Vocação: Antes de descobrir o que fazer, descubra quem você é

Toda criança já ouviu a pergunta, e quase sempre respondeu sem pestanejar: o que você quer ser quando crescer? A resposta vinha na hora, leve, sem drama nenhum. Bombeiro, professora, jogador, médica. O curioso é que essa pergunta não vai embora quando a gente cresce. Ela continua ali, só que passa a aparecer disfarçada, e bem mais pesada. Aparece na hora de escolher o curso, no emprego que paga as contas mas deixa um vazio, naquela vontade meio surda de largar tudo e começar de novo sem saber direito começar o quê. Quando criança, dava para responder de bom humor, porque a pergunta não cobrava nada. Aos trinta, aos quarenta, ela cobra a vida inteira.

Escrevi Vocação por causa dessa segunda versão da pergunta, a que tira o sono. E escrevi porque as respostas que costumam aparecer por aí caem quase sempre em uma de duas armadilhas, e nenhuma das duas resolve.

A primeira armadilha é a do teste. Aquele que promete, em quinze minutos e umas poucas telas, revelar a sua “profissão certa”, como se a sua vida fosse uma prova com gabarito no fim. A segunda é o contrário disso, e mora dentro das nossas igrejas: a ideia de que vocação é assunto de pastor e missionário, e que todo o resto, o balcão, a sala de aula, a planilha, a obra, é trabalho de segunda categoria, que a gente tolera enquanto a vida de verdade não começa. Uma delas espreme a vocação até ela caber num quiz; a outra a tranca dentro do templo. O livro não aceita nenhuma das duas.

E a saída começa numa palavra. Vocação vem do latim e significa mais ou menos isto: “a voz que chama”. Pode parecer um detalhe de dicionário, mas repare no que ele faz. Se existe um chamado, então existe alguém chamando. A vocação deixa de ser aquela coisa que eu preciso buscar dentro de mim, na base da introspecção ou da sorte, e vira uma resposta a uma voz que veio de fora. Nós cremos que essa voz é a voz de Deus. E, quando é ele quem chama, até o mais simples dos trabalhos honestos se torna um lugar de servir. Lutero gostava de dizer que Deus ordenha as vacas por meio de quem senta no banquinho e tira o leite. A imagem é meio rústica de propósito: é assim que ele faz o mundo girar, por meio de mãos comuns, e a sua bem que pode ser uma delas.

Se me pedissem para dizer em que ponto bate o coração do livro, eu apontaria para uma virada que talvez incomode no primeiro momento. Antes de descobrir o que fazer, tem uma coisa mais profunda a ser tratada: quem você é. O mundo nos treinou para o contrário, para medir o nosso valor pelo cargo, pelo salário, pelo tanto de elogio que a gente consegue colecionar. Não é à toa que tanta gente vive no limite, cansada, atrás de um reconhecimento que nunca chega a ser suficiente. O livro segue, capítulo após capítulo, até uma cena que desmonta essa lógica insana. Não vou contá-la aqui. Digo só que ela se passa à beira de um rio, que tem uma voz vinda do céu, e que essa voz declara amor e aprovação a alguém que, até aquele momento, não tinha feito nada de extraordinário. Primeiro veio o amor, e só depois vieram os feitos. Quem se dá conta disso trabalha de um jeito mais solto, porque parou de precisar provar o próprio valor a cada esquina.

No caminho, o livro conta de onde saiu essa ideia de que trabalhar é castigo, e mostra que nem sempre pensamos assim; volta ao começo de tudo, quando cultivar a terra e fazer cultura eram parte da dignidade de ser gente, e não uma pena a ser cumprida como punição; e acompanha a vida de um homem que serviu a Deus na política, tocando um país inteiro numa crise, longe de qualquer altar, só para deixar claro que ministério não acontece apenas no púlpito.

É um livro curto e direto, e isso foi escolha proposital. Eu não queria um tratado, queria um convite. Ele não entrega a resposta pronta da sua vida, e olhe com desconfiança para quem promete uma coisa dessas. O que ele faz é mais honesto e dura mais tempo, porque ajuda você a fazer as perguntas certas e a chegar na próxima segunda-feira sem aquele aperto no peito.

Se a pergunta da infância ainda ronda você, mesmo disfarçada, foi para você que eu escrevi este livro.

Não somos os salvadores do mundo. Somos sinais. Se ainda não sabe o que isso significa, então, esse livro é pra você.

Vocação nasceu de uma convicção simples: você não é aquilo que faz. Antes de qualquer profissão, existe uma voz que chama, e é dela, e não de um teste de quinze minutos, que vem o seu lugar no mundo. Num tempo que mede gente por desempenho, este livro curto e direto faz o contrário: devolve dignidade ao trabalho comum e ajuda você a fazer as perguntas certas sobre a própria vida. Se a velha pergunta “o que fazer da minha vida?” ainda tira o seu sono, comece por aqui.

Garanta o seu exemplar de Vocação e encare a próxima segunda-feira de outro jeito.


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