Em 1º de novembro, a conta oficial de The Chosen publicou um teaser da sexta temporada com pouco mais de vinte segundos. Jesus está no Getsêmani, a noite pesa sobre as oliveiras e um grupo de guerreiros celestiais aguarda uma palavra dele. Jesus faz um sinal, e eles ficam onde estão. No dia seguinte, os anjos em The Chosen já eram assunto em portais cristãos e em todo canto das redes sociais.

As reações se dividiram. Houve quem aplaudisse a coragem visual da cena. Outros estranharam armas e figurinos que lembram povos indígenas americanos, e alguns foram além e enxergaram ali um aceno aos mórmons, com a palavra “nefitas” circulando nos comentários.

Eu gostaria de tirar esse debate das trincheiras e levá-lo para a mesa de estudo. Antes de perguntar se o figurino dos anjos em The Chosen é aceitável, vale perguntar como os anjos aparecem na Bíblia e o que Mateus e Lucas realmente afirmam sobre aquela noite. Quem faz esse caminho descobre que a imagem popular de um jovem de túnica branca e asas cobre só uma fração do que está escrito, e que alguns relatos bíblicos são bem mais estranhos do que qualquer teaser.

Devemos assumir uma posição de cautela com especulações sobre o mundo invisível, e isso vai aparecer no texto. A intenção, porém, é de conversa franca, sem sentença pronta.

Anjos em The Chosen: o que a série fez e o que ainda não sabemos

Criada por Dallas Jenkins, The Chosen acompanha a vida de Jesus pelos olhos de quem conviveu com ele. Pedro, Maria Madalena, Mateus e Nicodemos ganham histórias, conflitos e diálogos. O projeto nasceu em 2017, a partir de um curta-metragem e de um financiamento coletivo que reuniu milhões de dólares.

A equipe nunca vendeu a série como substituta da Bíblia. Jenkins já disse em público que o programa não finge ser a Escritura e que a Bíblia é a fonte principal de uma história ambientada na Galileia do primeiro século. Isso importa para o nosso assunto. Uma dramatização pode ajudar a imaginar a poeira das estradas, mas não acrescenta revelação.

A polêmica sobre os anjos em The Chosen chega antes da estreia. A sexta temporada vai ao ar no Prime Video em 15 de novembro de 2026, inclusive na América Latina. Segundo o comunicado oficial de abril, são seis episódios, três no dia da estreia e os demais semanais até 6 de dezembro, e o final da temporada será um lançamento independente nos cinemas na primavera de 2027, no hemisfério norte. O foco é o último dia de Jesus.

Anjos em The Chosen. Teologia Missional

Por que os anjos em The Chosen incomodaram tanta gente?

O que se viu no clipe foi um grupo variado de seres luminosos, e foi a figura de aparência indígena que concentrou as críticas. Alguns comentaristas falaram em diversidade forçada. Defensores da cena viram no figurino um símbolo de que os anjos não pertencem a uma cultura nem a uma época.

A associação com os mórmons tem uma base factual e uma lacuna.

A base: nas três primeiras temporadas, a distribuição passou pela Angel Studios, empresa de Utah, e a parceria terminou em 2024 depois de uma arbitragem.

Além disso, desde a segunda temporada a produção aluga para as gravações o cenário de Jerusalém em Goshen, Utah, que pertence à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. A lacuna: nada disso demonstra que o figurino responda a uma doutrina mórmon. A própria Igreja declarou, na época em que o aluguel foi aprovado, que ele não era um endosso, e Jenkins, que é evangélico, disse que não é membro dessa igreja.

Há ainda um detalhe que costuma passar batido nas discussões sobre os anjos em The Chosen. No Livro de Mórmon, os nefitas são um povo, e não uma categoria de anjos. A confusão tem uma ponta de lógica, porque na tradição mórmon o profeta nefita Morôni aparece a Joseph Smith como anjo. Mesmo assim, ligar o clipe a esse enredo é uma hipótese de espectadores. Até 3 de novembro, a produção não havia explicado publicamente de onde veio a inspiração do figurino.

O que a Bíblia diz sobre os anjos antes de discutirmos o figurino

A palavra hebraica mal’akh e a grega angelos significam mensageiro. O termo nomeia uma função, e não um aspecto físico. Hebreus 1:14 chama os anjos de espíritos a serviço de Deus, enviados em favor dos que herdarão a salvação. São criaturas, e não deuses menores nem almas de gente falecida.

João Calvino dedica um capítulo das Institutas aos anjos (livro I, capítulo 14) e faz ali algo bem característico dele: afirma com firmeza o serviço dos anjos e recusa a curiosidade sobre hierarquias e detalhes que a Escritura não traz. Para ele, a Bíblia fala de anjos para nos consolar e nos edificar, e não para satisfazer a nossa imaginação.

