Em algumas igrejas evangélicas brasileiras, circulam óleo ungido, água, rosas, sal e pulseiras abençoadas, apresentados como instrumentos de proteção, cura ou vitória. Em outras, o sinal é mais discreto: a convicção de que a oração do pastor pesa mais do que a de qualquer membro. Muitos evangélicos brasileiros vieram, eles mesmos ou suas famílias, do catolicismo, e vale perguntar se vieram inteiros ou se parte da maneira de se relacionar com Deus ficou pelo caminho.

O crescimento do evangelicalismo no Brasil não significa, por si só, uma ruptura profunda com a mentalidade religiosa que o país formou ao longo dos séculos. Mudar de filiação religiosa pode vir acompanhado da permanência de hábitos e expectativas que não foram examinados à luz das convicções da nova fé.

Neste artigo, retomo a provocação de Augustus Nicodemus em “A alma católica dos evangélicos no Brasil”, publicada em 2007 na revista Fé para Hoje, e a coloco ao lado do trabalho de Leonardo De Chirico sobre as diferenças teológicas entre o catolicismo romano e o evangelicalismo. A expressão “alma católica” não afirma que todo evangélico carregue uma mesma essência. Designa disposições religiosas que podem sobreviver à mudança de confissão e que, de formas parecidas, aparecem em qualquer tradição, porque pertencem à condição humana. A questão vai além de práticas devocionais: alcança o modo de entender autoridade, mediação, sacramentalidade, igreja e vida cristã.

Escrevo de uma perspectiva protestante, e sustento que a Reforma não foi apenas uma troca de denominação. Ela exige reorientar a compreensão da salvação, da autoridade das Escrituras e da suficiência de Cristo. Mas a reflexão precisa terminar em autocrítica, porque igrejas evangélicas também desenvolvem práticas que contradizem o que professam. O propósito não é alimentar hostilidade entre católicos e evangélicos. É examinar as diferenças que de fato importam e perguntar se as nossas comunidades vivem o evangelho que anunciam.

A Reforma chegou à alma?

Há uma pergunta incômoda a fazer à igreja evangélica brasileira: o que acontece quando alguém deixa o catolicismo romano, mas conserva maneiras de pensar e praticar a religião aprendidas no ambiente católico? Uma pessoa pode trocar de comunidade sem rever, de imediato, todos os pressupostos que orientam a sua experiência de fé: a ideia de Deus, de igreja, de autoridade, de salvação.

Nicodemus parte de uma analogia bíblica. Os cristãos de Corinto haviam sido lavados, santificados e justificados em nome do Senhor Jesus ([1 Coríntios 6:9-11]), e nem por isso mudaram de mentalidade de uma vez. Paulo mostra, na primeira carta, duas áreas em que eles continuavam agindo como pagãos: a visão dicotômica grega, que divide o mundo em matéria e espírito e dificultava aceitar tanto as relações sexuais no casamento quanto a ressurreição física, e o culto à personalidade, que os levou a formar partidos em torno de Paulo, Pedro, Apolo e até de Cristo. Eram cristãos, diz Nicodemus, mas com a “alma grega pagã”. Da mesma forma, ele crê que grande parte dos evangélicos brasileiros tem a alma católica.

Ele identifica cinco tendências: o gosto por bispos e apóstolos, a ideia de que pastores são mediadores entre Deus e os homens, o apego místico a objetos sagrados, a separação entre sagrado e profano, e a convicção de que só os pecados sexuais são realmente graves. Quanto a essa última, o problema pastoral é real: comunidades podem disciplinar com rigor certos comportamentos e tolerar desonestidade, abuso de poder e exploração. Nicodemus a liga à distinção católica entre pecados mortais e veniais. Mas a causa pode estar também num conservadorismo cultural, na reputação comunitária ou em relações de poder, e apontar uma origem única exigiria evidência.

