizar agendas. Eis aí o perigo de “causas sociais ou religiosas” que se tornam maiores do que pessoas, maiores do que rostos concretos, e que acabam esmagando justamente aquilo que pretendiam defender.

O fenômeno da militância tem uma relação direta com o campo da interpretação bíblica. Algo muito semelhante acontece quando a postura diante da Escritura deixa de ser escuta humilde e se transforma em instrumento para o próprio projeto do intérprete. O mesmo espírito militante – esse impulso de transformar textos em armas – encontra terreno fértil na compreensão de que “a Bíblia contém a Palavra de Deus”. Essa visão, frequentemente vinculada ao uso naturalista do método histórico-crítico – isto é, aquele que parte de pressupostos céticos sobre o sobrenatural -, supõe que nem tudo nas Escrituras pode ser recebido como Palavra de Deus; cabe ao leitor selecionar o que merece esse status. E quando isso acontece, o leitor passa a ocupar um lugar de decisão que pertence somente a Deus. Quem defende que ela apenas contém a Palavra supõe que partes do texto são inspiradas e outras não, e que cabe ao intérprete separar o divino do humano. Essa forma de ler e interpretar a Bíblia gera a pergunta decisiva: quem determina o que é Palavra de Deus – a Escritura ou o leitor?

Com essa ideia de que o leitor determina o que é ou não Palavra de Deus, a Bíblia perde sua voz e o propósito escatológico. Ela deixa de nos formar e passa a ser moldada por nossas preferências, filtros e ansiedades. Longe de nos redimir, o texto se torna matéria-prima para confirmarmos aquilo que já pensamos. A interpretação se politiza; a leitura se torna seletiva; e o enredo bíblico, que deveria ser encontro, transforma-se em triagem ideológica. O resultado são causas que se absolutizam: o essencial desaparece atrás das agendas, e aquilo que deveria ser caminho de vida acaba se tornando instrumento de divisão.

Essa postura hermenêutica produz efeitos que muitos de nós já testemunhamos. Fragmentação. Ceticismo. Perda do enraizamento espiritual. Quando cada trecho das Escrituras é submetido a critérios externos – sejam filosóficos, sociológicos ou culturais – cria-se inevitavelmente uma Bíblia fragmentada, distante da fé viva e do Cristo revelado. A revelação de Deus deixa de ser uma convocação e volta a ser apenas objeto de análise. Ou pior: objeto de disputa. Uma Bíblia submetida a agendas ideológicas perde seu poder de gerar encontro; e uma fé sem encontro não transforma ninguém.

É nesse cenário que a contribuição de Michael W. Goheen, teólogo e missiólogo reformado amplamente respeitado, especialmente por seu trabalho sobre missão e narrativa bíblica, tem sido para mim – e para tantos – um sopro de lucidez. Em O Drama das Escrituras (Vida Nova, 2025) e O Cerne da Fé Cristã (Palavra, 2025), ele nos lembra que uma das grandes crises da igreja contemporânea é a perda da consciência de que a Bíblia é uma única história. Sem essa visão maior, tudo se torna detrito textual, e o povo de Deus se esquece de quem é. Goheen afirma que a missão da igreja só pode ser compreendida quando reencontramos o enredo que atravessa toda a Escritura. Quando isso acontece, percebemos que a Bíblia não é um conjunto de textos soltos, mas a narrativa coerente do Deus que cria, redime e restaura o mundo.

Quando lemos a Bíblia como uma grande história – a verdadeira história do mundo – não precisamos mais decidir quais partes “contêm” ou “não contêm” a Palavra de Deus. O enredo ilumina as partes; as partes se encaixam no enredo; Cristo recapitula tudo, como Paulo afirma em Efésios 1.10; e o Espírito aplica essa história ao nosso coração, tornando-nos participantes do Reino. Assim, a Bíblia deixa de ser objeto de disputa e volta a ser lugar de encontro. Recuperamos a postura que a igreja sempre teve ao se aproximar das Escrituras: não como críticos que julgam, mas como discípulos que desejam ouvir para obedecer.

Nesse sentido, a reflexão de Eugene Peterson em Coma Este Livro (Mundo Cristão, 2025) chega como um complemento precioso. Peterson distingue entre simples leitura e leitura espiritual, lembrando que a Bíblia não foi dada para ser lida como manual técnico, argumento ideológico ou peça arqueológica. Ele insiste que a Palavra de Deus exige de nós um tipo de atenção diferente – uma atenção que envolve oração, reverência, abertura e obediência. Ler espiritualmente significa deixar que o texto nos molde, não como mera informação técnica ou argumento ideológico, mas como diálogo vivo com Deus que forma Cristo em nós por meio da doutrina verdadeira e da obediência amorosa. Peterson nos lembra que a Bíblia não foi escrita para reforçar certezas ou alimentar debates, mas para formar Cristo em nós. E é exatamente por isso que ela precisa ser recebida antes como voz do Espírito do que como objeto de análise.

