Em março de 1521, pouco antes de ser julgado em Worms, Martinho Lutero terminou de escrever a dedicatória de um livrinho sobre o cântico de Maria, o Magnificat. O destinatário era João Frederico, um rapaz de 17 anos, sobrinho de Frederico, o Sábio, príncipe-eleitor da Saxônia. Esperava-se que um dia o jovem governasse a Saxônia, e Lutero escreveu pensando nisso. Não lhe pediu favores nem proteção. Escreveu porque sabia o que o poder faz com o coração humano, e achou que não havia em toda a Escritura texto melhor para um futuro governante do que a canção de uma moça pobre que aprendeu que Deus derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes.

A cada eleição, alguém recebe esse poder. Prefeitos, governadores, presidentes, parlamentares assumem cargos que lhes dão autoridade sobre a vida de milhares, às vezes milhões de pessoas. Inspirado na carta de Lutero, escrevi a minha. Ela não tem destinatário com nome. Está endereçada a quem governa hoje e a quem vai governar amanhã, de qualquer partido e em qualquer esfera.


A quem governa,

Escrevo sem saber o seu nome, o seu cargo ou o seu partido. Talvez você esteja começando um mandato, talvez esteja no meio dele, talvez ainda esteja em campanha. Não importa. O que tenho a dizer vale para qualquer pessoa que tenha recebido poder sobre outras, e convém ouvir isso enquanto o poder ainda não virou hábito.

Escrevo como cristão. Talvez você confesse a mesma fé; talvez não. Se confessa, o que vem a seguir é também um lembrete do que essa fé exige de quem governa. Se não confessa, peço apenas que leia o que um pastor alemão escreveu a um príncipe há cinco séculos, porque ele disse com uma clareza rara o que acontece com quem recebe autoridade. Não lhe peço votos, cargos nem favores para a minha igreja.

O poder revela o que já estava lá. Lutero começa com uma observação sobre o coração humano: por natureza, carne e sangue, ele já é por si mesmo facilmente presunçoso. Quando recebe poder, riqueza e honra, essa inclinação ganha combustível, e o governante esquece de Deus e deixa de enxergar as pessoas que governa. Lutero cita um sábio grego, Biasde Priene , para dizer que é no governar que se mostra quem uma pessoa realmente é. Você conhece a sua própria história melhor do que qualquer eleitor. Mas ninguém, nem você, conhece ainda a pessoa que você será depois de alguns anos no cargo. Isso não é ofensa. É a advertência que se faz a todo ser humano que recebe muito poder.

Você existe para os outros. Lutero diz uma coisa dura e verdadeira: os governantes estão postos para serem úteis ou nocivos a outras pessoas, e tanto mais quanto maior é o alcance do seu governo. A decisão de um cidadão comum afeta a ele e a poucos. A sua alcança uma cidade, um estado, às vezes um país inteiro. Por isso Lutero conclui que quem governa precisa temer a Deus mais do que os outros, justamente porque não tem acima de si nenhum ser humano a quem temer. Você terá assessores, aliados, adversários, tribunais, imprensa. Mas haverá momentos, sozinho, em que só a consciência diante de Deus vai separar o certo do conveniente.

Olhe para baixo. O centro do Magnificat é uma descoberta de Maria: Deus olhou para a sua pequenez. Lutero transforma isso numa imagem que deveria estar na mesa de todo gabinete: os olhos de Deus olham apenas para as profundezas, não para as alturas. Os olhos humanos fazem o contrário. Todo mundo olha para cima, para quem tem poder, dinheiro e prestígio, e desvia o olhar de onde há pobreza, vergonha e angústia. Você passará o mandato cercado de gente importante. Os que mais precisam do seu governo raramente estarão na sala. Peço que procure por eles. Na fila do posto de saúde, no ônibus lotado da periferia, na casa de quem tem medo de não chegar ao fim do mês. É para lá que Deus olha.

Não governe em nome de Deus contra ninguém. Esta talvez seja a advertência mais incômoda de Lutero, e a mais necessária para um governante que se diz cristão. Ao comentar o versículo sobre os soberbos, ele diz que os piores inimigos da verdade são os que têm certeza absoluta de estar certos e perseguem os outros dizendo que o fazem a serviço de Deus, piores até do que os ricos e os poderosos. Lutero conhecia bem esse perfil: devotos, estudiosos, convictos, incapazes de ouvir. O Brasil conhece também. Se você confessa uma fé, lembre que o nome de Deus não é instrumento de campanha nem argumento para calar adversários. Quando um governante começa a falar como se Deus estivesse do lado dele contra os outros cidadãos, já confundiu a própria vontade com a vontade de Deus.