A observação merece atenção, desde que não vire generalização sobre todos os evangélicos ou todos os católicos. O próprio Nicodemus faz a ressalva: essas tendências, antes de serem católicas, pertencem à natureza humana decaída e se manifestam em todos os sistemas. Ele lembra, com o historiador da ciência R. Hooykaas, que no fundo somos todos romanos. Alguns sistemas, porém, seriam mais vulneráveis a elas, e ele pensa que é o caso do catolicismo no Brasil. Nem toda semelhança entre práticas demonstra influência histórica direta: algumas disposições passam de geração em geração pela cultura, outras são reinterpretadas em ambientes novos, outras surgem em tradições diferentes porque respondem a necessidades humanas parecidas. A provocação continua pertinente: a conversão não elimina sozinha os hábitos e pressupostos que a pessoa traz.

Seria fácil transformar isso numa acusação contra os católicos: supersticiosos, dependentes de autoridades, presos a práticas que os evangélicos teriam superado. Isso ignoraria a advertência mais importante do argumento. O desejo de controlar o futuro, de buscar segurança em figuras de autoridade ou de recorrer a objetos que prometem proteção não some quando alguém adota uma confissão protestante. A pergunta, então, não é só o que os evangélicos deixaram para trás, mas o que ainda precisam rever.

A Reforma discutiu a autoridade das Escrituras, a justificação, os sacramentos, o ministério e a suficiência de Cristo. Seus princípios não foram formulados para produzir apenas uma nova identidade institucional: pretendiam corrigir doutrinas e práticas tidas como incompatíveis com o testemunho bíblico. Por isso uma igreja pode cantar sola gratia e, na prática, ensinar que a bênção depende de campanhas, sacrifícios ou desempenhos religiosos. Pode confessar solus Christus e dar a certos líderes uma importância que ultrapassa a função pastoral. Pode afirmar sola Scriptura e subordinar decisões espirituais a revelações particulares, a objetos supostamente poderosos ou a palavras humanas tratadas como incontestáveis. Reconhecer pastores, valorizar a oração e buscar orientação espiritual não é o problema. O problema é atribuir a essas coisas uma função que compromete a suficiência de Cristo e a autoridade da Palavra.

As mesmas palavras, mundos diferentes

Leonardo De Chirico oferece outro ângulo, que não é o de Nicodemus: em vez de disposições culturais, examina o conteúdo teológico. Em Mesmas palavras, universos distintos (Vida Nova), ele mostra que usar um vocabulário cristão comum não significa concordar sobre o conteúdo da fé. Católicos e evangélicos falam de Cristo, graça, salvação, fé e igreja, mas essas palavras podem fazer parte de sistemas teológicos diferentes, com entendimentos distintos de autoridade, justificação, sacramentos e mediação. Duas pessoas podem dizer “graça” e discordar sobre como ela atua na salvação. Podem afirmar que Cristo é Salvador e entender de modos diferentes a relação entre a obra dele, os sacramentos e a participação humana. Podem chamar a igreja de corpo de Cristo e divergir sobre a sua autoridade, a sua estrutura e a sua relação com a tradição.

Isso vale para a apologética. Uma discussão que se limita a perguntar se a outra tradição usa imagens, invoca santos ou reconhece o papa pode tratar dos sinais exteriores sem investigar as razões teológicas que os sustentam. A questão das imagens exige entender o que a teologia católica diz sobre veneração e adoração e examinar as objeções protestantes à luz das Escrituras. O debate sobre os santos exige investigar a comunhão dos santos, a intercessão e a mediação de Cristo. A discussão sobre o papado precisa considerar concepções concorrentes de autoridade eclesiástica. E com a salvação o rigor é o mesmo: não basta dizer que católicos e evangélicos discordam sobre a justificação, é preciso explicar em que consiste o desacordo. Uma apologética responsável entende o argumento do interlocutor, examina as fontes dele e só então apresenta razões para discordar.

O problema da mediação

Poucas questões pesam tanto na identidade protestante quanto a mediação de Cristo. Paulo escreve que há um só Deus e “um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5). Para a tradição protestante, a obra de Cristo basta para reconciliar o pecador com Deus: não há outro redentor, nem outra obra que substitua ou complete a dele.

