Quando a Bíblia machuca, a tentação é simples: trocar as páginas. Mas há uma diferença entre ler melhor e ler menos.
Um vídeo curto viralizou nas últimas semanas nas redes sociais cristãs. Nele, uma bispa da United Church of Christ afirma que o Novo Testamento “não é a Palavra de Deus” e propõe a necessidade de um “Terceiro Testamento” porque os dois primeiros são “problemáticos” e contêm “má teologia”. A sugestão: “Precisamos arrancar essas páginas.”
A reação conservadora foi imediata e, em muitos casos, histérica. Manchetes gritaram “heresia descarada”, perfis evangélicos explodiram em indignação, e o clipe foi instrumentalizado como prova definitiva da “apostasia liberal”. Entre a histeria à direita e a minimização complacente à esquerda, há espaço para uma análise protestante equilibrada, que reconheça tanto os problemas reais que a fala tenta nomear quanto os limites teológicos que ela ultrapassa.
O que sabemos com segurança
Antes de qualquer análise, convém separar fato de especulação. O vídeo existe e está amplamente documentado. A autora da fala é Yvette Flunder, fundadora e pastora sênior da City of Refuge United Church of Christ e bispa presidente da Fellowship of Affirming Ministries. Sua participação em eventos do Center for Public Theology & Public Policy, sediado na Yale Divinity School, está publicamente confirmada. O que permanece menos claro é se o clipe foi gravado especificamente em abril de 2026 ou se se trata de material de 2024 reviralizado recentemente.
Quanto ao conteúdo verbal, o núcleo da fala é consistente em múltiplas reproduções: “Third Testament”, “words about God” em oposição a “Word of God”, “pull that page out” e a afirmação de que o Novo Testamento não seria propriamente a Palavra de Deus. Variações como “rip them out” ou “tear out” aparecem em manchetes e comentários, mas não puderam ser verificadas como redação original do áudio.
O ponto decisivo, porém, é outro: essa linguagem não é nova no repertório de Flunder. Em postagens anteriores em suas redes sociais, ela já descrevia um “Terceiro Testamento” como “uma série de livros, salmos e ensinamentos” que falariam às realidades atuais. Em outra formulação, declarou: “Nós somos o Terceiro Testamento vivo.” Sua fala viral não foi um deslize isolado nem frase fora de contexto. Ela expressa um programa hermenêutico já consolidado.
Quem é Yvette Flunder e onde ela se situa teologicamente
Flunder não é uma voz periférica. É uma liderança reconhecida dentro do cristianismo progressista norte-americano, com formação no Pacific School of Religion e no San Francisco Theological Seminary. Seu livro Where the Edge Gathers traz no próprio subtítulo a ênfase em “inclusão radical”. Perfis acadêmicos e jornalísticos a situam na órbita da teologia womanist e da teologia de libertação, com forte crítica social e ministério junto a grupos historicamente marginalizados, especialmente a comunidade LGBTQ+.
Sua igreja, fundada em 1991, é descrita como uma congregação predominantemente negra e em grande parte LGBT. Sua trajetória tem raízes pentecostais, mas seu desenvolvimento teológico a colocou firmemente no campo progressista. Não há necessidade de caricaturá-la: Flunder não é uma teóloga evangélica mal compreendida. Ela é, assumidamente, uma voz cristã progressista que opera a partir de pressupostos teológicos distintos do protestantismo histórico.
Onde Flunder toca em problemas reais
Seria intelectualmente desonesto negar que ela aponta para feridas históricas legítimas. A Bíblia foi, de fato, instrumentalizada para justificar escravidão, segregação racial, silenciamento de mulheres e outras formas de opressão. Textos como Efésios 6.5 foram citados por defensores da escravidão; passagens sobre o silêncio das mulheres foram usadas para barrar mulheres do ministério e até da educação teológica.
Mais ainda: até intérpretes conservadores reconhecem que certos textos são difíceis. Por que 1 Coríntios 14 exige silêncio feminino enquanto 1 Coríntios 11 pressupõe mulheres orando e profetizando publicamente? Por que Paulo não condena frontalmente a escravidão em Filemom, mas pede que Onésimo seja recebido “como irmão amado”? Essas questões não são invenções progressistas. Elas permeiam a história da interpretação cristã.
O protestantismo sério sempre lidou com textos difíceis. Complementarianos e igualitaristas divergem profundamente na exegese de 1 Coríntios 14 e 1 Timóteo 2, mas ambos permanecem dentro do mesmo gesto hermenêutico básico: interpretar o texto pelo contexto, pela totalidade canônica e pelo evangelho. A existência de passagens moralmente desafiadoras não é novidade. O que importa é como se responde a elas.