Boa parte da imagem popular vem da arte, e não do texto. Na Bíblia, as asas são atribuídas a serafins e querubins. Os mensageiros que se parecem com gente comum não têm asas mencionadas, e em Apocalipse 14:6 João vê um anjo voando pelo meio do céu sem dizer uma palavra sobre penas. O anjinho gorducho dos quadros veio da tradição artística europeia, que emprestou modelos da arte clássica.

Se a gente reunir o que o texto realmente diz, aparecem pelo menos cinco retratos bem diferentes.

1. Muitas vezes, os anjos parecem gente comum

Em Gênesis 18, Abraão está sentado à entrada da tenda, no calor do dia, quando vê três homens de pé. Ele corre ao encontro deles, manda buscar água, pão e um bezerro tenro. Só no capítulo seguinte o texto informa que dois deles eram anjos (Gênesis 19:1). Nenhuma asa, nenhuma luz, nenhum aviso.

Hebreus 13:2 retoma a cena para falar de hospitalidade e lembra que alguns acolheram anjos sem saber. A lição não é procurar anjos disfarçados em cada visitante. É que a generosidade não deve depender de sabermos quem está à porta.

2. Outras vezes, a presença deles faz tremer

Em Mateus 28:3, o anjo que anuncia a ressurreição tem aparência de relâmpago e roupas brancas como a neve, e os guardas ficam como mortos. Em Lucas 2:9, a glória do Senhor resplandece ao redor dos pastores, que sentem grande medo.

Daniel 10:5-6 vai mais longe: um homem vestido de linho, com cinto de ouro, corpo como berilo, rosto como relâmpago, olhos como tochas e voz como o barulho de uma multidão. Alguns intérpretes veem ali um anjo de alto escalão, outros o próprio Cristo antes da encarnação. O texto não decide por nós, e talvez o ponto seja justamente que a descrição escapa de qualquer molde.

3. Os serafins cobrem o rosto diante da santidade

Em Isaías 6, o profeta vê o Senhor num trono elevado e, ao redor dele, serafins com seis asas. Com duas cobrem o rosto, com duas cobrem os pés e com duas voam. Eles se chamam uns aos outros: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.

A reação de Isaías não é de deslumbramento com a paisagem. É de desmoronamento: “Ai de mim! Estou perdido!” Um dos serafins então toma uma brasa do altar e toca os lábios dele, anunciando que a culpa foi removida. A cena inteira aponta para a santidade de Deus, e os serafins gastam as asas para esconder o rosto e os pés, como quem não quer ser olhado.

4. Os querubins desafiam a imaginação

Os querubins aparecem cedo na Bíblia, guardando o caminho do Éden com uma espada flamejante (Gênesis 3:24). Mas é em Ezequiel 1 e 10 que a descrição ganha um volume difícil de acompanhar: quatro seres com quatro faces, a de homem, de leão, de boi e de águia, quatro asas, mãos humanas sob as asas, e rodas cujos aros estão cheios de olhos. Em Ezequiel 10:20, o profeta os identifica como querubins.

Ezequiel está entre os exilados, longe de Jerusalém, num momento de colapso nacional. A visão diz ao povo que a glória de Deus não ficou presa ao templo destruído. E, como toda visão profética, ela trabalha com símbolos. Seria um erro tratá-la como fotografia.

5. A Bíblia fala de exércitos celestiais, mas não de uniformes

Os anjos guerreiros existem. Em Apocalipse 12:7-9, Miguel e seus anjos lutam contra o dragão. Em 2 Reis 6:15-17, o servo de Eliseu acorda cercado pelo exército sírio e entra em pânico, até que Deus abre os olhos dele e ele vê o monte cheio de cavalos e carros de fogo.

Em Josué 5:13-15, o chefe do exército do Senhor aparece com a espada na mão e manda Josué tirar as sandálias, porque o lugar é santo. Em Lucas 2:13, os pastores ouvem uma multidão das hostes celestiais louvando a Deus.

O que a Bíblia não traz é o figurino. Ela afirma os exércitos, mas não diz como eles se vestem, que armas portam nem a que cultura se assemelham.

Os anjos em The Chosen e o que Mateus e Lucas dizem sobre o Getsêmani

Mateus 26:47-54 descreve a cena com uma sobriedade que contrasta com o teaser. Judas chega com uma grande multidão armada de espadas e porretes. Pedro saca a espada e fere o servo do sumo sacerdote. Jesus manda guardá-la e pergunta se Pedro pensa que ele não poderia pedir ao Pai mais de doze legiões de anjos.

Uma legião romana reunia milhares de soldados, e por isso a frase soa como um exército sem tamanho. Mas ele não pede, porque, diz Jesus, as Escrituras precisam se cumprir.

Observe o verbo. Mateus apresenta as legiões como uma possibilidade, dentro de uma frase de Jesus. Ele não afirma que os anjos estavam no jardim e muito menos descreve a roupa deles.