A afirmação precisa ser lida no seu contexto. O mesmo capítulo recomenda súplicas, orações e intercessões em favor de todos (1 Timóteo 2:1). Que haja intercessão cristã não nega, por si só, a mediação única de Cristo. O desacordo entre católicos e protestantes aparece de modo mais específico na invocação dos santos e na intercessão dos falecidos. A teologia católica afirma que a intercessão dos santos depende de Cristo e não é uma mediação redentora independente (Catecismo da Igreja Católica, 956-957). A crítica protestante pergunta se a invocação tem base bíblica suficiente e se corresponde ao modo como o Novo Testamento apresenta o acesso do cristão a Deus. Essa divergência deve ser enfrentada de frente, sem atribuir aos católicos uma doutrina que eles não professam.

A mediação também ajuda a examinar práticas evangélicas. Nicodemus observa que, até nas igrejas chamadas históricas, os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles e como se os pastores funcionassem como mediadores entre eles e os favores divinos, e que setores neopentecostais exploram isso cada vez mais, com práticas como a oração dos 318 homens de Deus. O ministro deixa então de ser alguém que serve à comunidade e passa a ser alguém de quem depende o acesso privilegiado ao poder divino. É nesse sentido que se pode falar de um catolicismo funcional: não porque as doutrinas católicas e as práticas evangélicas sejam idênticas, mas porque certas práticas evangélicas podem reproduzir uma dependência religiosa que merece ser questionada. O pastor pode ser respeitado sem ser tratado como indispensável à relação do cristão com Deus.

O mesmo vale para a autoridade. A fascinação por bispos, apóstolos e líderes apresentados como detentores de uma autoridade espiritual extraordinária pede uma reflexão própria. A Reforma questionou formas de concentração da autoridade e da mediação religiosa que, segundo os reformadores, comprometiam a suficiência de Cristo e o acesso dos fiéis a Deus pela fé. Isso não foi rejeição do ministério pastoral, e sim contestação de qualquer autoridade que pretendesse um lugar incompatível com a primazia de Cristo. Em algumas expressões contemporâneas do evangelicalismo, porém, há líderes cercados de uma aura de excepcionalidade: a palavra deles parece não admitir contestação, questioná-los é apresentado como resistir ao próprio Deus, a presença deles é tida como indispensável para certas bênçãos. O vocabulário é outro, mas o problema é o mesmo. O pastor não é infalível. O título de apóstolo não torna ninguém imune ao exame das Escrituras. Uma experiência espiritual extraordinária, ainda que sincera, não dá autoridade sobre a consciência dos outros cristãos. A liderança saudável produz uma comunidade madura, e não dependente: o cristão precisa aprender a discernir, orar, estudar as Escrituras e responder pessoalmente diante de Deus. Quando a autoridade impede esse amadurecimento, a igreja deve perguntar se está formando discípulos de Cristo ou seguidores de personalidades.

A fé que cabe só no domingo

Outro ponto da reflexão de Nicodemus é a separação entre sagrado e profano. Ele a explica pela distinção entre natureza e graça em Tomás de Aquino, uma interpretação histórica dele que pede cautela, porque o princípio tomista conhecido é que a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa. Seja qual for a genealogia que se proponha, o fenômeno existe e pode ser examinado sem ela, e vale ampliá-lo, porque toca um problema recorrente na experiência cristã: a fragmentação da vida.

Reconhecer a importância particular do culto, da oração e da reunião da igreja não é o problema. Essas práticas pertencem à vida cristã e não precisam ser desvalorizadas para que o resto da existência seja levado a sério. A dificuldade aparece quando a fé fica confinada a certos horários, lugares e atividades. O cristão participa do culto no domingo, mas não considera as implicações da sua fé para o trabalho, a educação, a política, a economia, a ciência, a tecnologia, a família e a cidadania. Deus recebe o culto, mas a vontade dele parece não alcançar a profissão. A oração é importante, mas não orienta necessariamente o exercício da inteligência. A vida religiosa se preserva enquanto as decisões do cotidiano seguem critérios alheios às convicções cristãs.