Onde Flunder rompe com o protestantismo histórico
A solução proposta por Flunder, porém, não é protestante em sentido histórico-confessional. O problema não é reconhecer textos difíceis. É transformar uma crise hermenêutica real numa crise canônica artificial.
A tradição protestante clássica, luterana, reformada, anglicana, vê a Escritura canônica como regra suficiente e autoritativa da fé. A Confissão de Fé de Westminster afirma que “o Antigo e o Novo Testamento são a Palavra de Deus escrita” e que “nada, em tempo algum, deve ser acrescentado” ao cânon, “seja por novas revelações do Espírito, seja por tradições humanas” (I.2, I.6). Os Artigos de Esmalcalda de Lutero declaram: “A Palavra de Deus deve estabelecer os artigos de fé, e ninguém mais, nem mesmo um anjo.” Calvino insiste que a autoridade da Escritura não depende do juízo humano ou eclesiástico, mas deriva de Deus e é selada pelo testemunho interno do Espírito Santo (Institutas I.7).
Quando Flunder contrapõe “palavras sobre Deus” à “Palavra de Deus” e propõe um “Terceiro Testamento” como novo testemunho normativo, ela não está fazendo exegese criativa. Está propondo um deslocamento do centro normativo que cruza um limite estrutural do protestantismo.
Mesmo dentro da United Church of Christ, que opera com uma teologia mais liberal que o evangelicalismo conservador, os documentos oficiais afirmam que a igreja “olha para a Palavra de Deus nas Escrituras” e que Deus “ainda fala” por meio da Bíblia, não que precisamos substituí-la por um novo cânon. A fala de Flunder vai além da posição oficial de sua própria denominação.
O ajuste protestante é hermenêutico, não canônico
O protestantismo não resolve textos difíceis arrancando páginas. Resolve com melhor exegese.
Sobre escravidão, protestantes sérios reconhecem que Paulo opera dentro das estruturas sociais do primeiro século, mas planta sementes teológicas que as minam por dentro. Quando diz a Filemom que receba Onésimo “não mais como escravo, mas acima de escravo, como irmão amado” (Filemom 16), Paulo não aboliu a escravidão por decreto. Introduziu um princípio que, levado às últimas consequências, a torna insustentável.
Sobre mulheres, protestantes igualitaristas argumentam que o silêncio em 1 Coríntios 14 é contextual e localizado, relacionado a uma situação específica em Corinto. Complementarianos defendem distinções de papel sem hierarquia de valor. Os dois grupos debatem dentro do cânon, não contra ele.
O princípio reformado não é “retire a página”. É Sacra Scriptura sui ipsius interpres: a Escritura interpreta a si mesma. Textos difíceis são lidos à luz de textos claros. Passagens culturalmente condicionadas são distinguidas de princípios normativos permanentes. O evangelho central governa a leitura de textos periféricos.
Flunder acerta ao denunciar usos violentos e opressores da Escritura. Protestantes que não admitem que a Bíblia foi historicamente manipulada para legitimar escravidão e subjugação feminina tratam a história da interpretação com ingenuidade perigosa. Precisamos lamentar esses abusos, reconhecer a cumplicidade histórica onde ela existiu e fazer leitura bíblica mais fiel. E é exatamente por isso que a proposta de Flunder falha: ela diagnostica o problema e então prescreve o veneno errado. A cura para má hermenêutica não é menos Bíblia. É leitura mais honesta do que sempre esteve escrito.
A esperança que não fabricamos
No final, a questão não é apenas técnica. É pastoral. Flunder busca, legitimamente, uma palavra de esperança para pessoas feridas por leituras bíblicas opressoras. Mas a esperança cristã não vem de um novo testamento que nós escrevemos. Vem do testemunho apostólico que recebemos.
A Bíblia contém textos difíceis. Sempre conteve. E o protestantismo histórico aprendeu, ao longo de séculos de exegese honesta, que esses textos não desaparecem com uma tesoura. Eles pedem mais atenção, não menos. Pedem o trabalho paciente de quem confia que a Escritura, lida fielmente em sua totalidade, nos entrega Cristo, e que Cristo não é apenas uma palavra humana sobre Deus, mas o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.
A preocupação moral de Flunder é inteligível e merece ser ouvida. Sua solução teológica não é protestante. E essa distinção importa, porque se o protestantismo significa alguma coisa, significa que a igreja é sempre reformada pela Palavra, nunca autorizada a corrigi-la.
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