Ter razão não autoriza destruir. Lutero faz uma distinção que a política costuma esquecer: uma coisa é confessar o que é certo, outra é querer vencer a qualquer custo. A você foi ordenado confessar; vencer, Deus reservou para si. O governante deve defender o que é justo, mas não de um modo que cause dano maior do que o mal que pretendia corrigir. Lutero usa uma imagem doméstica: não se levanta uma colher pisando na tigela inteira. Você terá adversários, e alguns serão injustos com você. Peço que não governe para derrotá-los, e sim para servir também aos que votaram neles. Toda sociedade entregue a um governante carrega divisões, e o que ela espera de quem governa é que a costure.

As instituições ficam; os que abusam delas caem. Repare num detalhe que Lutero aponta no cântico: Maria não diz que Deus destrói os tronos, e sim que derruba deles os poderosos. Enquanto o mundo existir, diz Lutero, haverá governo, autoridade e cargos. O que Deus não tolera por muito tempo é o uso desses cargos contra os fracos. Você herda instituições imperfeitas: um parlamento, tribunais, uma imprensa, órgãos de controle que muitas vezes vão contrariá-lo. Peço que não as trate como inimigas. Elas existiam antes de você e continuarão depois. O trono não é seu. Você apenas se senta nele por um tempo.

Desconfie dos que só aplaudem. Lutero escreve que a riqueza, a honra, o poder e, junto com eles, os bajuladores, sem os quais nenhum governante existe, cercam o coração de quem governa como um exército cerca uma cidade, e que não há fortaleza mais sitiada do que essa. Hoje os bajuladores têm redes sociais, números de engajamento e grupos de mensagens. O reformador aconselha o jovem príncipe a não desprezar o conselho de ninguém, mas também a não confiar cegamente no de ninguém. E acrescenta que o inimigo mais perigoso de quem governa mora dentro dele: a própria opinião, a confiança no próprio julgamento. Cerque-se de quem tenha coragem de lhe dizer ‘não’.

Os gestos religiosos não substituem o governo. No fim da carta, Lutero diz ao príncipe que, se ele não amar o seu povo e não fizer da melhora da vida desse povo a sua preocupação, de nada adiantará fundar mosteiros e altares: Deus vai pedir contas do seu ofício e não aceitará outra coisa no lugar. Cultos em gabinetes, bênçãos públicas e versículos em discursos não compensam um governo injusto. O que Deus vai perguntar a quem governa é como governou os que lhe foram confiados, e não quantas vezes citou a Bíblia.

Ore você mesmo. Lutero adverte o príncipe a não deixar a oração por conta de padres e monges, como era costume, e a falar com Deus pessoalmente, em segredo. Sugere uma oração inspirada na de Salomão no início do seu reinado (1 Reis 3.9), que eu adapto do alemão e deixo como presente:

Meu Deus e Pai, foi obra e ordem tua que eu fosse posto neste lugar para governar. Digno ou indigno, aqui estou, como tu e todos podem ver. Concede-me, então, que eu presida o teu povo para o teu louvor e para o bem dele. Não me deixes seguir a minha razão. Sê tu a minha razão.

Lutero lembra que a Escritura elogiou pouquíssimos reis, mesmo em Israel, e que até Davi tropeçou. Não digo isso para desanimar ninguém, e sim para lembrar que nenhum governante está acima da advertência. Ninguém está.

Termino como Lutero terminou: confiando a Deus quem governa. Vou orar por você, como a Escritura manda orar pelos que exercem autoridade (1 Timóteo 2.1-2). Não para que este ou aquele partido vença, mas para que você tenha temor diante de Deus e misericórdia diante dos pequenos, as duas coisas que, segundo o cântico de Maria, Deus nunca separa.

Com respeito, e com a franqueza de quem lhe deseja o bem,

Rodomar Ricardo Ramlow


Rodomar Ricardo Ramlow é teólogo, escritor, professor e criador de conteúdos em textos e vídeos. Reside em Nova Petrópolis, RS. É casado com Débora, pai de Sophia e Henrique.


Se você pudesse acrescentar um conselho a esta carta, o que diria a quem governa? Deixe nos comentários.

Excomungado em janeiro e a poucas semanas de Worms, Lutero reservou tempo para escrever sobre uma moça de aldeia.

Magnificat: o louvor de Maria, mostra um Lutero que o leitor evangélico raramente encontra. Ele honra a Mãe de Deus sem reservas e, na mesma página, recusa que alguém lhe atribua o que pertence só à graça. Ensina que os olhos de Deus olham sempre para baixo, que quem se julga humilde já perdeu a humildade e que os piores inimigos da verdade são os religiosos que rezam, jejuam e estudam tanto que não admitem estar errados. Dedica tudo a um príncipe de dezessete anos, com a advertência de que é no governar que se revela quem o homem realmente é. Há também passagens que um protestante de hoje vai estranhar, porque Lutero ainda não tinha chegado onde chegaria

Em 1521 Lutero ainda cria muito do que depois abandonou. Só o texto completo mostra onde ele estava e para onde o próprio argumento já o empurrava.


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