Essa fragmentação não é exclusiva do catolicismo romano. Pode aparecer em igrejas evangélicas, inclusive nas que se identificam com a tradição reformada. A herança reformada oferece recursos para enfrentá-la: a vocação cristã não se restringe às atividades tidas como religiosas, e o trabalho, a vida familiar, a produção cultural e as responsabilidades públicas também devem ser exercidos diante de Deus. A pergunta não é se determinada atividade é religiosa ou secular, e sim como ela deve ser entendida e realizada à luz da fé cristã. A Reforma perde parte do seu alcance quando os seus princípios ficam confinados à doutrina da salvação e não produzem consequências no modo como os cristãos vivem no mundo.

Óleo, água e rosas: a tentação de manipular o sagrado

Copo d’água, rosa ungida, sal grosso, pulseiras abençoadas, óleo de oliveiras de Jerusalém, água do Jordão: Nicodemus enumera objetos como esses entre setores evangélicos. O uso varia bastante, e não seria justo atribuir a todos os praticantes a mesma compreensão. Tiago, aliás, manda os presbíteros orarem sobre o enfermo e ungi-lo com óleo em nome do Senhor (Tiago 5:14). O óleo, em si, não é o problema. O que a crítica examina é a eficácia que se atribui a ele: uma oração acompanhada de óleo não é a mesma coisa que a crença de que um frasco trazido de longe carrega, por si, um poder espiritual especial.

O problema aparece quando o objeto deixa de ser um simples elemento simbólico e passa a ser apresentado como instrumento dotado de poder espiritual específico, capaz de garantir proteção, cura, prosperidade ou vitória. Nesse caso, a confiança corre o risco de se deslocar da promessa de Deus para um mecanismo religioso. Em vez de buscar discernir a vontade divina e confiar em Cristo, o fiel pode ser levado a acreditar que precisa ter determinado objeto, participar de um ritual ou cumprir uma instrução para assegurar o resultado desejado. É aí que a religião assume uma lógica mágica: a expectativa de que um procedimento corretamente executado produza, de modo previsível, o efeito espiritual pretendido. Isso não quer dizer que todo símbolo religioso seja supersticioso. O cristianismo tem sinais, ritos e práticas comunitárias. O que importa é saber que significado lhes é atribuído e que tipo de confiança eles despertam. A teologia protestante, ao insistir na suficiência de Cristo e na centralidade da Palavra, oferece critérios para avaliar essas práticas: um objeto não pode substituir a fé, garantir o favor divino ou funcionar como instrumento de controle de Deus. E a crítica precisa alcançar a própria igreja evangélica, porque não basta denunciar a superstição alheia enquanto se oferecem objetos, campanhas ou fórmulas religiosas como caminhos privilegiados para obter bênçãos.

Ao final do artigo, Nicodemus pergunta se o neopentecostalismo brasileiro não seria, afinal, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de “neocatolicismo tardio”. A expressão é útil, desde que o seu alcance fique claro. Ela é uma pergunta, e não uma demonstração: não significa que o neopentecostalismo e o catolicismo romano sejam teologicamente idênticos, nem prova que toda prática semelhante tenha origem histórica comum. O que se pode examinar são as funções que certas práticas cumprem. Uma figura religiosa pode ser tratada como detentora de acesso privilegiado ao poder divino. Um objeto pode ser apresentado como veículo indispensável de proteção. Uma campanha pode ganhar a forma de um percurso ritual ao qual se atribui a obtenção de uma bênção. Promessas religiosas podem estimular uma lógica de barganha com Deus.

Essas situações não equivalem, em todos os sentidos, às doutrinas católicas da intercessão dos santos, das relíquias, das peregrinações ou das indulgências, e cada uma dessas práticas tem história e interpretação teológica próprias. A analogia é legítima quando identifica uma semelhança delimitada, e deixa de ser quando apaga as diferenças. Uma campanha evangélica que promete prosperidade em troca de determinada contribuição pode ser criticada por transformar a relação com Deus numa transação. Isso não a torna idêntica à doutrina católica das indulgências, que diz respeito, segundo a compreensão católica, à remissão da pena temporal de pecados cuja culpa já foi perdoada. A crítica pode ser firme sem depender de equivalências imprecisas. E demonstrar que uma prática vem diretamente do catolicismo exige evidência histórica, enquanto identificar uma semelhança funcional exige outro tipo de análise. A advertência continua valendo: mudar de tradição religiosa não elimina a disposição humana de procurar pessoas, objetos, lugares e técnicas que ofereçam segurança diante do sagrado, e essa disposição precisa ser examinada onde quer que apareça.

