Crianças podem ser cristãos verdadeiros?

Em um tempo em que a fé cristã é frequentemente associada à maturidade intelectual, à decisão consciente e à capacidade de argumentação, a presença das crianças na igreja levanta uma questão incômoda e necessária: elas realmente creem? À luz do ensino de Jesus e da tradição luterana, este artigo propõe uma inversão surpreendente — talvez não sejam as crianças que precisam aprender o que é fé, mas nós, adultos, que precisamos reaprender com elas o caminho de entrada no Reino de Deus.

O escândalo que os discípulos não entenderam

No contexto do primeiro século, crianças não ocupavam lugar de destaque. Eram vistas como socialmente insignificantes, sem status e sem voz. Por isso a cena de Marcos 10 incomoda tanto: quando os discípulos tentam impedir que crianças se aproximem de Jesus, ele reage com indignação. Não com paciência. Com indignação.

“Deixai vir a mim os pequeninos… porque dos tais é o Reino de Deus.”

Jesus não apenas permite a presença delas. As toma como modelo. O Reino não pertence aos poderosos, aos sábios ou aos autossuficientes, mas àqueles que o recebem como uma criança recebe o que lhe é dado. David Instone-Brewer, no capítulo “Adoração turbulenta” de Escândalo e Loucura (Hagnos, 2025), lembra que essa cena era culturalmente escandalosa: um rabino respeitado dando centralidade àqueles que a religião institucional ignorava.

Os fariseus valorizavam a Lei, a pureza ritual e o status religioso. Nesse sistema, crianças não eram consideradas participantes plenos da vida espiritual. Estavam em formação, mas não eram sujeitos ativos da fé. Quando Jesus coloca uma criança no meio dos discípulos em Mateus 18, a subversão é precisa: grandeza no Reino não se mede por mérito e conhecimento, mas por dependência e humildade. A crítica ao sistema farisaico não é lateral. É central.

O erro que a igreja continua repetindo

Muitas práticas eclesiais atuais ecoam mais os discípulos de Marcos 10 do que Jesus. Crianças são relegadas a espaços paralelos como se não pertencessem ao culto, tratadas como “futuros cristãos” em vez de cristãos presentes, privadas de participação plena na vida sacramental da comunidade. Por trás dessas práticas há uma teologia implícita: a de que a fé depende de maturidade intelectual ou de decisão consciente plenamente articulada.

É uma teologia que contraria o evangelho.

Jesus não apenas acolhe crianças. Afirma que ninguém entra no Reino sem se tornar como uma. A fé cristã, nessa perspectiva, não é primariamente um ato de autonomia nem uma conquista racional. É recepção confiada. A criança não possui méritos, mas recebe. Não domina, mas confia. Não argumenta, mas se entrega. Quando um adulto precisa se tornar como criança para entrar no Reino, Jesus não está fazendo elogio sentimental à inocência infantil. Está descrevendo a estrutura da fé.

O que Lutero entendeu sobre graça e crianças

Para Lutero, a fé não é uma obra humana, mas um dom de Deus operado pelo Espírito Santo. Essa convicção tem consequências diretas para a questão. Se a fé não depende da razão, mas da graça, então crianças podem crer, e podem crer de verdade. O Espírito não aguarda o desenvolvimento cognitivo para agir.

Daí a coerência do batismo infantil na teologia luterana. O batismo não é um testemunho humano sobre uma decisão já tomada. É uma ação divina que cria o que promete. Deus age objetivamente, e a promessa expressa em Atos 2.39 não estabelece limite de idade: “A promessa é para vós, para vossos filhos e para todos os que estão longe.” Crianças não apenas podem ser batizadas. Devem ser, porque também são destinatárias da promessa.

A mesma lógica se aplica à participação sacramental mais ampla. Se a fé é dom e não conquista, o critério de exclusão da vida sacramental da comunidade não pode ser a capacidade de articular o que se recebe. Há debates práticos legítimos sobre como e quando essa participação se dá. Mas eles precisam ser travados dentro dessa lógica, não contra ela.

O que as crianças sabem que nós esquecemos

Jesus vai além de acolher crianças. Sugere que elas ensinam sobre o Reino. E o que ensinam é exatamente o que a cultura do desempenho mais resiste: dependência radical, confiança que não precisa primeiro compreender para então confiar, receptividade a uma graça que não foi ganha.

Num mundo marcado pela autossuficiência e pela exigência de que tudo seja justificado racionalmente antes de ser recebido, a criança que estende a mão sem argumentar revela o escândalo do evangelho. Somos salvos não pelo que fazemos, mas pelo que recebemos. Não pela profundidade da nossa compreensão, mas pela fidelidade de quem promete.

A pergunta inicial, então, pode ser respondida com clareza: sim, crianças podem ser cristãos verdadeiros. Mais do que isso, em sua maneira de receber o que lhes é dado, elas preservam algo que os adultos tendem a perder no caminho, a saber, a consciência de que a fé nunca foi nossa conquista, mas sempre foi dom.

Ignorar isso não é apenas um erro pedagógico. É uma distorção do evangelho. “Dos tais é o Reino de Deus” não é uma frase gentil sobre crianças. É uma afirmação sobre a natureza da fé.


A maioria das igrejas tem uma resposta prática para essa pergunta. Pouquíssimas têm uma resposta teológica.

Em Escândalo e Loucura, David Instone-Brewer dedica um capítulo inteiro ao que ele chama de “adoração turbulenta”, desafiando a ideia de que culto ordenado e presença de crianças são coisas incompatíveis. Com base no próprio ensino de Jesus, ele argumenta que a participação das crianças não é um problema a ser gerenciado, mas uma expressão do Reino a ser acolhida.

Quem leva a sério a pergunta deste artigo precisa ler este livro.


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