De modo semelhante, Kevin J. Vanhoozer, em O Drama da Doutrina (Vida Nova, 2016), propõe uma abordagem canônico-linguística que aprofunda ainda mais essa visão. Ele descreve a Bíblia como o “script” do drama divino, no qual a igreja é chamada a participar responsavelmente. Ao insistir numa leitura que respeita a forma canônica e as intenções comunicativas de Deus, Vanhoozer nos afasta tanto do literalismo ingênuo quanto do ceticismo desconstrutivo. Sua proposta reforça que a doutrina cristã emerge da interação fiel com a Escritura em sua totalidade, como um conjunto que forma e orienta o povo de Deus. Assim, interpretar não é exercer poder sobre o texto, mas entrar em cena sob direção do Autor, desempenhando nossos papéis com fidelidade e criatividade.

Essa visão cura precisamente aquilo que a militância hermenêutica destrói. Ela devolve ao texto sua voz; devolve ao leitor a humildade; devolve à fé sua raiz. A pergunta deixa de ser “quais textos sustentam a bandeira que levanto?” e passa a ser: “onde essa história coloca minha vida?” Essa simples mudança transforma tudo: ideologia dá lugar a vocação; fragmentação dá lugar a identidade; militância dá lugar à missão; ceticismo dá lugar a uma confiança obediente.

Em tempos nos quais tantos querem usar a Bíblia como arma, talvez o maior testemunho cristão seja voltar a abraçá-la como Palavra. Palavra que revela e confronta, que adverte e consola, que chama e envia. Palavra que, conforme Hebreus 4.12, é “viva, eficaz e mais afiada que qualquer espada de dois gumes” – não para ferir pessoas, mas para discernir corações e restaurar vidas. Palavra que restaura a identidade e missão de Cristo – e, com ele, a identidade e a missão da Igreja.

Quando retornamos então à pergunta que abre este artigo “A Bíblia é ou contém a Palavra de Deus?”, não é necessário vê-lo como disputa técnica entre métodos de interpretação. Que possamos tratá-la como uma pergunta profundamente pastoral e espiritual. Uma pergunta decisiva para a missão da igreja hoje. E, diante da tradição cristã e da visão narrativa de Michael Goheen, afirmarmos com convicção tranquila:

A Bíblia é de capa a capa a grande história de Deus.

Não é um recipiente de fragmentos inspirados, mas a história pela qual Ele se revela, redime, transforma e envia. É essa história que nos lê. Que nos molda. Que nos sustenta. É essa história que nos convida a caminhar como povo do Reino em um mundo cansado de causas e sedento de sentido.

E talvez seja justamente quando deixamos a militância de lado e retornamos à Palavra como Palavra revelada por Deus que encontraremos novamente o caminho da fé que escuta, responde e anuncia. Não o caminho da causa – mas o caminho do Reino.

Conclusão

A pergunta “a Bíblia é ou contém a Palavra de Deus?” não é apenas um debate antigo, mas um discernimento que molda a vida da igreja em cada geração. Em um tempo saturado de leituras agressivas e interpretações militantes, somos chamados a um retorno simples: voltar a ouvir Deus falar. Reconhecer que toda a Escritura é Palavra de Deus não nos coloca acima do texto, mas abaixo dele; não nos torna donos da revelação, mas testemunhas dela; não nos arma para debates, mas nos desarma para a vida. É somente quando devolvemos à Escritura o lugar que lhe pertence que nossa fé recupera seu vigor, nossa missão recupera seu rumo e nossa esperança se ancora novamente no Deus que fala e age. Que cada leitura seja um ato de adoração, cada página aberta um espaço de encontro, e que – ao acolhermos a Palavra como Palavra – sejamos conduzidos pelo Espírito a viver de modo coerente com a grande história que nos foi confiada: para a glória de Deus e para a vida do mundo.

E se este tema despertou em você o desejo de ir além, vale aprofundar-se nos livros que sustentam esta reflexão. O Drama das Escrituras e O cerne da fé cristã, de Michael W. Goheen, são excelentes portas de entrada para reencontrar a Bíblia como a grande narrativa de Deus. Coma este Livro, de Eugene Peterson, o ajudará a cultivar a arte da leitura espiritual, aquela que transforma o coração antes de transformar ideias. E O Drama da Doutrina, de Kevin J. Vanhoozer, oferece uma visão robusta de como ler e interpretar a Escritura como o “script” do drama divino, no qual somos chamados a atuar com fidelidade e imaginação cristã. Que essas leituras alimentem sua fé, fortaleçam sua vocação e o ajudem a caminhar mais profundamente dentro da história que Deus conta – uma história viva, verdadeira e maravilhosa, na qual somos chamados a participar.