Católicos e evangélicos creem no mesmo evangelho?

A reflexão de De Chirico leva a uma questão inevitável: as diferenças entre catolicismo romano e evangelicalismo atingem o centro da mensagem cristã? Responder exige evitar dois extremos.

O primeiro é um anticatolicismo superficial, que reduz o catolicismo à adoração de imagens ou a uma suposta rejeição da salvação pela graça. Além de não fazer justiça à doutrina católica, esse tipo de argumento não dá base adequada à crítica protestante. O segundo é tratar as diferenças confessionais como irrelevantes. Católicos e evangélicos confessam Jesus Cristo, reconhecem a Bíblia como Escritura sagrada e afirmam a necessidade da graça, e isso não significa que concordem em todas as questões fundamentais da fé.

A justificação é o exemplo decisivo. A Igreja Católica afirma que ela procede da graça de Deus, tem fundamento na obra redentora de Cristo e envolve a renovação interior do pecador, relacionando-a ao batismo, à transformação operada pela graça e à vida cristã (Catecismo, 1987-2029). A tradição protestante clássica enfatiza a justificação pela graça, mediante a fé, fundamentada na justiça de Cristo. Na compreensão reformada, a justificação se distingue da santificação: as boas obras são fruto necessário da fé viva, mas não são o fundamento meritório pelo qual o pecador é declarado justo diante de Deus (Confissão de Fé de Westminster, cap. XI). O desacordo, portanto, não é entre um catolicismo que crê em obras e um protestantismo que crê na graça. As duas tradições afirmam a necessidade da graça e a centralidade de Cristo, mas entendem de modo diferente a natureza da justificação, a relação entre fé e obras e o papel dos sacramentos. Há ainda divergências sobre a autoridade das Escrituras, a tradição, o magistério, a estrutura da igreja e a compreensão dos sacramentos, e nenhuma delas se resolve dizendo que todos usam o mesmo vocabulário cristão.

É por isso que a análise de De Chirico continua relevante: a unidade cristã não deve ser construída à custa do silêncio sobre questões teológicas substantivas. Isso não autoriza hostilidade contra os católicos. Exige que o diálogo seja honesto, e respeitar o interlocutor é levar a sério as convicções dele, inclusive quando discordamos. A pergunta sobre o evangelho se examina com o estudo das Escrituras, a compreensão das doutrinas em disputa e a consideração cuidadosa dos argumentos de cada tradição.

Uma Reforma que também começa em casa

Nicodemus observa algo que ajuda a entender por que a crítica ao catolicismo não basta. Segundo ele, o anticatolicismo dos evangélicos brasileiros se concentrou nas imagens, em Maria e em questões éticas como não fumar, não beber e não dançar, e não foi fundo o bastante para criticar o que moldou a mentalidade do brasileiro por séculos. Os evangélicos, escreve, precisam de conversão na mentalidade, na maneira de ver o mundo: levar cativo a Cristo todo pensamento, e não só os pecados (2 Coríntios 10:4-5).

A crítica ao catolicismo romano não pode, então, encerrar a reflexão. Se a Reforma continua sendo referência para as igrejas evangélicas, os seus princípios precisam ser aplicados também à vida dessas comunidades. Isso não é dizer que a Reforma do século XVI fracassou, nem que todas as igrejas evangélicas repetem os mesmos problemas. É reconhecer que nenhuma tradição cristã está imune à necessidade de examinar doutrinas e práticas à luz das Escrituras.

A igreja precisa perguntar se a sua pregação está centrada em Cristo ou na personalidade do pregador. Se a confiança dos fiéis repousa na promessa de Deus ou em experiências apresentadas como garantias de bênção. Se a autoridade pastoral serve à comunidade ou exige uma obediência que não admite exame. Se a fé alcança a vida inteira ou fica restrita ao culto. E precisa examinar como anuncia a salvação: a graça de Deus está sendo proclamada como fundamento da esperança cristã, ou a vida religiosa está sendo organizada como uma sucessão de condições para conquistar o favor divino? Essas perguntas não são sinais de infidelidade à tradição protestante. São parte da herança dela. A fórmula ecclesia reformata, semper reformanda, igreja reformada, sempre em reforma, tornou-se uma síntese conhecida dessa disposição. Ela não serve de justificativa para mudanças arbitrárias, mas lembra que a igreja precisa permanecer submetida à Palavra de Deus.

