Maioria não é sinônimo de verdade. E lavar as mãos não torna ninguém inocente, nem dentro nem fora da igreja
SÉRIE: A Escolha de Líderes na Igreja [Artigo 03]
Artigo 1: A Eleição Que Acontece nos Bastidores
Artigo 2: Quem Substituirá Judas Iscariotes?
Este é o terceiro artigo de uma série de seis sobre como a igreja escolhe seus líderes. Nos artigos anteriores, tratamos do candidato único e da escolha de Matias por sorteio. Agora, vamos a um episódio muito diferente. E muito mais perturbador.
Pilatos tinha diante de si duas coisas: uma convicção e uma pressão. A convicção era clara, ele próprio a verbalizou mais de uma vez: “Não acho nele motivo algum de acusação” (João 18:38, NVI). Sabia que Jesus era inocente. Lucas registra que ele disse isso pelo menos três vezes. A pressão também era clara: as lideranças religiosas queriam a condenação e estavam dispostas a tumultuar a cidade inteira para consegui-la.
Diante da convicção e da pressão, Pilatos fez uma escolha que define o episódio inteiro, e que ecoa em muitos processos de decisão até hoje. Ele não decidiu. Transferiu a decisão para a multidão. Ele sabia o que era o certo a se fazer, mas preferiu transferir a responsabilidade.
Havia o costume de soltar um preso durante a Páscoa. Pilatos colocou a questão diante do povo: “Querem que eu solte o rei dos judeus?” (João 18:39, NVI). As opções eram Jesus e Barrabás, um condenado por insurreição e homicídio. E a multidão, instigada pelas lideranças religiosas, gritou: Barrabás.
Pilatos lavou as mãos. O povo escolheu. Jesus foi crucificado.
O Que Realmente Aconteceu Ali
É tentador ler esse episódio e concluir rapidamente: “o povo sempre erra quando vota.” Mas isso seria raso e injusto com o texto. O que aconteceu diante do pretório de Pilatos não foi simplesmente uma multidão que votou errado. Foi algo mais complexo. E mais instrutivo.
Primeiro, houve covardia de quem tinha autoridade. Pilatos ocupava uma posição de poder. Tinha a convicção do que era justo. Tinha autoridade legal para agir conforme essa convicção. E escolheu não agir. Em vez de exercer a responsabilidade que o cargo lhe dava, transferiu a decisão para um público que ele mesmo sabia ser manipulável. A lavagem das mãos não foi gesto de neutralidade. Foi gesto de fuga.
Segundo, houve manipulação por parte de quem tinha influência. Os evangelhos são explícitos: “Os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos convenceram a multidão a que pedisse Barrabás e condenasse Jesus à morte” (Mateus 27:20, NVI). A multidão não chegou àquela conclusão sozinha. Foi conduzida por lideranças que tinham seus próprios interesses, interesses que nada tinham a ver com justiça e tudo a ver com preservação de poder.
Terceiro, houve uma decisão formalmente popular que era moralmente perversa. Do ponto de vista do procedimento, tudo pareceu correto: o governador consultou o povo, o povo se manifestou, a decisão foi executada. Do ponto de vista da verdade e da justiça, o resultado foi a maior injustiça da história humana.
Procedimento correto e resultado injusto. Forma legítima e conteúdo corrupto. Essa combinação deveria nos fazer pensar.
O Líder Que Lava as Mãos
De todos os personagens do episódio, Pilatos é o mais relevante para a reflexão sobre liderança na igreja. E talvez o mais incômodo.
Porque Pilatos não era ignorante. Não era tolo. Não foi enganado sobre quem era Jesus. Ele sabia. E mesmo assim escolheu não assumir a responsabilidade que o conhecimento lhe impunha. Em vez de liderar, consultou. Em vez de decidir com base na verdade, delegou a decisão a uma multidão que ele mesmo sabia estar sendo conduzida por outros.
Dentro de igrejas e denominações, essa figura aparece com mais frequência do que gostaríamos de admitir. É o líder que sabe que determinado processo está sendo manipulado, mas prefere não se posicionar. O presidente de conselho que percebe que a articulação de bastidores já definiu o resultado, mas deixa a assembleia seguir como se tudo fosse espontâneo. O pastor que reconhece que certo candidato não tem o perfil adequado, mas não quer criar atrito com quem o indicou. Qualquer pessoa em posição de responsabilidade que, diante de uma decisão difícil, prefere transferi-la para o coletivo, não por valorizar a participação comunitária, mas por medo de arcar com o custo de fazer o que é certo.
Há uma diferença enorme entre consultar a comunidade porque se acredita no discernimento coletivo e jogar a decisão para a comunidade porque não se tem coragem de decidir. A primeira atitude é saudável. A segunda é a versão eclesiástica de lavar as mãos.
A Multidão Conduzida
O outro lado do episódio é igualmente instrutivo. A multidão não era formada por pessoas más. Provavelmente havia ali gente que dias antes havia ouvido Jesus ensinar no templo. Gente que viu milagres. Gente que gritou “Hosana” quando ele entrou em Jerusalém montado num jumento. E agora essa mesma gente gritava “Crucifica-o.”
O que mudou? Não foi a verdade sobre Jesus. O que mudou foi quem estava falando mais alto nos ouvidos daquela multidão.
