Entre o homem que não chora e o homem que não pode ser nada, existe uma terceira via. Jesus não cabe em nenhuma das caixas que o nosso tempo oferece
Os homens que eu vi crescendo, no interior do Espírito Santo, tinham um script bem definido sobre o que era ser homem. Não se chorava. Não se reclamava do peso do trabalho. Carregava-se calado. Era um script duro, mas havia um roteiro, e todo mundo sabia as regras dele. Hoje, como pastor, vejo outra coisa: rapazes que não têm mais script nenhum, só uma sensação difusa de que qualquer forma de ser homem pode estar errada.
Vivemos num tempo de caixas. Caixas culturais, ideológicas, psicológicas, sociais. Elas oferecem modelo pronto, identidade predefinida, comportamento pré-aprovado. E uma das mais disputadas de todas é a caixa do masculino. O homem contemporâneo é chamado, o tempo todo, a se redefinir. Dizem a ele o que abandonar, o que sentir, como falar, como se relacionar, e sobretudo o que significa ser homem.
Parte desses discursos nasce de um problema real. Existe, sim, uma masculinidade marcada pela violência, pelo autoritarismo, pelo egoísmo, pela incapacidade de amar, e esses males precisam ser enfrentados sem meio-termo. Mas há uma diferença enorme entre corrigir a deformação do homem e desconstruir a própria ideia de masculinidade, e é exatamente aqui que quero focar: se os modelos que circulam por aí não servem como padrão, onde encontramos a imagem verdadeira do homem? Arrisco uma resposta que talvez soe estranha à primeira vista: para achar o homem de verdade, é preciso sair de todas as caixas, inclusive das antigas, e olhar para Jesus Cristo.
A Crise Não Está nos Homens, Está na Ideia de Homem
Nunca se falou tanto sobre masculinidade, e talvez nunca tenha existido tanta confusão sobre o que ela significa. De um lado, sobrevive o modelo antigo e caricatural: o homem que não chora, não demonstra fragilidade, domina, impõe, mostra força pela agressão. Do outro, surgem modelos novos que tentam resolver o problema simplesmente negando tudo o que sempre se associou ao masculino, como se a solução para a força mal-usada fosse abolir a força.
O efeito é que o homem hoje se sente diante de uma espécie de tribunal permanente. Precisa provar, o tempo todo, que não é violento, que não é autoritário, que não representa ameaça a ninguém. E devagar pode nascer uma sensação perigosa: a de que ser masculino já é, em si, um problema a ser superado.
Mas o problema está na masculinidade, ou na deformação daquilo que o homem deveria ser? A diferença importa. Condenar a violência não é o mesmo que condenar a força. Rejeitar o autoritarismo não é rejeitar a liderança. Combater a dominação não é negar a responsabilidade. O desafio não é destruir o homem. É redescobrir o que ele deveria ser desde o início.
O Homem Que Não Cabe em Nenhuma Caixa
Jesus Cristo não cabe nas caricaturas de nenhuma época. Não corresponde ao ideal do homem agressivo e dominador, mas também não corresponde ao homem sem firmeza, sem identidade, sem coragem para dizer não. Ele é manso, mas não passivo. Acolhe, mas confronta. Chora abertamente diante do túmulo do amigo, o relato mais curto dos evangelhos registra só isso: “Jesus chorou” (João 11:35), e ainda assim enfrenta autoridades religiosas sem hesitar quando encontra hipocrisia disfarçada de piedade (Mateus 23). É esse conjunto que não se deixa encaixar em caixa nenhuma, e talvez seja exatamente por isso que ele importe tanto para uma época desesperada para definir o que é ser homem.
A Força Que Não Precisa de Violência
Um dos maiores enganos sobre masculinidade é confundir força com violência. São coisas bem diferentes: a violência nasce, quase sempre, da incapacidade de controlar a própria força, enquanto o homem verdadeiramente forte não é o que domina os outros, é o que consegue se dominar primeiro.
Jesus tinha uma força que não precisava humilhar ninguém para se afirmar. Não gritava para ser ouvido, não ameaçava para ser respeitado, não precisava destruir adversário nenhum para provar poder. Isso revela algo essencial: a força não existe para dominar, existe para servir. O homem forte não é aquele diante de quem todos têm medo, é aquele ao lado de quem os outros se sentem seguros. O marido forte não domina a esposa, assume responsabilidade por ela. O pai forte não governa pelo medo, sustenta a casa com a própria presença. O líder forte não impõe vontade, carrega o peso que os outros não conseguem carregar sozinhos. A força masculina alcança a sua grandeza quando troca a pergunta “como posso exercer poder” pela pergunta “por quem devo assumir responsabilidade”.
A Coragem de Ser Vulnerável
Outra caixa cultural diz que homem não demonstra sentimento, não chora, não confessa fraqueza. Esse modelo produziu gerações de homens emocionalmente calados: aprenderam a trabalhar, mas não a conversar; a resolver problema, mas não a expressar o que sentem; a suportar dor, mas não a pedir ajuda.
Jesus rompe também essa caixa. Ele demonstra compaixão, chora, sofre, busca companhia na hora difícil, chega a dizer aos discípulos no Getsêmani que a sua alma estava “profundamente triste, a ponto de morrer” (Mateus 26:38). Isso não diminui em nada a sua masculinidade, mostra que a força verdadeira não exige negar a própria humanidade. Existe uma falsa crença de que vulnerabilidade é fraqueza, mas é preciso coragem de verdade para dizer “eu errei”, “eu preciso de ajuda”, “eu tenho medo”. Muitos homens parecem fortes porque construíram muro. Mas muro nem sempre é sinal de força. Às vezes é só sinal de medo bem disfarçado.
Liberdade Sem Responsabilidade Não Amadurece Ninguém
Um dos aspectos mais decisivos da masculinidade é a responsabilidade. Ser homem não é ter privilégio, é assumir encargo: pela própria vida, pelas próprias escolhas, pela palavra dada, pela família, pela comunidade, pelas pessoas que foram confiadas aos seus cuidados.
O homem imaturo quer liberdade sem responsabilidade, direito sem dever, prazer sem consequência, relacionamento sem compromisso. Jesus mostra o caminho oposto: a grandeza dele aparece justamente na disposição de se entregar. Ele não usa posição nenhuma para exigir privilégio, assume responsabilidade até o fim. Talvez essa seja uma das maiores crises da masculinidade hoje, a de homens que envelhecem sem amadurecer, que têm idade mas não responsabilidade, liberdade mas não compromisso, desejo mas não disciplina para sustentá-lo. Ser homem significa trocar a pergunta “o que a vida pode me oferecer” pela pergunta “qual é a minha responsabilidade diante da vida”.
Liderar Não É Dominar
Existe uma razão legítima para desconfiar de certos discursos tradicionais sobre masculinidade. Durante muito tempo, homens confundiram liderança com dominação, autoridade com autoritarismo, respeito com medo. Jesus não permite essa confusão: a verdadeira autoridade não diminui ninguém, serve; o verdadeiro líder não usa as pessoas, cuida delas.
Um homem seguro não precisa diminuir uma mulher para se sentir homem, nem humilhar outro homem para provar força, nem transformar a vida inteira numa disputa permanente. A insegurança produz necessidade de dominar; a maturidade produz capacidade de servir. Talvez a frase mais exata seja esta: o oposto da dominação não é a ausência de masculinidade, é a masculinidade que amadureceu.
Amar É Mais Que Sentir
Vivemos numa cultura que fala muito de amor e o reduz, com frequência, a sentimento: amar seria sentir, desejar, receber. O amor de Jesus é outra coisa, mais profunda: amar é comprometer-se, permanecer, cuidar, buscar o bem do outro mesmo quando custa. Isso muda a pergunta sobre masculinidade. Um homem não se torna homem por força física, capacidade sexual, poder econômico ou posição social. A sua maturidade aparece em como trata quem está mais perto, a esposa, os filhos, os pais, os idosos, os fracos, e até quem discorda dele. Essas respostas revelam mais sobre um homem do que a profissão, o corpo ou o saldo bancário. Porque um homem pode acumular poder e ainda não ter aprendido o que significa ser verdadeiramente forte.
Mansidão Não É Fraqueza
Há uma diferença enorme entre ser manso e ser incapaz de reagir. O homem manso não é o que não tem força, é o que tem força e não é controlado por ela. Mansidão é poder disciplinado, coragem submetida à sabedoria. Foi o próprio Jesus quem disse de si mesmo: “aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração” (Mateus 11:29), e ainda assim não era indiferente, confrontava a hipocrisia e não negociava a verdade para evitar conflito.
O homem de hoje não deve ser educado para a agressividade, mas também não deve ser convencido de que toda firmeza é violência. Há hora de dizer não, de estabelecer limite, de confrontar o erro, de defender quem não pode se defender sozinho. Às vezes o silêncio não é paz, é covardia com roupa de paz. Jesus ensina que paz verdadeira pode, sim, exigir coragem.
Uma Causa Maior Que Si Mesmo
Uma das tragédias do individualismo contemporâneo é colocar o indivíduo no centro de tudo, organizando a vida em torno de uma única pergunta: o que eu quero? Um homem que vive só para si dificilmente amadurece, porque o egoísmo infantiliza e a responsabilidade amadurece.
Jesus vive orientado por missão, a vida dele tem direção, não existe para satisfazer apenas o próprio conforto. Talvez essa seja uma das grandes carências dos homens do nosso tempo: uma causa maior que o próprio ego. Todo homem precisa de um motivo para se levantar, para saber por que trabalha, constrói, serve, permanece. Sem missão maior, a vida vira busca infinita por entretenimento e consumo, e nenhuma dessas coisas basta para sustentar uma existência inteira. O homem amadurece quando descobre que a vida dele não existe só para ele mesmo.
Sair da Caixa
A contemporaneidade oferece muitas caixas, a do homem agressivo, a do dominador, a do emocionalmente ausente, e também as novas, que tentam redefinir o homem negando toda força, confundindo firmeza com opressão e coragem com agressividade. Jesus não cabe em nenhuma delas, e talvez o desafio real não seja escolher entre o modelo antigo e os modelos novos. Seja sair de todas as caixas de uma vez, porque o homem não foi feito para caricatura, nem para máquina de força, nem para adolescente permanente.
Precisamos distinguir masculinidade de deformação: violência não é força, autoritarismo não é liderança, insensibilidade não é coragem, irresponsabilidade não é liberdade. Jesus mostra que dá para ser forte sem violência, sensível sem fraqueza, líder sem dominação, firme sem perder a capacidade de amar. E talvez o maior desafio da nossa época não seja formar homens segundo as caricaturas do passado nem moldá-los conforme as caixas novas do presente, mas formar homens capazes de olhar para Cristo e perguntar o que significa, de fato, tornar-se plenamente humano. Porque num mundo cheio de modelo pronto, a coragem mais rara talvez seja essa: sair da caixa, e descobrir que ser homem não é dominar, nem esconder, nem competir. É aprender a amar, servir, proteger, assumir responsabilidade, permanecer firme diante do mal, e colocar a própria força a serviço da vida.

Romildo Ricardo Ramlow é pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Campo Mourão, Paraná. É casado com Samara e pai de Matias. Possui formação em Teologia, Serviço Social, Educação e Filosofia.
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A força masculina amadurece quando troca a pergunta “que poder eu exerço” por “por quem sou responsável”. E nesse momento surge a pergunta: e o que você está construindo, concretamente, para as pessoas que dependem de você?

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