A apologética cristã corre o risco de virar defesa da própria identidade coletiva, quando o objetivo deixa de ser esclarecer a verdade e passa a ser demonstrar a superioridade do próprio grupo. A crítica ao catolicismo não precisa seguir esse caminho. É possível sustentar convicções protestantes firmes e reconhecer que os católicos devem ser entendidos à luz das doutrinas que de fato professam. É possível discordar da invocação dos santos sem dizer que os católicos pretendem substituir Cristo por outros salvadores. É possível criticar a compreensão católica dos sacramentos sem reduzir a doutrina a uma coleção de superstições. E a mesma disposição vale para a crítica interna. Antes de denunciar a dependência de líderes religiosos, precisamos examinar o espaço que damos a pastores, apóstolos, pregadores e influenciadores. Antes de criticar o uso supersticioso de objetos, devemos perguntar se as nossas práticas atribuem poder a instrumentos religiosos de modo incompatível com o evangelho. Antes de denunciar o apego a tradições humanas, precisamos ver quais costumes das nossas igrejas ganharam uma autoridade que as Escrituras não lhes dão. Essa autocrítica não enfraquece a apologética. Dá a ela mais credibilidade. A apologética se torna pastoral quando a preocupação com a verdade anda junto com o desejo de que as pessoas conheçam mais fundo a Cristo.

Sair de Roma é mais fácil do que tirar Roma de dentro de nós

A resposta ao problema não está em tornar os evangélicos mais conscientes da sua identidade protestante. O objetivo é que entendam e vivam mais fundo o evangelho que professam. Solus Christus, somente Cristo, não é um slogan para distinguir uma tradição de outra. Expressa uma convicção central da Reforma: a salvação repousa na obra de Jesus Cristo, e o pecador tem acesso ao Pai por meio dele. Cristo é o Mediador. A obra redentora dele basta. A igreja existe para anunciar a Palavra e servir à missão dele. O ministério pastoral deve levar os fiéis à maturidade cristã, e não torná-los dependentes de personalidades religiosas. A graça não é um recurso que objetos, contribuições financeiras ou procedimentos rituais possam manipular. A oração não é uma técnica para obrigar Deus a realizar os nossos desejos. A fé não é um instrumento para controlar o futuro, e sim confiança no Deus que se revelou em Cristo. Essa centralidade transforma também o modo de entender a vida: trabalho, família, cultura, educação e responsabilidades públicas deixam de ser compartimentos independentes da fé e passam a integrar a vocação cristã. A igreja precisa ensinar os seus membros a viver diante de Deus em todas essas dimensões, e isso pede pregação bíblica, formação teológica, discipulado e uma vida comunitária em que a autoridade seja exercida como serviço.

A provocação de Nicodemus continua valendo: é possível abandonar o catolicismo institucional sem examinar o bastante as disposições religiosas formadas num ambiente historicamente marcado por ele. De Chirico acrescenta algo decisivo: não basta comparar práticas exteriores, é preciso entender os universos teológicos em que elas encontram sentido. As duas contribuições não se confundem, porque uma trata da permanência de certas disposições no evangelicalismo brasileiro e a outra de diferenças doutrinárias entre as duas tradições, mas a articulação entre elas permite pensar de modo mais amplo a conversão, a cultura e a necessidade de reforma.

O problema da alma católica dos evangélicos não deve servir como arma contra os católicos. Deve funcionar como espelho para a própria igreja evangélica.