Lucas acrescenta um detalhe que o debate nas redes quase não menciona. Durante a oração, um anjo do céu aparece a Jesus para fortalecê-lo (Lucas 22:43). Esse versículo falta em alguns manuscritos antigos importantes, e por isso muitas Bíblias o trazem entre colchetes ou com nota. Se for original, o único anjo que Lucas registra no Getsêmani não vem de armas na mão. Vem para amparar um homem em agonia.

Todo o peso da cena está na decisão de Jesus: “Não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42). Ele tinha poder para resistir e escolheu a obediência até a morte, como Paulo resume em Filipenses 2:8. Tudo o que Jesus faz naquela noite sustenta a nossa esperança, e é isso que nenhuma escolha de figurino deveria apagar.

Com os anjos em The Chosen, a série faz o que o cinema faz: transforma uma frase em imagem. Ao colocar guerreiros esperando uma palavra, os roteiristas tornam visível o poder que Jesus tinha à disposição. É uma escolha dramática compreensível. A dúvida legítima é outra: o que essa imagem acrescenta ao texto, e o que o espectador vai levar dela para a cabeça?

Liberdade artística não é autoridade doutrinária

Uma produção precisa transformar palavras em imagens. Quando os Evangelhos dizem que Jesus andou pela Galileia, alguém tem de escolher o cenário, a roupa, a luz, o rosto dos atores. Nenhuma adaptação escapa disso, e imaginar não é pecado. A questão é o que fazemos com o resultado da imaginação.

Pensar com cuidado sobre a aparência dos anjos em The Chosen pede perguntas mais úteis do que aprovar ou rejeitar o figurino. A escolha ajuda a entender a passagem? Mantém Cristo no centro da cena? Traz associações religiosas que podem confundir o espectador? Há uma intenção doutrinária ou uma decisão estética? Sem resposta dos produtores, não podemos atribuir motivos a ninguém, e relações institucionais, por mais reais que sejam, não provam influência doutrinária.

O cristão não precisa largar o senso crítico para apreciar uma obra de arte, nem precisa tratar cada decisão de figurino como disputa de fé. As duas atitudes cabem na mesma pessoa.

Quando a imagem toma o lugar do texto

A imagem tem mais força do que parece.

Quem leu um romance e depois assistiu ao filme sabe como o rosto do ator toma o lugar do rosto que a gente tinha imaginado, e depois fica difícil recuperar o original. Com a Bíblia pode acontecer a mesma coisa. Jesus usou parábolas e imagens concretas, então a arte tem valor, mas há diferença entre uma imagem que ilumina o texto e uma que passa a ocupar o lugar dele.

A Bíblia deixa sem resposta muita coisa sobre o mundo invisível, e Deuteronômio 29:29 nos lembra que as coisas encobertas pertencem ao Senhor, enquanto as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos. Calvino diria que a Escritura nos ensina o que convém à piedade. Preencher cada lacuna com a imaginação é um impulso humano, mas pode confundir o que Deus disse com o que nós acrescentamos.

Agora, volte comigo ao jardim do teaser dos anjos em The Chosen. Os guerreiros esperam uma palavra, e Jesus não a dá. Essa decisão é a única parte da cena que nenhum figurino altera. Quem pode chamar legiões escolhe a cruz, e é por isso que os anjos, de rostos tão variados na Bíblia, nunca ocupam o centro da história. Eles servem Aquele que entra na noite para nos salvar.

Quando você pensa em anjos, qual imagem vem primeiro à cabeça, e de onde ela veio: da Bíblia, da arte ou do cinema? E o que muda na sua leitura de Mateus 26 se você tirar essa imagem de cena por alguns minutos? Conte nos comentários.


Rodomar Ricardo Ramlow é teólogo, escritor, professor e criador de conteúdos em textos e vídeos. Reside em Nova Petrópolis, RS. É casado com Débora, pai de Sophia e Henrique.


E se a pergunta mais interessante sobre os anjos não for como eles são, mas a quem servem?

Wayne Grudem escreveu uma das teologias sistemáticas mais lidas por quem está começando a estudar doutrina. Na parte dedicada aos anjos, ele reúne os textos bíblicos sobre a criação, a natureza e o ministério deles e discute o que podemos afirmar com segurança. A linguagem é direta, os capítulos se organizam por perguntas, e a leitura funciona bem para quem quer estudar com a Bíblia ao lado. Para quem saiu do clipe de The Chosen com mais perguntas do que respostas, é um ponto de partida sólido.

Leia o capítulo sobre os anjos com a Bíblia aberta e anote cada texto citado. Depois confira se ele realmente diz o que o autor afirma.

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C S Lewis O Grande Divórcio. O Grande Abismo. Capa Livro. Teologia Missional.

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