Oração

Senhor Deus,
obrigado porque Tu falas.
Tu não nos deixaste entregues à nossa própria razão,
nem aos nossos próprios critérios,
nem à nossa própria cultura.
Obrigado por tua Palavra viva, inspirada, suficiente e confiável.
Dá-nos humildade para ouvi-la,
coragem para obedecê-la
e alegria para anunciá-la ao mundo.
Que o teu Espírito nos ilumine,
para que não apenas interpretemos o texto,
mas deixemos o texto nos interpretar.
Faz de nós um povo moldado pela Escritura,
firmado em Cristo
e enviado para tua missão.
Em nome do Verbo eterno, Jesus Cristo.
Amém.


Reencontre a beleza de uma fé pensada, vivida e encenada para a glória de Deus

Se a doutrina sumiu do púlpito, não é de se estranhar que a vida cristã esteja sem direção.

Muitos cristãos hoje vivem como se a doutrina fosse um luxo de seminário, e não um guia para a vida real. Mas Kevin Vanhoozer mostra que a doutrina é, na verdade, o roteiro que nos orienta a participar do grande drama de Deus no mundo. Neste livro, pastores e membros redescobrem como a teologia pode ser viva, encarnada e profundamente relevante para o discipulado, a pregação e a missão da igreja.

Como Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” – João 17.17.


Você já conhece a grande História contada pela Bíblia?

Os seis vídeos a seguir revelarão a narrativa bíblica de Gênesis a Apocalipse.


Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

4 respostas para “A Bíblia é ou contém a Palavra de Deus?”.

  1. Avatar de Daniel Schwambach
    Daniel Schwambach

    Prezado pastor. Seu texto é muito bom. Mas aparentou combater a ideologia com outra ideologia. A leitura social da Bíblia e a exegese histórico-crítica de fato foram raptadas pelas leituras identitaristas e/ou ideológicas. No entanto, creio que seu desenvolvimento e alcance transcendem as ideologias. E conceitos exegeticos (considerar os vários contextos seriamente) encontraram nessa exegese refinamento. Tais ideias ainda são úteis. Reduzir o método histórico-crítico a algumas ideias, sem mostrar seu legado e seus pontos positivos e, ainda, as fragilidades de toda e qualquer leitura (visto que será sempre humana, mesmo que se ore bastante), pareceu também um tanto quanto ideológico. Abraço

    Curtir

    1. Avatar de Rodomar Ramlow

      Prezado Daniel, agradecemos muito sua leitura atenta e o comentário generoso. Suas observações nos ajudam a aprofundar o diálogo e a esclarecer pontos que, de fato, merecem maior precisão.
      Em nosso texto, não tivemos a intenção de reduzir o método histórico-crítico em si, nem de ignorar sua contribuição para a leitura bíblica. O que procuramos criticar, com cuidado, foi o uso naturalista desse método (4º parágrafo do texto), ou seja, quando ele é conduzido por pressupostos que excluem o sobrenatural e tratam o texto bíblico apenas como produto humano, sujeito à triagem do leitor. Essa postura, infelizmente comum em certos círculos, desloca a autoridade da Escritura para o intérprete, o que nos parece uma inversão perigosa da lógica da revelação.
      Concordamos com você que toda leitura é humana e, portanto, limitada. Mas é justamente por isso que precisamos de uma postura de escuta reverente, não de controle. Nossa confiança está em que o Espírito Santo, por meio da Escritura inspirada, continua a falar com clareza suficiente para formar Cristo em nós. A Palavra de Deus tem uma voz que nos precede e nos confronta – e é essa voz que desejamos ouvir, não apenas analisar.
      Agradecemos por nos provocar a refinar essa distinção. Seu comentário amplia a conversa e nos ajuda a manter o equilíbrio entre rigor teológico e humildade interpretativa, algo essencial para a missão da igreja em nossos dias.
      Um abraço!

      Curtir

      1. Avatar de spookyb3e70bb182
        spookyb3e70bb182

        Pastor, certo, entendi seu objetivo. De fato, sob esta ótica, a exegese deveria cuidar para não ‘desmilagrizar’ a Bíblia. Sua escrita é primorosa. Que Deus abençoe seu trabalho!

        Curtir

      2. Avatar de Rodomar Ramlow

        Grato. Que o bom Deus te abençoe em sua jornada também! Abraço.

        Curtir

Deixar mensagem para Rodomar Ramlow Cancelar resposta

Um espaço dedicado a explorar a igreja e a teologia a partir de uma perspectiva missional. Aqui, buscamos refletir sobre a missão de Deus no mundo, como a igreja pode viver de forma fiel ao chamado cristão e como podemos aplicar os ensinamentos bíblicos de maneira prática e transformadora em nossa sociedade.