Mateus é específico: os chefes dos sacerdotes convenceram o povo. A palavra importa muito. Persuasão é técnica. É intencional. Envolve argumentos, pressão emocional, criação de medo, direcionamento do sentimento coletivo. Aquelas lideranças religiosas sabiam o que estavam fazendo. Sabiam que uma multidão reunida, sob pressão, em clima de festa e tensão política, era manipulável. E manipularam sem o menor escrúpulo.
Quem já viveu assembleias eclesiásticas de perto conhece versões menores desse mecanismo. A conversa que acontece antes da reunião, direcionando o voto. A informação que circula de forma seletiva, favorecendo um lado. O clima emocional criado para que questionamentos soem como falta de fé ou de unidade. A pressão silenciosa de pertencer a um grupo que já decidiu como vai votar. A sensação de que discordar publicamente tem custo alto demais.
Nada disso exige maldade consciente de todos os envolvidos. Basta que algumas pessoas com influência direcionem o processo, e que a maioria siga o fluxo, por confiança, por comodidade, por medo de conflito ou simplesmente porque é mais fácil concordar do que pensar.
O Que Barrabás Não Prova
É preciso dizer com clareza: o episódio de Barrabás não prova que toda participação popular é ruim. Não prova que assembleias são inerentemente perigosas. Não autoriza ninguém a dizer que a igreja seria melhor governada por um líder forte que decide sozinho sem consultar ninguém.
Autoritarismo espiritualizado não é a solução para assembleias manipuladas. A solução para uma comunidade conduzida por bastidores não é tirar a voz da comunidade, é purificar o processo pelo qual essa voz se expressa.
O que Barrabás prova é outra coisa, e é importante. Que decisões coletivas podem ser moralmente erradas. Que maioria não é sinônimo de verdade. Que o fato de muita gente concordar com algo não torna esse algo correto diante de Deus. E que todo processo de decisão coletiva precisa ser avaliado não apenas pelo procedimento, mas pelo que aconteceu antes dele, pelas influências, pelas pressões, pelas informações que circularam ou que foram escondidas, pelo clima que foi criado.
O episódio também mostra que lideranças influentes podem conduzir comunidades inteiras na direção errada, e que isso acontece com mais facilidade quando a comunidade não tem o hábito de pensar por si mesma, de questionar, de verificar, de pedir tempo antes de decidir.
Mas acima de tudo, mostra que quando um líder sabe o que é justo e escolhe lavar as mãos em vez de agir, o resultado pode ser catastrófico. Pilatos não se tornou inocente porque delegou a decisão ao povo. Tornou-se mais culpado, porque tinha a verdade e a trocou por conveniência.
O Que Isso Tem a Ver Com a Igreja
Tudo.
Toda vez que uma assembleia é convocada para ratificar uma decisão que já foi tomada nos bastidores, há algo de Pilatos nesse processo. Toda vez que lideranças influentes direcionam o voto antes da reunião, por conversas privadas, por pressão relacional, por manipulação de informação, há algo dos chefes dos sacerdotes nesse processo. Toda vez que uma comunidade vota sem ter tido tempo, liberdade e informação para discernir de verdade, há algo da multidão de Jerusalém nesse processo.
E toda vez que o resultado de uma votação é tratado como se fosse automaticamente a vontade de Deus, simplesmente porque foi votado pela maioria, estamos confundindo procedimento com verdade. A maioria pode estar certa. Mas o fato de ser maioria não a torna certa.
No artigo anterior, vimos que os apóstolos em Atos 1 oraram pedindo que Deus mostrasse sua escolha. Aqui, diante do pretório, ninguém ora. Ninguém busca a vontade de Deus. Ninguém se pergunta o que é justo. O que opera é pressão, medo, conveniência e manipulação. O contraste entre as duas cenas é gritante. E deveria servir de espelho para toda comunidade cristã que precisa tomar decisões coletivas.
A pergunta que fica para cada assembleia, cada conselho, cada concílio e cada processo de escolha é simples e incômoda: estamos mais perto de Atos 1 ou mais perto do pretório de Pilatos?
Você já presenciou uma situação em que a comunidade foi mais conduzida do que consultada? Como percebeu isso, e o que poderia ter sido diferente? Deixe nos comentários.
Antes de escolher líderes, a igreja precisa ser igreja
Atos 1 pressupõe uma comunidade capaz de se subordinar à vontade de Deus. Bonhoeffer passou a vida inteira tentando entender o que é preciso para que essa comunidade exista de verdade.

Vida em Comunhão não é livro sobre processo eleitoral. É sobre o que precisa existir antes de qualquer processo: uma comunidade que aprendeu a ouvir mais do que a se afirmar, que reconhece Cristo como autoridade real e não apenas nominal, que pratica em conjunto o que professa individualmente. O que os apóstolos fizeram em Atos 1 pressupunha exatamente esse tipo de comunidade. Bonhoeffer, escrevendo de dentro de uma das experiências comunitárias mais exigentes do século XX, mostra o que custa construí-la. Para quem leu este artigo e percebeu que o problema vai mais fundo do que o método de votação, este é o próximo passo.
Se a postura de Atos 1 parece distante da sua igreja, este livro ajuda a entender por quê.
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