Talvez tenhamos abandonado certas práticas e ainda procuremos líderes de quem esperamos acesso privilegiado a Deus. Talvez tenhamos rejeitado objetos religiosos e ainda depositemos confiança em instrumentos a que atribuímos poder espiritual. Talvez defendamos a autoridade das Escrituras e hesitemos em questionar interpretações apresentadas por figuras carismáticas. Talvez confessemos a salvação pela graça e organizemos a vida religiosa como se pudéssemos conquistar o favor divino por desempenhos específicos. A questão não é apenas de onde viemos, mas o que governa a nossa fé hoje.

Onde colocamos a nossa confiança? Não em homens, como se fossem indispensáveis à nossa relação com Deus. Não em objetos, como se pudessem controlar o poder dele. Não em instituições, como se estivessem acima do exame da Palavra. Não em méritos ou técnicas religiosas, como se pudéssemos comprar o favor divino. A nossa esperança está em Jesus Cristo, cuja obra é o fundamento da salvação e cuja Palavra deve orientar a vida da igreja. A necessidade permanente da Reforma começa quando permitimos que essa verdade examine também a nós mesmos.

Somente Cristo.

Qual desses sinais você reconhece com mais facilidade na sua comunidade, e qual é o mais difícil de admitir? Deixe nos comentários.

Fontes consultadas

  • Bíblia, NVI. Especialmente 1 Timóteo 2:1-6; Tiago 5:14; 2 Coríntios 10:4-5; 1 Coríntios 6:9-11; Romanos 3-5; Efésios 2:1-10.
  • Confissão de Fé de Westminster. Capítulos XI e XXI.
  • De Chirico, Leonardo. Mesmas palavras, universos distintos: evangélicos e católicos romanos acreditam no mesmo evangelho? São Paulo: Edições Vida Nova, 2022.
  • Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica. Parágrafos 956-957 (intercessão dos santos) e 1987-2029 (graça e justificação).
  • Nicodemus, Augustus. “A alma católica dos evangélicos no Brasil”. Fé para Hoje, São José dos Campos: Editora Fiel, n. 30, 2007, p. 1-4. Disponível em: Ministério Fiel.

Romildo Ricardo Ramlow é pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Campo Mourão, Paraná. É casado com Samara e pai de Matias. Possui formação em Teologia, Serviço Social, Educação e Filosofia.


Falamos do mesmo Evangelho?

Católicos e evangélicos usam as mesmas palavras. De Chirico pergunta se vivem no mesmo mundo.

Mesmas palavras, universos distintos, de Leonardo De Chirico, parte de uma suspeita simples: duas pessoas podem usar a palavra “graça” e estar falando de sistemas teológicos diferentes. De Chirico, pastor evangélico em Roma e estudioso do catolicismo, examina como a teologia católica entende Cristo, a igreja e a salvação, e por que o vocabulário comum esconde diferenças reais. Ele escreve sem caricatura e sem ceder o conteúdo, o que raramente se encontra num tema tão carregado. Vale ler para aprender a discordar com precisão, que é o oposto de discordar com raiva.

Um estudioso renomado tanto da teologia católica quanto da evangélica, apresenta uma clara e profunda reflexão sobre a questão de católicos e evangélicos comungarem ou não da mesma mensagem.


LEIA MAIS…

O Magnificat de Lutero: o Deus que olha para baixo

Maria: o que a Bíblia diz e o que veio depois

A Unidade que Precede as Instituições: catolicidade da igreja de Jesus

Convicção Sem Violência: Por Que Protestantes Precisam Condenar Agressões a Símbolos Católicos


O Cristianismo Invisível do Ocidente: Por Que Nossa Moral Ainda é Profundamente Cristã

Sofrimento: quando a fé amadurece

Este devocional explora 1 Pedro 4:12-13, onde o apóstolo instrui cristãos perseguidos a não estranharem o sofrimento como algo alheio à fé. O sofrimento por causa de Cristo funciona como fogo que revela o que é genuíno e une o cristão à própria experiência de Jesus. Deus não desperdiça dor: usa-a para amadurecer o que…


Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Um espaço dedicado a explorar a igreja e a teologia a partir de uma perspectiva missional. Aqui, buscamos refletir sobre a missão de Deus no mundo, como a igreja pode viver de forma fiel ao chamado cristão e como podemos aplicar os ensinamentos bíblicos de maneira prática e transformadora em nossa sociedade.

Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo