“Quando viu as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e abatidas, como ovelhas sem pastor.” (Mateus 9:35–38)

Numa estação de metrô em horário de pico, ninguém olha ninguém. A multidão é cenário, os rostos são plano de fundo por onde a gente passa apressado, ocupado demais com a própria vida para enxergar quem está ao lado. Jesus atravessava as multidões de outro modo.

Mateus descreve seu ritmo numa frase densa: percorria cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando doenças. É um retrato de movimento constante. Jesus não ficava parado à espera de que as pessoas viessem até ele. Ele ia. E quando chegava, curava todas as doenças e enfermidades, sem seleção e sem estratégia.

O versículo 36 dá o motivo de tudo isso: “Quando viu as multidões, teve compaixão delas.” A palavra grega é splagchnizomai, e não tem tradução exata porque aponta para algo físico, um movimento que nasce nas entranhas, uma dor visceral diante do sofrimento alheio. Está longe da pena distante e da simpatia educada. É o aperto no estômago de quem vê alguém amado sofrer e não consegue ficar parado.

O que provoca essa compaixão é o estado das pessoas: aflitas e abatidas, como ovelhas sem pastor. As duas palavras do original descrevem gente maltratada e jogada fora, literalmente espancada e atirada ao chão. Jesus olha para aquelas multidões e não vê massa anônima. Vê pessoas carregando peso demais, perdidas, cansadas, sem direção, gente que ninguém pastoreia de verdade.

“Jesus cura porque se importa”

Há aqui um traço do caráter do Rei. Jesus não cura para impressionar, não prega para construir audiência, não sente compaixão como tática de crescimento ministerial. Ele cura porque se importa. A compaixão pertence ao que ele é, não ao que ele usa: é o modo como o coração do Rei reage diante do sofrimento humano.

Esse mesmo olhar alcança quem hoje está abatido. Se você carrega um peso que não diminui e se sente como ovelha sem direção, é com splagchnizomai que Jesus o vê, não de longe nem com indiferença educada, mas com aquele movimento que começa nas entranhas. E ele não para na comoção; age. O capítulo 9 de Mateus, até esse ponto, está cheio de curas e restaurações, de gente que voltou para casa diferente de quando saiu.

Então Jesus se volta para os discípulos e faz algo inesperado. Em vez de prometer cuidar de tudo sozinho, diz: “A colheita é grande, os trabalhadores são poucos. Peçam ao Senhor da colheita que envie trabalhadores.” A compaixão que ele sente começa a ser transferida. Ele não terceiriza o problema; forma um povo que aprende a ver as multidões com os mesmos olhos.

O evangelho produz exatamente esse movimento. Quem entende que foi visto no estado mais abatido, alcançado por compaixão real e curado deixa de tratar as pessoas ao redor como cenário e passa a enxergá-las como Jesus enxergava, aflitas, abatidas, precisando de pastor. A comoção que nasceu nas entranhas do Rei diante das multidões é a mesma que ele coloca dentro dos que cura, e com ela os envia para a colheita.


Passo de Discipulado
Esta semana, escolha uma pessoa que está claramente aflita e abatida, alguém que você tem visto sem de fato enxergar. Faça algo simples e concreto: ligue, visite, mande uma mensagem real, não um emoji. Diga que percebeu o peso que ela carrega e que você está disponível. Não é preciso resolver nada, apenas ver, como Jesus via.


Oração
Senhor Jesus, obrigado porque, quando eu estava abatido e sem direção, o Senhor me viu, não com pena distante, mas com compaixão real. Perdoa-me por olhar para as pessoas ao meu redor sem enxergá-las. Dá-me os teus olhos, que veem o cansaço por trás dos sorrisos e a perda por trás da normalidade. Faze de mim instrumento da tua compaixão onde eu estiver. Em nome de Jesus, amém.

Quero ir além: João 11:33–35

Se Jesus transferiu sua compaixão aos discípulos para a colheita, como você transforma aquele aperto no peito em ação concreta?

Em “Ministérios de Misericórdia“, Timothy Keller move o que o devocional convocou — reconhecer quem está aflito e abatido — para o próximo passo crítico: como cristãos ordinários vivem esse ministério vital não como heroísmo ocasional, mas como tarefa tão fundamental quanto adoração e evangelismo. Keller treina indivíduos, famílias e igrejas para ministério prático de misericórdia, mostrando que a compaixão que brota nas entranhas precisa alcançar mãos, tempo e recursos. Essencial para quem está pronto para transformar emoção piedosa em ação estruturada.

Aprenda a fazer o que a compaixão exige.


Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Um espaço dedicado a explorar a igreja e a teologia a partir de uma perspectiva missional. Aqui, buscamos refletir sobre a missão de Deus no mundo, como a igreja pode viver de forma fiel ao chamado cristão e como podemos aplicar os ensinamentos bíblicos de maneira prática e transformadora em nossa sociedade.

Descubra mais sobre Teologia Missional

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo