Quem Substituirá Judas Iscariotes?: Quando a Igreja Ora Antes de Escolher

Leia Aqui o Artigo 1: A Eleição Que Acontece nos Bastidores


Este é o segundo artigo de uma série de seis sobre como a igreja escolhe seus líderes. No artigo anterior, tratamos do problema do candidato único e da eleição que acontece antes da votação. Agora, vamos ao texto bíblico que está na raiz dessa reflexão inteira.

Depois da ascensão de Jesus, os discípulos ficaram com um problema prático que precisava ser resolvido. O grupo dos doze estava incompleto. Judas Iscariotes havia traído Jesus e estava morto. O colégio apostólico, aquele círculo que seria testemunha fundante da ressurreição, tinha uma cadeira vazia. E Pedro, diante de cerca de cento e vinte irmãos reunidos, levantou a questão: alguém precisa ocupar esse lugar.

O que aconteceu em seguida está registrado em Atos 1:21-26. E o modo como aquele processo foi conduzido deveria, no mínimo, provocar desconforto em qualquer pessoa que já participou de uma eleição eclesiástica apressada, politizada ou decidida nos bastidores antes mesmo de começar.


O Que Eles Fizeram, e a Ordem em Que Fizeram

Primeiro, definiram critérios. Não abriram com a pergunta “quem quer?”, nem com “quem vocês indicam?”. Pedro estabeleceu condições objetivas: o substituto precisava ser alguém que tivesse acompanhado Jesus durante todo o seu ministério terreno, desde o batismo de João até a ascensão. Era um critério claro, público e verificável. Ninguém precisava adivinhar o que se esperava. O perfil veio antes do nome.

Segundo, chegaram a dois nomes: José, chamado Barsabás, e Matias. O texto não explica em detalhe como se chegou a esses dois. Provavelmente por reconhecimento da comunidade, pessoas que atendiam aos critérios e eram conhecidas pelo grupo. Mas o ponto é que havia mais de um nome. Havia escolha real. A comunidade não foi convocada para confirmar uma decisão já feita.

Terceiro, oraram. E a oração deles merece ser lida com atenção: “Senhor, tu conheces o coração de todos. Mostra-nos qual destes dois tens escolhido para ocupar o lugar neste ministério e apostolado, que Judas abandonou” (Atos 1:24-25, NVI). Repare no que dizem: tu conheces, tu escolheste. A escolha pertence a Deus. A comunidade não está decidindo; está pedindo para ver o que Deus já decidiu. A oração aqui não é formalidade litúrgica antes de uma votação humana, é confissão de dependência.

Quarto, e somente depois de tudo isso, lançaram sortes. E a sorte caiu sobre Matias.


O Que o Sorteio Significava

Para ouvidos modernos, lançar sortes soa estranho. Soa aleatório, quase supersticioso. Mas no contexto bíblico, o sorteio tinha um significado teológico preciso: era uma forma de retirar a decisão das mãos humanas e colocá-la nas mãos de Deus. Provérbios já dizia: “A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor” (Provérbios 16:33, NVI).

O sorteio, naquele contexto, era o oposto da aleatoriedade. Era confissão de que Deus governa até o que parece acaso. E tinha uma implicação prática que vale destacar: ele despessoalizava a escolha. Ninguém votou em Matias por simpatia. Ninguém deixou de votar em Barsabás por antipatia. Não houve campanha. Não houve articulação de bastidores. Não houve o problema que levantamos no artigo anterior, o nome “inevitável” que já estava eleito antes de qualquer discernimento.

O que os apóstolos fizeram foi construir um processo em que cada etapa limitava a interferência de interesses pessoais: critérios objetivos limitavam quem poderia entrar. Oração reorientava o coração da comunidade. E o sorteio eliminava a possibilidade de que preferências, amizades, influência política ou jogos de poder determinassem o resultado.


O Que Atos 1 Não Ensina

Dito tudo isso, é preciso dizer com a mesma clareza o que esse texto não autoriza.

Atos 1 não é um manual de procedimento eleitoral para a igreja de todos os tempos. O contexto é único: trata-se da recomposição do colégio apostólico, o grupo das doze testemunhas fundantes da ressurreição, que teria papel irrepetível na história da redenção. Não é a escolha de um presidente de comunidade, de um presbítero, de um diácono ou de um membro de conselho.

Além disso, depois de Pentecostes, o Novo Testamento não volta a registrar o sorteio como método de escolha de líderes. Em Atos 6, quando surge a necessidade de organizar o serviço às viúvas, os apóstolos orientam a comunidade: “Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria” (Atos 6:3, NVI). A comunidade participa. Os apóstolos definem critérios. Os escolhidos são confirmados publicamente. Não há sorteio. Há discernimento comunitário sob orientação apostólica.

Em Atos 14:23, Paulo e Barnabé estabelecem presbíteros nas igrejas, ali a ação é mais diretamente ministerial. Em Tito 1:5, Tito recebe a incumbência de constituir presbíteros em cada cidade. O Novo Testamento apresenta diferentes formas de escolha em diferentes situações. Nenhuma delas é fixada como o único modelo correto para todos os tempos e lugares.

Transformar o sorteio no método “mais espiritual por definição” seria cometer um erro tão sério quanto sacralizar a votação democrática. O sorteio também pode ser manipulado: quem escolhe os nomes que entram no sorteio? Quem define os critérios prévios? Quem controla o processo antes do lançamento? Trocar uma eleição manipulada por um sorteio controlado nos bastidores não muda nada. Apenas muda a embalagem.


O Que Atos 1 de Fato Ensina

Se Atos 1 não nos obriga a sortear líderes, o que ele ensina?

A primeira lição é que critérios vêm antes de nomes. A primeira coisa que a comunidade fez não foi perguntar quem quer o cargo. Foi perguntar o que o cargo exige. Isso inverte a lógica de muitos processos eclesiásticos, onde o nome aparece primeiro e os critérios são, na melhor das hipóteses, ajustados depois para caber no nome que já existe.

A segunda é que oração não é decoração do processo. A oração dos apóstolos não foi a bênção pastoral que antecede uma votação já decidida. Foi confissão real de que eles não sabiam qual era a escolha certa e precisavam que Deus mostrasse. Há uma diferença enorme entre pedir que Deus abençoe o que já decidimos e pedir que Deus nos mostre o que ele decidiu. Os apóstolos fizeram o segundo.

A terceira é que a escolha pertence a Deus, não à comunidade. A comunidade participa, discerne, reconhece, mas não fabrica a vontade de Deus por maioria. O senhorio de Cristo sobre a igreja não se suspende durante assembleias. E todo processo que trata o voto como última instância, como se a maioria determinasse automaticamente a vontade divina, confunde ferramenta com fundamento.

Mas talvez acima de tudo, Atos 1 ensina que a igreja primitiva levou a sério a ideia de que suas próprias preferências, simpatias e articulações poderiam atrapalhar em vez de ajudar. Quando os apóstolos lançaram sortes, estavam dizendo, na prática: nós não confiamos em nós mesmos para fazer essa escolha sem que nossos interesses contaminem o processo. Precisamos de um mecanismo que nos tire do controle.

Essa humildade é rara. E é exatamente o que falta em muitos processos eclesiásticos contemporâneos, onde a confiança nos próprios métodos, na própria capacidade de articulação e na própria sabedoria política substituiu a dependência real de Deus.


A Pergunta Que Fica

Atos 1 não nos diz como devemos escolher líderes hoje. Mas nos confronta com uma pergunta que toda comunidade cristã precisa se fazer antes de iniciar qualquer processo de escolha:

Estamos escolhendo de um modo que deixa espaço real para Deus, ou estamos pedindo que Deus abençoe o que já decidimos sem ele?

Essa pergunta é mais difícil do que parece. Porque a maioria de nós prefere ter o controle do processo e pedir a bênção divina no final do que abrir mão do controle e esperar que Deus conduza. A primeira opção é mais confortável. A segunda exige fé.

Os apóstolos escolheram a segunda. E talvez esteja aí a lição mais importante de Atos 1. Não no sorteio em si, mas na postura que o antecedeu.

Você já esteve numa situação em que a oração antes de uma decisão da igreja parecia mais formalidade do que dependência real? Como podemos mudar isso? Deixe nos comentários.

Atos 1 pressupõe uma comunidade capaz de se subordinar à vontade de Deus. Bonhoeffer passou a vida inteira tentando entender o que é preciso para que essa comunidade exista de verdade.

Vida em Comunhão não é livro sobre processo eleitoral. É sobre o que precisa existir antes de qualquer processo: uma comunidade que aprendeu a ouvir mais do que a se afirmar, que reconhece Cristo como autoridade real e não apenas nominal, que pratica em conjunto o que professa individualmente. O que os apóstolos fizeram em Atos 1 pressupunha exatamente esse tipo de comunidade. Bonhoeffer, escrevendo de dentro de uma das experiências comunitárias mais exigentes do século XX, mostra o que custa construí-la. Para quem leu este artigo e percebeu que o problema vai mais fundo do que o método de votação, este é o próximo passo.

Se a postura de Atos 1 parece distante da sua igreja, este livro ajuda a entender por quê.


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